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27/04/2009
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Reavaliando o papel do estágio

Por Marianne Kellner Haak para o RH.com.br

Nesses tempos de ênfase ao estudo universitário, observamos, semestre após semestre, ano após ano, um fenômeno que move milhares de jovens estudantes: a busca por um estágio. Com a atenção presa por informes de empresas que se dizem interessadas em encontrar no mercado jovens de iniciativa, talentosos, que gostem de obstáculos e que disponham de uma grande vontade de evoluir, milhares de formandos e até mesmo iniciantes de cursos - os mais corajosos - partem à procura de uma "boa" empresa, onde possam encontrar oportunidades para começar a desenvolver suas aptidões e capacidades, objetivando uma bem-sucedida futura carreira profissional.

Logo de cara, dão-se conta de que o começo não é tão fácil assim. A concorrência é cruel: universidades privadas e públicas lançam regularmente ao mercado, melhor ou pior preparados, um número de concorrentes muito acima do número de vagas. Mesmo assim, esta luta é encarada e os jovens passam a enfrentar uma série de testes seletivos - entrevistas pessoais e em grupo, testes psicológicos, dinâmicas de grupo - até despontarem aqueles "mais dotados" ou que se inserem melhor no chamado "perfil empresarial".

E o que acontece depois? É muito comum vermos estagiários sendo utilizados como mão-de-obra barata - especializada, sim -, porém limitada a "desencalhar" pilhas de papel, ser um "micreiro" ou quebrar o galho em tarefas que ninguém quer fazer. Se neste momento perguntarmos a uma série de estagiários qual a natureza das tarefas que executa, fatalmente uma parcela reconhecerá as atividades acima citadas.

Ora, em uma época em que a capacidade humana torna-se necessária para o desenvolvimento da organização, a trajetória necessária é simplesmente oposta à que vem sendo utilizada. O uso de jovens talentos não pode ser massificante. Já não há mais espaço para modelos baseados no uso intensivo de mão-de-obra barata.

A solução do problema não está em se ter um programa de estágio bem delineado. Trata-se, principalmente, de enfocar a problemática do estágio como um fato que projeta luz sobre o futuro - organizacional e mundialmente falando - cada vez mais competitivo e criterioso quanto ao uso de recursos, inclusive os humanos.

Peter Drucker afirma, em uma de suas obras que o ideal sobre o qual se alicerça a sociedade pós-capitalista, fundamentalmente uma sociedade de conhecimento, é o da "pessoa educada", dado que é nela - e somente graças a ela - que o conhecimento acontece. Ou seja, o ser humano aparece como o emblema do conhecimento, trazendo em seu bojo o ideal educativo, que consiste não apenas em "habilitar pessoas profissionalmente", mas fundamentalmente em "formar pessoas".

O fato de não assumir esta realidade parte também dos próprios estagiários, que acabam por fechar o elo desse círculo vicioso: a atitude destes é, às vezes, de total apatia frente ao papel que lhes cabe dentro da organização. Quantos jovens encaram o estágio como uma forma de apenas cumprir créditos para a faculdade ou ganhar uns tostões, esquecendo-se de que é somente com um começo frutífero e encarado seriamente de ambas as partes - empresa e estagiário - que se pode dar o estopim do desenvolvimento integral do indivíduo, gerando resultados não apenas no nível profissional, mas também pessoal.

Afinal de contas, as empresas do futuro não vão poder se dar ao luxo de trabalhar com materiais apenas "bons": a qualidade dos recursos humanos não poderá ser menos que excelente. Portanto, não basta a mudança de postura apenas de um lado. A balança tem que ser equilibrada, tanto pelas empresas quanto pelos jovens.

Aos estagiários, cabe um questionamento: como usar, além dos braços e pernas, o cérebro ainda oxigenado em função de um desenvolvimento profissional e humano, de forma a acarretar em mudanças reais dentro de uma organização, fazendo com que esta caminhe com mais competência rumo ao futuro, em termos de competitividade, utilização de recursos e melhoria social.

As organizações, por sua vez, devem abandonar de vez suas práticas massificantes em relação ao estágio, pois estas destroem artérias que carregam sangue novo para dentro da empresa. O futuro necessita de material humano não apenas "educado", mas principalmente de altíssima qualidade, que possa transformar seu início profissional em uma alavanca permanente em busca de excelência pessoal e, consequentemente, organizacional. Se às universidades cabe o papel de entregar à sociedade jovens melhor preparados, às empresas cabe dar-lhes oportunidades reais de crescimento e desenvolvimento.

Portanto, somente a mudança de foco de ambos os lados - abandono da figura da mão-de-obra barata qualificada e da necessidade de cumprimento de um currículo mínimo - pode induzir ao compromisso de desenvolver os profissionais que, certamente, o futuro exigirá, garantindo a construção da arquitetura estratégica do próprio país frente às necessidades do terceiro milênio.

Palavras-chave: | estágio |

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COMENTÁRIOS (3)
Paula Pacheco em 18/07/2009:
Parabenizo pelo texto. Sou universitária e faço estágio na área de RH. Entendo que as empresas, algumas vezes, nos utilizam como mão de obra, mas o posicionamento de cada pessoa, faz toda a diferença. Aquele estagiário que tem comprometimento, disposição, pró-atividade e bom desempenho atrai o olhar dos gestores e acentua suas competências com isso, aumenta a credibilidade e confiança no seu trabalho e nas suas informações. Ainda que seja um estagiário, o ideal é que você seja o estagiário!!!!!

Gilberto C. Olgado em 06/05/2009:
Bela abordagem do que ocorre hoje com os estagiários no mercado de trabalho. As empresas procuram as chamadas brechas para diminuirem seus custos e contratam estagiários muitas vezes para suprir tarefas corriqueiras na empresa. Por outro lado, cria oportunidade para universitários adentrarem na empresa e adquirir conhecimento tendo contato diretamente com o trabalho e o ambiente interno da empresa. Acredito que mesmo a empresa contratando estagiário com esta finalidade, cabe ao estagiário ter a atitude de aproveitar ao máximo este tempo dentro da empresa procurando fazer tarefas além das corriqueiras. Este interesse por aprender, faz com que a empresa também se interesse por ele, e mude o conceito inicial. Mas quando o estagiário fica passivo em fazer somente o que lhe é solicitado irá cumprir apenas o propósito inicial da empresa. É preciso quebrar este paradígma! Grande Abraço.

Camila Silva em 29/04/2009:
Olá! Gostaria de parabenizar pelo tema ! Estágio é um assunto que merece muita atenção, ainda mais no cenário econômico atual! É preciso realmente riscar o conceito de mão-de-obra barata, e assumir o verdadeiro papel, que é o de proporcionar a prática agregando ao conhecimento teórico adquirido dentro do ambiente acadêmico. Comecei como estágiária na empresa que trabalho até hj, já se passaram 10 anos, e agradeço minha supervisora na época, por deixar nas minhas mãos situações desafiadoras, além das várias pilhas de papéis para serem copiadas! Quanto ao trabalho massante, que quase ninguém quer fazer, assumi com satisfação, porém foram os desafios que me proporcionaram a oportunidade de ser admitida no quadro de pessoal! Mas resssalto, mesmo que as empresas tenham um excelente plano de estágio , ainda sim, cabe ao estagiário "querer" agregar naquela organização. Infelizmente, hoje, deparo-me com estagíarios que só querem os beneficios financeiros que a empresa possa fornecer! Lastimável, imagina quando for absorvido no quadro de pessoal! OBS: sempre trabalhei em Recursos Humanos!

 
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