Por Valdemir José Francisco para o RH.com.br 
Pouco tem falado-se de crescer em segundo lugar e é exatamente isso que quero focar, a arte de ser o segundo. Em trocadilhos, a arte de ser o segundo é não ser o primeiro, é não receber o maior salário, é não receber o primeiro elogio, é não ter a primazia, é não ter a palavra final, decisiva (mesmo quando se pensa ter a palavra certa), é não ter os melhores benefícios, é estar assistindo o primeiro receber tudo isso e muito mais.
Chamo de arte, porque realmente é uma habilidade artística da parte de quem consegue ser o segundo sem se rebelar, sem querer puxar o tapete do primeiro para assumir sua posição, sem deixar o coração se encher de inveja, sem sabotar estratégias, sem torcer para a derrocada do primeiro.
Gosto muito da expressão bíblica referente a João Batista, quando alguém certa vez lhe disse: Aquele que você batizou (referindo-se a Jesus), agora batiza mais pessoas do que você. João prontamente respondeu: que Ele cresça e eu diminua. Ai está um exemplo de alguém que aprendeu a arte de ser o segundo. João entendeu não ser ele o ator principal da história, mas a história também precisa de coadjuvantes.
O profissional que desenvolver essa capacidade de atuar como segundo, sem se deixar corroer pela ganância de ser o primeiro, certamente terá seu espaço nas organizações, pois essa arte só é possível com a presença de duas das várias virtudes necessárias a uma parceria duradoura: confiança e lealdade.
Mesmo diante da acirrada competitividade, os valores absolutos da humanidade, isto é, respeito, ética, enfim, tudo aquilo que a história já convencionou como absolutos em todos os tempos e lugares, não podem se ausentar do mundo organizacional. Saber exatamente o lugar, a função e as atribuições, certamente diminuirá em muito os conflitos hierárquicos. É sempre bom lembrar que a cada um é dado um espaço, uma ocupação e só por isso somos responsáveis.
Aprender a arte de ser o segundo pode ser difícil, mas denota grandeza de caráter e amadurecimento profissional. Nesta questão, cabe aos profissionais de RH estarem atentos à forma como acontece a competição entre os colaboradores em suas organizações. É extremamente salutar a competição, e até deve ser estimulada, desde que seja legitimada pela ética profissional, que vise crescimento pessoal sem detrimento dos objetivos e metas da organização, que as armas (ferramentas) utilizadas não destruam, mas construam ambientes saudáveis e incentivadores de crescimento.
Infelizmente, nesta corrida por um maior espaço dentro das organizações alguns profissionais não respeitam a própria lei da natureza do crescimento. A lei da sementeira pode ser usada como exemplo desta verdade: preparar a terra, plantar, regar, impedir o acesso das ervas daninhas, ser paciente ao tempo apropriado de desenvolvimento de cada fruto, para então colher e desfrutar dos benefícios. São etapas importantes e fundamentais para o sucesso na agricultura.
A urgência em "subir" tem feito muitos atropelarem o próprio tempo e com isso acabam atropelando a própria carreira, deixando de adquirir experiência, maturidade e conseqüentemente o sucesso profissional no novo patamar adquirido, e em alguns casos precisam voltar e começar tudo novamente. Isto é retrabalho. Os gregos utilizavam a palavra "neófito" para designar alguém inexperiente. A palavra "neófito" sugere "alguém recentemente plantado". Isto é, alguém que ainda não alcançou o crescimento ideal para assumir uma determinada posição.
Cada degrau da vida profissional deve ser respeitado, valorizado, vivenciado intensamente, pois só assim o passo seguinte será dado com firmeza. O andar deve ser no ritmo certo, nem lento demais para não ser o último a chegar, nem demasiadamente acelerado para não cair no erro de atropelar o número 1.
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