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28/09/2009
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Origens e perspectivas do “pós-carreira” no Brasil

Por Renato Bernhoeft para o RH.com.br

Entre as satisfações que pode sentir um profissional que cria algo - produto, ideia, mensagem, entre outras coisas - é a de que sua "criatura" se torne de domínio público e seja amplamente utilizada, tanto por profissionais como comunicadores. E é exatamente isto que vem ocorrendo com a expressão "pós-carreira" que criei no início da década 80, para designar o primeiro programa estruturado, e brasileiro, de preparação de executivos para a aposentadoria.

Vale lembrar que naquela fase o Brasil era conhecido pela forte presença de uma população jovem - aproximadamente 50% tinham menos de 20 anos - o que tornava o assunto aparentemente menos interessante, tanto para empresas como profissionais. Descrevendo um pouco as origens do programa de pós-carreira podemos dividi-la em duas partes. A primeira é resultado de um exercício realizado com profissionais no tema Administração do Tempo e Qualidade de Vida, em que se pedia a cada um que analisasse como encarava suas preocupações quando examinava sua vida nas perspectivas do Passado, Presente e Futuro.

A grande maioria priorizava o futuro dentro de uma justificativa de que tudo aquilo que não havia realizado no passado, e tão pouco conseguia desfrutar no presente, seria vivenciado no futuro. Ou seja, um processo de adiamento de sonhos, realizações e desfrute. O que, realisticamente, pode não ser alcançado, na medida em que esta será uma etapa da vida distante e muito diferente. Com todas as implicações provocadas pelo aumento da idade.

O segundo aspecto foi resultado da observação dos conceitos que fizeram surgir na Europa, as chamadas Escolas da Terceira Idade. Pois, segundo alguns estudiosos europeus, a vida se divide em três etapas: Preparação para o trabalho - processo que ocorre na infância e na adolescência; Etapa do trabalho - caracterizada por um vínculo empregatício ou de atividade própria; e Pós-trabalho - fase em que o indivíduo se desvincula de um compromisso formal com o trabalho.

A constatação era de que as pessoas estavam muito bem preparadas - ou se preocupavam - com as duas primeiras. Mas entravam na terceira fase totalmente despreparadas. Principalmente considerando que no continente europeu os índices de longevidade vinham aumentando e os de natalidade estavam em franco declínio, notadamente no período do pós-guerra. Aqui no Brasil, nesta mesma época, a principal preocupação dos profissionais, e no que se refere ao tema da aposentadoria, estava concentrada, estritamente, na questão financeira. Ou seja, a criação de reservas para manter seu padrão de vida. Inclusive os próprios planos de previdência se preocupavam apenas com as questões acumulativas do assunto.

Questões tais, como a perda da "identidade organizacional" - o sobrenome que a corporação empresta ao funcionário durante sua permanência na mesma - não faziam parte do repertório de preocupações dos executivos. E outras tantas como a perda da autoestima quando ocorria a perda do vínculo empregatício; depressão; conflitos conjugais e familiares; saúde e cuidados físicos na terceira-idade, entre outros, pareciam desnecessários serem tratados. Até porque, quem os sentia já estava fora do mercado de trabalho.

A própria área de Recursos Humanos nas empresas propagava que seu papel, dentro de uma visão sistêmica, era apenas o de captar, integrar e desenvolver pessoas para e na organização. Desconsiderava, portanto, uma missão, que também é sua, no sentido de "reintegrar" este cidadão quando ele conclui sua etapa de vínculo empregatício e retorna à sociedade, ou ao mercado.

Ao olharmos este assunto, tanto na perspectiva atual, como futura, é possível constatar que o tema só ganhou importância e valorização. Para tanto, basta examinar alguns indicadores muito presentes no mundo atual. Um dos mais significativos é a mudança do perfil da população brasileira, provocada especialmente pelo aumento nos índices de longevidade e melhoria da qualidade de vida. Houve um aumento significativo do número de pessoas com mais de 50 anos no país, a redução do tempo médio de permanência de um profissional na mesma carreira, as mudanças no mundo organizacional, além do rápido surgimento, e desaparecimento, de empresas no competitivo universo do mercado nacional e internacional.

Outro ponto emblemático é a alteração das características e perfil da família brasileira, em que em muitos casos o rendimento do profissional aposentado representa grande parte do sustento do núcleo familiar. Sem entrar em detalhes sobre o prolongamento do tempo de permanência dos filhos sob a tutela, na qualidade de dependentes, da estrutura de sua família de origem.

Enfim, a cada dia fica mais claro que preparar-se para uma qualidade de vida adequada, tanto na perspectiva pessoal, quanto profissional, não é assunto para ser trabalhado apenas na terceira-idade ou véspera da aposentadoria. Deve fazer parte do projeto de vida das pessoas muito antes de ingressarem no mercado de trabalho. É um assunto vital tanto para as pessoas como também para as empresas que necessitam manter e renovar seus quadros profissionais, além de manter o conhecimento acumulado pelas pessoas e organizações. O "pós-carreira" hoje, e cada dia mais, deverá ser parte do conjunto de políticas das corporações.

Palavras-chave: | crescimento profissional | terceira idade |

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COMENTÁRIOS (1)
ADRIANA VIEIRA em 14/10/2009:
Parabéns pelo artigo que é uma realidade na vida das pessoas, que na juventude se preparam para o mercado de trabalho, depois que coseguem uma colocação trabalham, trabalham e lutam para na "terceira-idade" se aposentarem. Eis o grande problema para diversas mentes brilhantes e pessoas com capacidade ficam deprimidas e doentes, pois as empresas deveriam realizar um programa de aposentadoria, preocupado não somente com o fator financeiro que é muito importante, mas com o valor da vida dessas pessoas que se dedicam as empresas na qual trabalham, esse vínculo será eterno com essas pessoas e empresas. Como seria maravilhoso um plano pós carreira, seria menos traumático para o vazio. Se hoje já é dificil um emprego para um jovem profissional que é formado, tem Pós, fala idiomas, etc.. Imagine para uma pessoa com 60 anos ou mais. Vai fazer o que? Colocar seu conhecimento onde? É muito triste essa realidade, esse futuro. Espero que as empresas possam pensar que um dia todos nós ficaremos mais velhos, mas precisamos de dignidade para continuar viver, com saúde, colocando em prática nossas habilidades e ajudar o próximo, tudo isso pode ser feito, com boa vontade e determinação.

 
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