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30/06/2008
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A ameaça da zona de conforto

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Quando se enfrenta um conturbado dia de trabalho, nada melhor do que chegar à sua casa, tomar um banho relaxante, fazer uma boa leitura ou mesmo se distrair assistindo ao noticiário ou a um filme que desperta emoções positivas. O que vale nesse momento é sentir-se confortável e recuperar as energias gastas durante o dia. A descrição dessa cena repete-se incontáveis vezes, nos mais variados extremos de todo o planeta, afinal, ninguém é de ferro.
Contudo, esse agradável momento de “relaxamento” nem sempre é bem-vindo em outras situações. No campo organizacional, por exemplo, caminhar em direção à chamada “zona de conforto” pode representar uma ameaça, tanto para as organizações quanto para os profissionais. Isso, porque ficar em um estado de ”comodidade” faz com que as empresas percam a competitividade em relação à concorrência. No que diz respeito aos profissionais, esses ficam parados no “tempo e no espaço”, deixam de lado a capacidade de conquistar novos horizontes no campo corporativo e quando se dão conta, podem ser substituídos por outras pessoas mais qualificadas e atualizadas com as novidades do mercado. Mas o que, na prática, pode ser feito para que a “zona de conforto” não contamine a rotina corporativa?
Quem responde a essa e outras perguntas é o consultor organizacional Dílson Almeida, pesquisador do comportamento humano. Para ele, não são as empresas que entram na zona de conforto e sim as pessoas que fazem parte dessas organizações. “Grande parte das empresas passam pela situação da zona de conforto, porque a contratação foi errada, equivocada”, afirma ao destacar a importância da área de Recursos Humanos dentro desse contexto. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Dílson Almeida menciona porque alguns gestores contribuem para que a zona de conforto ganhe proporções preocupantes para as empresas. Confira a entrevista na íntegra e aproveite a leitura para refletir sobre esse fator que pode atingir a sua empresa ou até você!

RH.COM.BR - O que podemos considerar como zona de conforto, quando levamos em consideração o meio organizacional?
Dílson Almeida - A chamada zona de conforto evidencia-se quando as metas corporativas deixam de ser atingidas pelas pessoas. Ocorre quando na comunicação entre colaboradores deixa de existir sintonia, para obter resultados positivos e, principalmente, quando o líder não tem um planejamento estratégico definido. Na prática, é mais ou menos assim: todos querem ter sucesso, mas ninguém quer pagar o preço, ou seja, “todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer” e nesse mundo que fazemos parte ou você nada ou afunda. Não podemos mais aceitar a mediocridade. Esses sintomas apresentados caracterizam uma zona de conforto. Traduzindo: não me importa com as pessoas que dizem, mas sim com as que fazem.

RH - Quais os principais fatores que levam os profissionais a entrarem na zona de conforto?
Dílson Almeida - O que deixa o ser humano conformado com que possui é a falta de um objetivo definido. Costumo dizer que para acordar um pássaro em uma floresta basta o amanhecer chegar, mas para acordar uma pedra é preciso usar uma dinamite. É assim que acontecem com os profissionais que não se dispõem de um plano de objetivo definido. Quando um profissional sabe aonde quer chegar, o primeiro passo importante que ele deve ter em mãos é um mapa. Ou seja, o que preciso fazer e como devo fazer para chegar lá, onde desejo. É só prestarmos atenção nas pessoas bem-sucedidas, pois encontramos nelas qualquer defeito possível, menos à vontade de caminhar diante de seus objetivos.

RH - Esse estado de acomodação profissional é evidenciado tanto em empresas públicas quanto privadas?
Dílson Almeida - Na minha concepção não são as empresas em si que entram na zona de conforto e sim as pessoas que fazem parte dessas organizações. Posso afirmar que estudos realizados dentro das organizações apontam que a principal causa que leva uma empresa a estacionar, a paralisar, é a falta de uma gestão eficaz. Para podermos analisar esse fato através de uma visão consciente, basta observar melhor as gestões que são aplicadas no Exército e na Marinha, por exemplo. Podemos, então, perceber por que nesses comandos não existem zonas de conforto? Simplesmente porque nessas instituições existem pessoas com nervos de aço para liderar em todos os sentidos e esses líderes, por sua vez, fazem as instituições chegarem ao topo. Então, independente de ser uma empresa privada ou pública o que faz as pessoas se contaminarem pela zona de conforto é falta de líderes competentes para fazer o que precisa ser feito.

RH - Quais os perigos que a zona de conforto oferece às organizações?
Dílson Almeida - Simplesmente serem esquecidas e ultrapassadas pelos concorrentes. Na era em que vivemos se você estiver conformado com que tem, precisa ter cuidado. Existe aquele velho ditado que diz: “quem está correndo está andando, quem está andando está parado e quem está parado está morto”. Nós, seres humanos, precisamos ser iguais à água corrente. Digo isso porque acho muito interessante a força que a água possui. Se pararmos e olharmos com atenção, podemos observar que não há adversidades alguma que faça a água em movimento parar, eu disse em movimento e não parada. Sabemos muito bem que atualmente a água pára, pois vira até mesmo um berçário para o mosquito transmissor da dengue. Com o ser humano não é diferente. É suficiente parar de acompanhar a evolução mercadológica que a pessoa está fadada a ser vítima dela. Quer um exemplo? Deixe seu carro um ano parado e quando você for acionar a chave na ignição, a gasolina já terá se evaporado, os pneus esvaziados e o motor não vai pegar simplesmente porque está parado faz muito tempo. Fazendo uma analogia, o mesmo acontece com o ser humano, porque tudo o que foi feito neste universo físico precisa estar em constante movimento, inclusive você.

RH - Em relação ao profissional, que conseqüências a zona de conforto gera à carreira das pessoas?
Dílson Almeida - O primeiro sintoma apresentado é falta de ambição e, uma vida sem ambição fica igual a um chiclete que você masca, masca e depois perde o sabor. E por isso, a falta de “sabor” torna-se um motivo gravíssimo e leva as pessoas a serem trocadas em seus postos de trabalho. O brasileiro precisa acordar para o novo mundo que chegou, é tempo de revolução e só vai suportar essa pressão quem tiver um de equilíbrio emocional em todas as áreas de sua vida.

RH - A permanência na zona de conforto está diretamente relacionada à resistência às mudanças?
Dílson Almeida - Sem sombra de dúvida que uma empresa chega e fica estagnada por não acreditar que os tempos não são mais os mesmos. O mercado mudou e está mudando cada vez mais de uma forma espantosamente dinâmica e quem esperar para ver o que acontecerá, correrá sérios riscos da empresa deixar de existir. É tempo de treinar, treinar e treinar seus componentes se quiser que a sua empresa exista para este novo mercado.

RH - De que forma prática as organizações devem atuar para evitar que os colaboradores sejam afetados pela zona de conforto?
Dílson Almeida - Primeiramente, o que faz uma empresa ficar conformada com o que tem é a maldita rotina de fazer somente o feijão com arroz. Mas, por outro lado, não podemos também viver 100% sem rotina. Contudo, como encaramos o que acontece é que faz toda diferença para a quebra da rotina. Quero aqui deixar uma dica que vai tirar qualquer empresa da zona de conforto. Primeiro vá até uma entidade que poderá oferecer os números das empresas que decretaram falência nos últimos cinco anos. Tenho certeza de que esses números tiram qualquer empresa de uma zona de conforto e quando você, presidente de uma organização, perceber que o nome da sua empresa não faz parte desta lista “ainda” ficará em estado de alerta. Quer incentivo maior do que esse para querer capacitar seus profissionais?

RH - Como a área de RH pode combater a zona de conforto no dia-a-dia?
Dílson Almeida - Criando um ambiente favorável para os profissionais como um programa de treinamento diferente do que as empresas geralmente costumam fazer no seu dia-a-dia como, por exemplo, os treinamentos fora do ambiente de trabalho. Outra ótima alternativa é promover cursos, seminários e palestras. Vale lembrar que é necessário realizar aqueles programas que envolvem todos os participantes, desde o presidente da empresa até a funcionária que serve o cafezinho e mostrar que a empresa está, de fato, preocupada com o desenvolvimento de cada um. Nós seres humanos, como um todo, somos carentes de termos reconhecidos nossos papéis dentro de uma organização.

RH - Esse trabalho realizado pelo profissional de RH deve ser contínuo ou "sazonal"?
Dílson Almeida - Sempre costumo dizer que a atuação do profissional de RH é uma das mais importantes dentro de uma organização. Grande parte das empresas que passam pela situação da zona de conforto é porque a contratação foi errada, equivocada ou porque a pessoa contratada está exercendo uma função que não se identifica com o seu perfil profissional. É importante o RH saber que em um processo de contratação é preciso deixar claro para o contratado os negociáveis e os não negociáveis, ou seja, mostrar passo a passo a política da empresa. Uma organização não pode se adaptar aos profissionais, mas sim os profissionais precisam se adaptar à realidade organizacional.

RH - Qual a importância da participação ativa dos gestores diante do combate à zona de conforto?
Dílson Almeida - A importância está nos resultados. É muito simples saber, identificar se em uma empresa tem gestores capacitados ou não. É só observar como você é atendido. Se você tiver um atendimento medíocre pode constatar que o gestor dessa organização tem tudo para ser medíocre. Mas se você tiver um atendimento excelente pode reparar que provavelmente essa organização tem um ótimo gestor. Uma árvore não poderá dar bons frutos se não tiver uma boa raiz. Daí a importância de uma gestão participativa.

Palavras-chave: | Dílson Almeida | zona de conforto |

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COMENTÁRIOS (1)
Alex Alves em 08/07/2009:
Primeiramente gostariam de agradecer a jornalista Patricia Bispo e o Autor dessa matéria Dilson Almeida. Eu trabalho com pessoas há 15 anos, e o que vi diante dos olhos do consultor que ele está muito atualizado em seus conteúdo. Na verdade a empresa tem a cara do Líder se uma equipe anda desmotivada é porque não tem um pulso forte para tomar as direções cabíveis. Quero mais uma vez agradecer e dizer para vocês o quanto esta entrevista me ajudou e tem ajudado de uns tempos pra cá. E também gostariam de saber se o consultor Dilson Almeida tem site? Se puder encontrar ficarei grato. Atenciosamente Alex Alves.

 
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