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06/07/2010
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A psicologia da procura por um emprego

Por Sam Cyrous para o RH.com.br

Há algum tempo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) havia tornado público um relatório no qual indicava que apesar do Produto Interno Bruto médio do planeta ter crescido 5% em 2007, a taxa de desempregados pelo globo aumentou para quase 190 milhões, próximo aos 6% da população humana. A sua previsão final para 2008 era de mais 5 milhões desempregados. Mas, dos que trabalham, dizia a OIT, metade possui empregos vulneráveis, 1,3 bilhões (43,5% do total de trabalhadores) vive com menos de 2 USD (dólar americano) por dia e 487 milhões (16,4%) vivem com menos de 1.

A 17 de Junho, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) menciona que haverá crescimento de 1,9% (2010) e 2,1% (2011) para os países "desenvolvidos" e 3,9% (2010) e 3,4% (2011) para os ditos "emergentes", apesar de terem experenciado contrações -3.4% e -6,7% (2009). Assim sendo, o crescimento é real, mas muito, mesmo muito fraco!

Esse é o cenário de um período de recessão que engloba todo o planeta! E quando começa uma recessão, os mercados e as pessoas são invadidos por sensação de medo e, num sistema capitalista como o atual, evitamos gastar e, ao fazê-lo, determinados postos de trabalho desaparecem, e o número de desempregados cresce, aumentando a dificuldade de encontrarmos emprego.

As consequências da recessão passam a ser sentidas em nós mesmos. Por exemplo, em estudo recente, Gianaros e colegas concluíram que existe uma clara relação entre a posição socioeconómica que sentimos ter, e stress e emoções negativas, e mesmo sintomas depressivos, pessimismo e hostilidade. Já estudos anteriores no campo das neurociências afirmavam que crianças (em especial até aos 3 anos) crescendo em famílias com baixa condição social experienciam níveis prejudiciais de hormônios relacionados com o stress, podendo atrasar o seu desenvolvimento neurológico, em especial em áreas como linguagem e memória. Desta forma, toda a família acaba por sofrer com o desemprego e com a sensação de pobreza! Na altura da Grande Depressão da década de 30, do século passado, pôde-se mesmo observar que o desemprego tinha influência negativa sobre a auto-estima da pessoa desempregada, na sua relação marital e nas relações familiares em seu conjunto.

E, aqui, surgem dois caminhos: sucumbir a essas sensações e emoções negativas ou agir contra elas! Por todo lado existem pessoas, como nós, preparando os seus currículos, descrevendo as suas competências, imprimindo em papéis diferentes (outras cores e outros tamanhos), e enviando-os às mais diversas entidades, pintando esse currículo de forma mais ou menos adaptada às necessidades do local ao qual se candidatam. Mas nem toda resposta é positiva. Aliás, existem muito mais respostas negativas, e mesmo ausência de respostas, e, na sociedade em que vivemos, se há uma coisa difícil de tolerar é a rejeição!

Uma série de investigações pelas equipes de psicólogos liderados por Baumeister e Twenge, da Universidades Estaduais de Florida e San Diego (EUA), têm mostrado como nos sentimos mal se somos rejeitados. As autoras deram 15 minutos de socialização a um grupo de universitários e depois perguntaram-lhes, individualmente, com quem gostariam de trabalhar. Contudo, ao invés de usarem essas respostas, foi dito aleatoriamente a cada um dos participantes que foram "aceites" ou "rejeitados" pelo grupo. Como resultado, e sabendo racionalmente que 15 minutos de interação soa insuficientes e que os resultados em nada influenciariam seus futuros, os rejeitados foram significativamente mais agressivos face a um elemento inocente em exercícios subsequentes. Para além disso, outros estudos evidenciam que os rejeitados começaram a se excluir, tornando-se menos sociáveis, tendendo a interpretar palavras e comportamentos neutros como sinal de rejeição e, mais ainda, a ter resultados mais baixos em testes de inteligência!

Assim sendo, cada rejeição faz que seja mais difícil arriscar e tentar uma nova oportunidade. É mais fácil ficar num canto e isolar-se esperando um milagre, enquanto se desenvolvem condutas de evitamento, agressividade, stress ou mesmo sintomatologia depressiva.

Devemos cortar esse ciclo, no qual somos cada vez mais auto-excludente e, portanto, excluído pelos outros, canalizando essa agressividade para uma procura ativa por um novo emprego. A cada "não" que ouvimos, estamos mais perto de algum "sim": podemos nem saber a distância dessa resposta, mas estamos a caminho dela - este deve ser o nosso mote de atuação!

Tendo em conta a crise de emprego, os governos podem demonstrar interesse entre a recuperação econômica e crescimento econômico, mas, após reflexão consciente, facilmente percebemos que o papel decisório é nosso, e pode ser interessante refletir sobre as notas abaixo.

1. Não é fácil, mas não é uma missão impossível! Como já foi dito, é bem provável que surjam emoções que dificultem a procura de emprego: frustração, ansiedade, confusão, tristeza e agressividade são alguns exemplos. Perder um emprego não é o mesmo que ser um perdedor, e esse cocktail de negatividade deve, por isso mesmo, ser eliminado, sendo agradável consigo mesmo: trate-se com cuidado e estima. E, lembre-se, as más situações acontecem a todos: é necessário encontrar formas de crescer a partir das dificuldades.

2. A realidade é real! Não cabe ao ser humano perguntar-se o porquê das situações, mas tentar agir perante elas. Aceitar a realidade implica compreender que há coisas que não podem ser mudadas, por mais que desejemos, mas há coisas que se podem fazer apesar de tudo. Aceitar a realidade é perguntar-se: "se não posso fazer nada para impedir, o que posso fazer para progredir?".

3. O dia dá para tudo! Sim, apesar de estar desempregado, não pode pensar que o dia é para passar na cama lamuriando-se: pergunte-se se há algo que possa fazer, levante-se e organize a vida! Atualize os seus conhecimentos lendo e/ou fazendo um curso. Faça exercício físico para aliviar a tensão. Junte-se a algum grupo com interesses similares ao seu (seja religioso ou profissional) e estabeleça e mantenha redes sociais, escrevendo e-mails e lhes telefonando (o verdadeiro interesse pelas pessoas poderá ajudar a não entrar em situações de desesperança e, quem sabe, orienta-o a um possível emprego). Dedique sistematicamente algumas horas do dia procurando emprego e envie cartas de apresentação acompanhadas do currículo. E, claro, dedique tempo a si mesmo, com atividades lúdicas, pois o pior que pode fazer é alimentar o estresse.

Lembre-se que cada momento tem os seus problemas e cada pessoa possui necessidades específicas. Por isso, a sua função, na procura ativa de trabalho deve ser valorizar-se ao ponto de conseguir ir ao encontro dessas necessidades e concentra-se em agir de acordo com essas exigências e requisitos que lhe são pedidos.

 

Palavras-chave: | mercado de trabalho | crescimento profissional |

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COMENTÁRIOS (2)
Sandro Nascimento Pinto em 24/08/2010:
O artigo é muito bom e pertinente à realidade que vivemos. Estou desempregado e buscando recolocação profissional, e sou obrigado a concordar que a Raphaela Lucena tem razão quando diz que "as empresas de RH e o RH das organizações são responsáveis em grande parte pelo desânimo que se abate sobre os candidatos". Porque não ligar? Porque não dar retorno, mesmo que seja negativo, e ao final, incentivar o candidato à continuar? Algumas empresas de seleção dizem que vão retornar, mas nunca o fazem. Eu acho que este comportamento não só é anti-ético, como é triste. Se a empresa precisa da mão-de-obra para sobreviver, o RH precisa de bons candidatos para garantir sua remuneração (no caso de empresas de seleção). Além disso, o candidato que não serviu para a vaga X, pode servir para a vaga Y, então porque detonar esta chance no primeiro contato? Tive a infelicidade de participar, recentemente, de um processo onde a selecionadora, por alguma razão, não gostou de mim, assim de cara, sem nenhuma razão aparente. O resultado disso foi que ela me deu um tempo muito menor do que para os outros candidatos para falar, e minha entrevista pessoal foi muito mais rápida... Como era a primeira vez que eu ia até aquela empresa de recrutamento, e eles mesmo haviam dito que meu currículo era muito bom, não entendi o porque de tal tratamento... Mas isso não me desanimou... a vida continua! Abraços para todos.

Raphaela R. Lucena em 08/07/2010:
Muito interessante o artigo. Vejo na prática, por trabalhar com recrutamento e seleção, como as rejeições ou retornos negativos tendem a desanimar os candidatos. Na minha opinião, também é responsabilidade da área de RH explicar os motivos de tais retornos, orientar e incentivar os candiddatos a continuarem em busca de oportunidades. Sei que nem sempre isto é possivel devido à rotina corrida, mas se dedicarmos uma parcela do nosso tempo a contribuir para estas atividade estaremos também promovendo o desenvolvimento alheio.

 
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