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22/08/2011
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Pesquisa avalia o envelhecimento do trabalhador nas organizações

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Em 2040, segundo perspectivas do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o contingente de idosos brasileiro (pessoas acima dos 60 anos) equivalerá à população de crianças, em detrimento à população economicamente ativa. Com uma expectativa de média de vida de 81 anos, o Brasil terá três trabalhadores para cada aposentado. Essa projeção traz à tona a necessidade dos órgãos públicos e privados adotarem medidas que garantam o bem-estar da população.
Foi justamente essa questão - a longevidade dos profissionais e suas consequências - que levou Lucia França, professora do Programa do Mestrado em Psicologia da UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira - Rio de Janeiro), a desenvolver a "Pesquisa Atitudes dos gestores de Recursos Humanos frente ao envelhecimento dos trabalhadores nas organizações".
Em entrevista concedida ao RH.com.br, Lucia França salienta que hoje a maioria dos profissionais de Recursos Humanos não dão a devida atenção aos profissionais que estão próximos à aposentadoria. Segundo ela a área de RH pode identificar os preconceitos existentes quanto à capacidade laborativa e cognitiva dos mais velhos, promovendo a integração entre as faixas etárias. "Além disso, é preciso promover oportunidades de projetos intergeracionais em função de problemas comuns encontrados na prática do trabalho, para que os trabalhadores possam valorizar-se, beneficiarem-se mutuamente, reduzindo os possíveis conflitos intergeracionais", complementa. Como o tempo passa rápido e os anos chegam para todos, é relevante ficar atento para os pontos levantados pela pesquisadora. Confira a entrevista na íntegra e boa leitura!

RH.com.br - Recentemente, a senhora iniciou a Pesquisa "Atitudes dos gestores de Recursos Humanos frente ao envelhecimento dos trabalhadores nas organizações". Qual o principal objetivo desse trabalho e o que a motivou a enveredar por esse estudo?
Lucia França - O objetivo principal é investigar a percepção que os gestores das áreas de Recursos Humanos têm em relação ao envelhecimento populacional e aos trabalhadores mais velhos nas suas organizações. Ao longo dos 20 anos em que trabalho com este tema, participei de diversas conquistas como a Política Nacional do Idoso em 1994, que embasou o Estatuto do Idoso em 2003, legislação que trouxe muitos benefícios e ações nestas áreas. Vi nascer e se desenvolver diversas universidades abertas para a terceira idade e programas sociais, culturais e de saúde para os idosos, organizados pelas prefeituras e governos estaduais. Desde 1990, as empresas passaram a desenvolver Programas de Preparação para a Aposentadoria. Contudo, ainda faltam políticas, diretrizes e ações voltadas para os trabalhadores mais velhos. Não acredito que o RH das organizações tenha consciência da sua responsabilidade diante disto. Em 2040, a população irá parar de crescer, mas o número dos idosos terá aumentado vertiginosamente. Pense que a expectativa de vida brasileira não passava de 51 anos, enquanto hoje a média de vida dos brasileiros beira os 74 anos. Temos 22 milhões de pessoas com 60 anos ou mais e em menos de 30 anos, segundo o IBGE, teremos aproximadamente 64 milhões. Diversas medidas precisam ser tomadas pelos órgãos públicos e privados para que os recursos sejam suficientes para garantir o bem-estar para a população que envelhece.


RH -
Qual a metodologia que será aplicada nessa pesquisa?
Lucia França - A metodologia é quantitativa. Utilizaremos um questionário eletrônico, contendo escalas e perguntas de múltipla escolha. Essas, por sua vez, estão baseadas em pesquisas e estudos anteriores, bem como em trabalhos internacionais sobre a decisão da aposentadoria, os preconceitos percebidos pelos gestores em relação aos trabalhadores mais velhos, suas percepções sobre a possibilidade de escassez de mão de obra, flexibilidade no trabalho, os programas de preparação para a aposentadoria - se existem e como estão sendo desenvolvidos -, e políticas já adotadas pelas organizações para lidar com este desafio.


RH - Qual o público-alvo do seu trabalho e de que forma a senhora pretende alcançar esse universo?
Lucia França - Meu público-alvo é formado por gestores de RH de organizações públicas e privadas, de grande porte, sendo um representante para cada organização, ou representantes de cada regional da organização, de sindicatos, gestores da previdência pública e de empresas de previdência privada. A pesquisa obteve apoio da FAPERJ, FIRJAN, ABRH Nacional, FIEMG, SESI/Pará, ABRAPP e de uma dezena de pesquisadores-colaboradores no Rio de Janeiro, Brasília, Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Até o momento temos 260 participantes. Um grande problema que enfrentamos é o baixo retorno dos questionários. Isto representa o descrédito dos representantes das organizações brasileiras em serem parceiros das universidades na resposta às pesquisas. Enquanto pesquisadores, que trabalhamos com os problemas sociais brasileiros, precisamos que os resultados de nossas pesquisas obtenham eco, e sejam discutidos de forma a subsidiar políticas e ações tanto nas organizações públicas quanto privadas. No caso do envelhecimento no contexto organizacional, a resistência por parte dos gestores nas organizações privadas parece ser ainda maior do que nas organizações públicas. Esperamos que esta entrevista traga mais interessados em preencher o questionário. A coleta de dados se encerrará ao final do mês de agosto, e almejamos obter 300 participantes.


RH -
Que contribuições a Pesquisa "Atitudes dos gestores de Recursos Humanos frente ao envelhecimento dos trabalhadores nas organizações" trará àss organizações e aos funcionários próximos à aoposentadoria?
Lucia França - Em primeiro lugar uma pesquisa tem sempre um fundo educativo, e neste caso, acredito que tenha sensibilizado o participante para o rápido processo de envelhecimento que ocorre em nosso país, e suas consequências econômicas, sociais, de saúde, culturais e familiares. É a primeira vez que um tema tão emergente como o envelhecimento no contexto organizacional está sendo abordado por uma pesquisa nacional. As organizações que participaram da pesquisa obterão dados em primeira mão sobre os seus resultados. Depois disto, os resultados serão apresentados em congressos e publicados em revistas científicas nacionais e internacionais. Estes resultados poderão subsidiar políticas, mudanças e alternativas necessárias para que o envelhecimento possa, de fato, ser um ganho e não um problema para a sociedade em geral.


RH - Hoje, qual a perspectiva de futuro para o trabalhador que está prestes a se aposentar, no Brasil?
Lucia França - Costumo dizer que muitos aposentados vivem mais tempo na aposentadoria do que na vida de trabalho. Se estas pessoas viverem até os 100 anos, elas precisam continuar trabalhando por mais tempo, se tiverem saúde e se assim desejarem, especialmente porque a previdência não terá recursos para pagar tantos benefícios de aposentadoria. É preciso que as organizações, representadas por seus profissionais de Recursos Humanos, sindicatos, previdência pública e privada discutam com os órgãos governantes ações conjuntas para permitir oportunidades de trabalhos em regime de meio-período. Outras ações também devem constar em pauta como, por exemplo, apoiar profissionais que precisam continuar trabalhando para complementação de renda, oferecer programas de preparação para a aposentadoria, cuja obrigatoriedade é prevista em legislação - Política Nacional do Idoso e Estatuto do Idoso. Um aspecto relevante é a educação financeira que está sendo implantada pelo governo em algumas escolas, mas que precisa ser estendida a todas as escolas. O brasileiro tem uma característica de imediatismo muito evidente, e é difícil para ele pensar no futuro. O governo e as empresas têm suas responsabilidades com a previdência dos seus trabalhadores, mas é preciso estimular também a responsabilidade individual desde criança. Este não é um tema para ser abordado quando os trabalhadores estão a dois anos da aposentadoria. O estímulo à poupança para o futuro deve ser iniciado nas escolas e reforçado pelas organizações, com o apoio da mídia.


RH - Essa perspectiva é válida também para profissionais que exerceram cargos estratégicos nas empresas?
Lucia França - Acho que pessoas precisam ser estimuladas a continuar exercendo cargos estratégicos, mesmo aposentadas. Em horários reduzidos, deveriam ser aproveitadas nos conselhos das organizações, das comunidades, dos sindicatos, das universidades, das escolas, No entanto é preciso garantir que o tempo delas não seja tomado apenas pelo trabalho - remunerado ou não -, mas que ao menos a metade dele seja utilizado para o cuidado pessoal, saúde, atividades de lazer, relacionamentos, hobbies e para um seu projeto de vida, independente do trabalho.


RH - As empresas brasileiras estão conseguindo lidar com os profissionais próximos à aposentadoria?
Lucia França - Pelos motivos já apresentados acima eu diria que não. A resistência em responder a este questionário por conta dos profissionais de Recursos Humanos é uma demonstração de que não estão sequer sensibilizados para esta situação, ao contrário do que está acontecendo no mundo desenvolvido. É preciso que as organizações acordem como as escolas já acordaram em relação a desenvolver a consciência das crianças quanto à questão ambiental. A questão do envelhecimento é uma das facetas a ser trabalhada pelas escolas e pelas organizações o mais rápido possível. Vejo a mídia educando as pessoas quanto aos preconceitos relacionados à homofobia, aos negros, mas não vejo o preconceito contra os idosos - ageismo -, ser abordado, especialmente no que toca às possibilidades de aprendizagem, trabalho e participação destas pessoas. Teremos muitos brasileiros centenários, e é impossível que o sistema previdenciário mantenha-se sustentável com pessoas aposentando-se tão cedo. É preciso aproveitar o potencial dos profissionais que desejam e têm saúde para continuar no mercado. Essas pessoas devem ter oportunidade de se atualizar e serem competitivas no mercado. Contudo, tendo mais controle do tempo e da vida, para desenvolverem lazer e prazer à medida que envelhecem.


RH - Que avaliação a senhora faz dos programas instituídos pelas organizações com o objetivo de preparar os profissionais para uma nova fase de vida - a aposentadoria?
Lucia França - Sem dúvida, dentro de uma filosofia de educação ao longo da vida, os programas de preparação para a aposentadoria são oportunidades de aprendizagem, para ajudar as pessoas a organizar o tempo ao seu favor, e avaliar todos os investimentos, não apenas os financeiros, mas os de saúde, de relacionamentos sociais, afetivos e familiares, desenvolvimento mental, físico e espiritual. Partindo desta avaliação, a preparação deve priorizar o planejamento de futuro, redimensionando o projeto de vida de forma a obter mais qualidade e bem-estar na aposentadoria. Contudo, se alguns programas são ineficazes é porque não são claros em seus objetivos e tampouco garantem a sua continuidade. O programa de preparação para a aposentadoria deve ser proposto por uma equipe sensibilizada e preparada tecnicamente. Ter um bom mecanismo de divulgação para que efetivamente possa ter a adesão dos participantes. Deve ter continuidade e acompanhamento, com conteúdos estabelecidos por diagnóstico prévio, sendo os aposentados avaliados periodicamente, especialmente dois anos após a aposentadoria.


RH - Quais as contribuições que a área de Recursos Humanos pode dar aos se estão próximos da aposentadoria?
Lucia França - Podemos destacar: identificar os preconceitos existentes quanto à capacidade laborativa e cognitiva dos mais velhos, promovendo a integração entre as faixas etárias; promover oportunidades de projetos intergeracionais em função de problemas comuns encontrados na prática do trabalho, para que os trabalhadores possam valorizar-se, beneficiarem-se mutuamente, reduzindo os possíveis conflitos intergeracionais; dar voz ao trabalhador mais velho para que ele possa revelar os seus interesses, e priorizar trabalhos que eles tenham mais aptidão ou prazer em realizar. O profissional de Recursos Humanos pode, ainda: oferecer flexibilidade de horário e controle sobre o trabalho para trabalhadores mais velhos, principalmente para aqueles que a organização tenha interesse em postergar a aposentadoria; promover programas de educação ao longo da vida em parceria com o governo e as universidades, priorizando a atualização de trabalhadores mais velhos não apenas para a organização, mas para mantê-los competitivos no mercado de trabalho; incentivar a responsabilidade social das organizações frente aos seus próprios colaboradores, oferecendo programas de preparação para a aposentadoria para aqueles que desejam aposentar-se; promover a gestão do conhecimento sistemático entre os trabalhadores mais velhos - os seniors - e os trabalhadores recém-admitidos nas organizações - os juniors. Os mais velhos são os responsáveis pela memória organizacional, os que mais conhecem a empresa, e, portanto, devem ser os mestres de cerimônia para os futuros colaboradores.


Pesquisa "Atitudes dos gestores de Recursos Humanos frente ao envelhecimento dos trabalhadores nas organizações":
Mais informações sobre como participar dessa pesquisa com Lucia França, professora do Curso de Mestrado em Psicologia da UNIVERSO - email: luciafranca@luciafranca.com .

 

Palavras-chave: | Lucia França | pesquisa | terceira idade | mercado de trabalho |

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COMENTÁRIOS (2)
José Alberto de Souza Santana em 02/09/2011:
Parabéns, Lucia! Você abordou um tema que interessa muito aos profissionais de recursos humanos.

Camila Volpatto em 27/08/2011:
Tema muito interessante e extremamente importante. Para verificar a eminência do tema, basta analisar a atual conjuntura brasileira, aliás, isso foi muito bem feito nesta entrevista. Parabéns!

 
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