Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH - Nos últimos anos, o profissional de RH tem sido convocado para se tornar um parceiro estratégico das organizações. No entanto, algumas empresas ainda não asseguram um lugar junto à mesa de decisões para a área de Recursos Humanos. Por que isso ocorre?
Betania Tanure - Antes de tudo, é preciso que tanto as empresas quantos os profissionais de RH tenham consciência de que esse processo deve ser visto como uma evolução clara e irreversível. Esse é um movimento de mão-dupla, onde a organização realmente tende a convocar o RH para ser seu parceiro estratégico nos processos decisórios. Mas também observo que o profissional de RH está buscando seu espaço e é preciso que isso seja feito. Este é um grande e importante desafio.
RH - O profissional de RH, de alguma forma, tem contribuído para que ele mesmo ainda não tenha assegurado sua participação estratégica?
Betania Tanure - Eu diria que dentro desse processo, como em qualquer outro processo de mudança, há aqueles profissionais que avançam mais rapidamente e existem aqueles que ainda não estão fazendo parte desse processo.
RH - Essa dificuldade do RH tornar-se um parceiro estratégico ocorre apenas no Brasil?
Betania Tanure - A questão do profissional de RH estratégico ultrapassa as nossas fronteiras. Como já mencionei, esse processo precisa ser visto como uma mão-dupla. Não há dúvida que muita evolução foi feita neste sentido. Porém, não podemos nos deixar acomodar pelos avanços feitos e sim enfrentar os gaps que ainda existem.
RH - Quais são as principais linhas que o RH precisa investir para ser considerado um parceiro estratégico?
Betania Tanure - O profissional de RH precisa compreender e estar totalmente sintonizado com a dimensão do negócio. É fundamental que ele também desenvolva, ao mesmo tempo, uma competência profunda na gestão de pessoas e de mudanças. É preciso que o RH tenha uma habilidade refinada para conhecer e se inserir no mapa do poder, ou seja, ele precisa saber lidar com as relações de poder que são estabelecidas pelas organizações, para que a gestão de pessoas sempre esteja presente nas pautas das empresas.
RH - Quais as expectativas da Sra. para a área de RH a longo e a médio prazos?
Betania Tanure - Pessoalmente, quero apostar que a consolidação da parceria entre as organizações e o RH estratégico não irá demorar, pois num sistema competitivo as pessoas e a cultura são consideradas as vantagens competitivas sustentáveis. A tecnologia está cada vez mais parecida entre os concorrentes e o diferencial do negócio é o ser humano. Minha expectativa é que o profissional de RH tenha seu papel estratégico cada vez mais reconhecido.
RH - A Sra. tem dedicado parte de sua vida ao estudo do mundo corporativo. Ao longo desse tempo, quais as principais mudanças observadas na área de RH?
Betania Tanure - A área de RH evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, o RH compreende o negócio e pode atuar realmente como um parceiro estratégico. Por outro lado, observo que em certos momentos o RH é um pouco tímido não só no trabalho que ele realiza, mas na própria divulgação dele. Enfrentar com mais abertura o poder é um dos desafios, especialmente em países com uma cultura mais autoritária como é a brasileira.
RH - Quais são as principais dificuldades que o RH brasileiro enfrenta nesse momento?
Betania Tanure - Basicamente, costumo destacar as seguintes questões. A primeira delas é que o profissional de RH precisa enfrentar uma grande corrida para compreender a estratégia do negócio, sem deixar de ser um expertise na sua principal competência que está intimamente ligada aos recursos humanos, à culura e ao processo de mudança. À medida que ele se incorpora ao negócio, o RH necessita identificar as empresas que realmente estão dando o devido valor às pessoas ou se o que a organização prega não passa de um mero discurso, o que ainda é razoavelmente comum. O profissional de RH precisa contribuir para que as empresas sejam menos ambivalentes, de forma a diminuir o gap entre o discurso e a prática.
RH - Na dia-a-dia, sabemos que as empresas estão mais enxutas e mesmo assim, buscam um aumento constante da produtividade. Como o RH deve agir diante desse fato?
Betania Tanure - Essa é outra questão que procuro dar destaque: a qualidade de vida dos colaboradores. As pessoas estão chegando ao limite e isso pode ser observado facilmente, por exemplo, entre os executivos que apresentam sinais claros de estresse. As empresas estão cada vez mais enxutas e precisam continuar produtivas. O RH tem o enorme desafio de ajudar a encontrar algumas saídas para essa equação 'Competição x Qualidade de Vida', que ainda não está resolvida.
RH - De que maneira esses problemas podem ser enfrentados pela área de RH?
Betania Tanure - Primeiro, é preciso que o profissional de RH tenha uma formação ampla para que ele possa entender o negócio, sem nunca esquecer ou deixar de lado sua competência específica em gestão de pessoas, cultura e mudanças. Ele precisa aprimorar sua competência e tomar decisões de riscos que são necessárias em qualquer segmento. E como os talentos se caracterizam por ter o leme da sua carreira nas mãos, esse processo pode contribuir para o processo de mudança da organização ou se for necessário, até mesmo, trocar de empresa.
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