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06/04/2010
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Conflito de interesses: Escola X Mercado de Trabalho

Por Danilo Fernando Olegário para o RH.com.br

Você já deve ter ouvido a seguinte expressão: "A teoria é uma coisa, a prática é outra" - geralmente, com o intuito de dizer que a escola e a empresa são seres oriundos de planetas muito distintos.

Brincadeiras à parte, realmente ainda nos dias de hoje é perceptível esse conflito existencial entre escola e empresa, e quando me refiro à escola estou considerando todos os níveis: ensino fundamental, médio, superior, mestrado e assim por diante.

O leitor pode, e com razão, questionar: qual a relação do sistema educacional que alfabetiza no caso o ensino fundamental, por exemplo, com o mercado de trabalho? Não seria mais apropriado falarmos apenas do ensino superior que conceitualmente seria a porta para o mercado de trabalho? Vou procurar justificar-me no decorrer desse artigo.

Ao longo de todo o processo de formação educacional somos estimulados a desenvolver com maior ênfase o raciocínio lógico-matemático. Dentro das salas de aulas professores e alunos são engolidos por um sistema doente, onde a arte do questionamento, o estimulo ao desenvolvimento da criatividade e a imaginação dos alunos não são explorados na sua totalidade. No entanto, futuramente esses alunos serão cobrados pelas organizações pela capacidade de exploração da criatividade que nem sempre é tão "lógica" assim.

Isso acontece, pois por mais que os professores tenham capacidade, formação e vontade em explorar o potencial intelectual dos alunos, mas o sistema educacional não permite.

Vamos exemplificar o raciocínio: quantos alunos que ousaram ser criativos em provas, questionando métodos e debatendo ideias de grandes autores? Mereciam uma nota dez, mas levariam um zero. Não me refiro àquelas famosas "embromation" que estressam o intelecto de qualquer pessoa, mas aquelas respostas conscientes em conceitos e articuladas com formação de opinião própria e construção de ideias. Quantos possíveis pensadores não foram calados nas salas de aulas e bloquearam para sempre a capacidade de expressar opinião e construir um raciocínio?

Esses jovens, que ousaram explorar a criatividade nas salas de aulas são vistos pelo sistema educacional como "desacatos" ao conteúdo proposto pela base escolar. Já no mercado de trabalho são vistos como futuros talentos, futuros líderes.

O sistema educacional deveria prezar pela formação de futuros pensadores, mas infelizmente não é isso que acontece, pois as escolas geralmente se preocupam na aplicabilidade de conteúdos ao invés de estimular a criatividade e a imaginação dos alunos e de expor eles a situações de desafios.

Os professores que deveriam ser considerados e respeitados como uma das funções mais nobres existentes, não têm o devido valor, nem pelos alunos e nem pelo próprio sistema educacional. Eles é que contribuem para a construção do indivíduo na sociedade.

As escolas supervalorizam o sistema de provas como se fosse o melhor método para medir o nível de absorção do conhecimento, um erro grotesco. Einstein, o gênio da física moderna não era considerado um gênio em sala de aula e ironicamente tornou-se um ícone mundial, sendo um modelo e uma referência até os dias de hoje nas salas de aulas.

O que garante que um aluno nota dez será um profissional brilhante no cenário do trabalho? Não sou contra o sistema de provas, muito pelo contrário. Acredito que elas têm uma grande relevância para a formação do indivíduo, mas acreditar que seja a única maneira e mais eficaz de assegurar que o conhecimento seja transmitido aos jovens por completo é um tanto imaturo nos dias atuais.

As escolas poderiam rever sua grade curricular desde as bases iniciais no ensino fundamental e médio e, então, consequentemente nas universidades. Deveriam prezar pelo debate de ideias, pela troca de informações, pela criação de ambientes saudáveis de desconforto - cenários que possibilitem o uso da criatividade, orientar os jovens a lidarem com o excesso de informações existentes no mundo moderno transformando-as em conhecimento e não insistir em métodos que não serão lembrados pelo indivíduo ao longo de sua jornada.

Por outro lado as organizações buscam cada vez mais profissionais altamente competentes e com flexibilidade intelectual para serem lógicos e ilógicos ao mesmo tempo. Profissionais que sejam criativos e pensem diferente, que consigam criar ambientes saudáveis de desconforto estimulando o novo, com boas relações humanas e agora que tenham comprometimento com a sustentabilidade.

Tudo isso contradiz a base de formação educacional do sujeito, pois na escola ele não teve tamanho nível de exigência para corresponder a tudo isso e o resultado é essa desproporcionalidade que percebemos nos processos de seletivos empresariais e até mesmo em palestras universitárias - o desinteresse e a desinformação dos alunos em relação ao mundo do trabalho.

As empresas, por sua vez, deveriam aproximar-se mais das redes de ensino público e particular, não através de programas superficiais de responsabilidade social, mas com o objetivo de formar junto com o sistema educacional o ser humano do futuro. As empresas é que possuem condições de orientar as escolas sobre as exigências e as mudanças no cenário do trabalho, pois é para lá que todos irão independentes de suas escolhas. Elas podem contribuir muito na formação dos jovens, orientando a escolha da carreira, preparando esse jovem para o mundo competitivo dos negócios, sendo que um dia poderão ser seus empregados.

Infelizmente, não vejo essa aproximação no sentido de alinhamento de interesses na formação do ser humano entre escola e empresa. Com isso o desequilíbrio entre teoria e prática sempre terá sentido enquanto o empresário não quebrar esse distanciamento existente, deixar de encarar como um problema governamental e perceber que se trata de um problema educacional no qual ele mesmo é afetado.

Contudo, como um jovem sonhador que sou e como um pensador em processo de formação eu acredito que esse distanciamento entre escola e empresa diminuirá ou por percepção de que é um problema de todos ou por necessidade de cada vez mais nos depararmos com a desqualificação profissional que a meu ver começa na primeira série do ensino fundamental.

 

Palavras-chave: | crescimento profissional | aprendizagem |

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COMENTÁRIOS (2)
Alcemir Souza da Silva em 08/04/2010:
Danilo, te parabenizo pelo artigo e acrescento que, as escolas, no lugar de alunos, formassem empreendedores, assim atenderíamos o mercado de trabalho de duas formas: uma formando profissionais competentes para atuar nas empresas, outra formando futuros empresários que contribuiriam para oferta de novos postos de trabalho.

Tereza Raquel Mello em 08/04/2010:
Danilo, temos ainda hoje uma visão das escolas e dos próprios pais equivocada do que seja um ensino de qualidade. Prova e passar no vestibular ainda é visto por muitos como uma forma de medir esta qualidade de ensino, e isto dificulta a visibilidade e a sobrevivência das escolas que estão fora deste tipo de educação. Escolas que tornam os alunos realmente seres pensantes e participantes do seu processo de formação, são colocadas à margem desta sociedade, do que é aceito. Minha filha estuda em BH em uma escola cooperativa , onde o aluno é de fato um agente da educação , mas percebemos a dificuldade dos pais e da sociedade de aceitar esta metodologia diferente. O que é preciso então ser feito ?

 
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