Por Fabiano Saldanha para o RH.com.br 
Ex-chefe é sempre um grande professor, seja pelos bons ensinamentos ou, algumas vezes, pelos erros cometidos e que nos mostram aquilo não devemos fazer. Certa vez, um superior que tenho na lembrança como exemplo de sabedoria e habilidade em Gestão de Pessoas, comentou comigo que se na minha vida profissional eu me deparasse com um jabuti em cima de uma árvore, não deveria incomodá-lo. Afinal, se jabuti não sobe em árvore, então, alguém o colocou lá...
O ditado popular, que eu sinceramente desconhecia naquela ocasião, tem um verdadeiro sentido que serve muito bem para ilustrar as ocasiões onde encontramos pessoas que não detêm experiência, conhecimento técnico, habilidade ou outra competência necessária, mas que ocupam cargos ou funções de comando. Em algumas situações é gritante a discrepância entre as exigências do cargo e as qualidades do profissional que o ocupa.
Os motivos que levam alguém ser alçado à uma posição que está além de suas capacidades são os mais diversos possíveis.
Ainda que em gradual processo de extinção, por conta da alta competitividade do mercado atual, a prática da criação do ‘chefe-jabuti' ainda é muito encontrada nas nossas organizações, tanto na iniciativa privada quanto no setor público.
Motivada pelo clientelismo, coleguismo, nepotismo, corporativismo ou outro ‘ismo' a depender da situação, ela se apresenta como fato prejudicial para o desempenho e o ambiente institucional. As causas estão, boa parte das vezes, ligadas aos jogos de poder, à defesa de interesses pessoais ou de grupos articulados, e acontecem nos bastidores e nas instâncias mais obscuras das organizações.
Porém, nem sempre o réptil lá aparece como reflexo de conduta má intencionada da alta hierarquia. A ascensão desastrosa vem, muitas vezes, impulsionada por boa intenção. Exemplo clássico é o do profissional que sempre apresentou excelente desempenho individual nas tarefas de cunho mais técnico e, como valorização, é promovido a um cargo de gerência, passando então a demonstrar que não tem as habilidades comportamentais necessárias para a nova função. Nestes casos a empresa ganha um gestor de desempenho sofrível e ainda perde um excelente técnico, criando um quadro de delicada solução.
Assim, se os colaboradores das organizações resolvessem apresentar uma carta de orientações ao jabuti, com o objetivo de melhorar seu desempenho, penso que no documento poderiam incluir, dentre inúmeras outras, as seguintes providências:
1. Cerque-se de pessoas competentes - Ainda que sofra alguma retaliação no início, o jabuti ao longo do tempo deve conquistar a confiança daqueles que no lugar dele poderiam estar e, assim, diminuir os reflexos negativos de seu desempenho.
2. Fuja dos bajuladores - Quase toda organização tem em suas equipes algum integrante que, independentemente da competência do chefe, está sempre pronto a aplaudir toda e qualquer decisão, por mais estapafúrdia que seja, gerando um ciclo negativo. Diferenciar estes das pessoas do item anterior também pode ser difícil para os jabutis.
3. Tenha humildade - Nem todo chefe sabe tudo. O jabuti muito menos. Assim não se deve mostrar arrogância
4. Modere o discurso - Ocasionalmente, deslumbrado com a sensação de altura nunca antes experimentada, este anuncia que de agora em diante todos os problemas serão rapidamente solucionados. Além de ser tarefa árdua, os resultados é que são importantes, e não as promessas. No entanto, um discurso otimista é sempre bem-vindo.
5. Aprimore a capacidade de análise - Pense nos verdadeiros problemas da área que gerencia e da correlação para com a organização no todo. Para conhecê-los, incentive a troca de informações, estimule a comunicação. Converse com todos. As pessoas que estão nos níveis hierárquicos mais baixos sempre têm importantes contribuições para a empresa. Basta escutar e saber interpretar.
6. Não se perca em picuinhas ou detalhes insignificantes - Adote uma visão de quem efetivamente está no alto, ou seja, procure enxergar o todo.
7. Inicie uma transformação pessoal - Ninguém está fadado a ser um eterno jabuti. Leia, informe-se, capacite-se. Adote a busca do desenvolvimento pessoal e profissional como uma missão particular e fundamental. Procure ser um verdadeiro líder e, assim, as pessoas passarão a enxergar cada vez menos um jabuti.
Desde um setor com poucos funcionários, até uma empresa de grande porte, sabe-se que a tarefa de administrar é complexa, com diversos fatores em jogo, e muitos deles interdependentes. É um desafio de muita responsabilidade, pois pessoas estão permanentemente afetadas pelas decisões dos gestores.
Em menor grau do que aqui retratado, ninguém está imune de ter o seu "momento jabuti". Ao longo da carreira qualquer um pode estar, em alguma ocasião, numa posição onde as exigências do papel são muito maiores do que se consegue entregar em resultados. O importante é ter consciência desta condição.
Palavras-chave: | crescimento profissional | aprendizagem | estilo de liderança |
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