Por Gustavo Gomes de Matos para o RH.com.br 
A falta de comunicação orgânica e a repetição de ações mecânicas, atos burocráticos e posturas tecnocráticas, em busca do lucro acima de tudo e de todos, tem levado organizações e pessoas a total falta de sentido para suas atuações e existência. A crise financeira global, iniciada em Wall Street, é a expressão mais contundente desse quadro de incomunicabilidade e falta de transparência nas intenções.
A desmesurada busca de resultados contábeis e financeiros tem isolado empresas e profissionais em uma mentalidade fechada para a riqueza do relacionamento humano, que se realiza através do diálogo, da troca de idéias, sentimentos e emoções.
No mundo corporativo das empresas de capital aberto privilegiam-se muito as estratégias, os programas e as medidas administrativas voltadas para a melhoria contínua da qualidade, produtividade e competitividade. Nessa linha, são estabelecidas certificações, procedimentos e normatizações, a fim de garantir os melhores desempenhos e resultados, com os menores custos. Dentro desse enfoque, as pessoas são tratadas como peças de uma engrenagem, que tem a sua programação voltada apenas para o alcance de metas financeiras.
Nada contra a determinação de crescimento e rentabilidade dos empreendimentos. Muito pelo contrário, pois esse é um dos principais fatores de desenvolvimento e de geração de riqueza e renda. Porém, há um problema crucial, quando a busca pelo lucro passa a ser desmedida, rompendo as barreiras da ética e do respeito ao ser humano, e ao direito inalienável de sentido e dignidade para a sua existência.
O que o funcionário pensa, sente e fala não interessa aos tecnocratas de plantão. Porém, sem encontrar sentido para o trabalho que realiza, o homem definha e se aliena, perdendo motivação e potencial de desenvolvimento e crescimento profissional.
Falências, concordatas, escândalos financeiros são algumas das conseqüências resultantes da visão estreita que desconsidera o ser humano, que, na verdade, é, exatamente, o fator mais importante para o sucesso e perpetuidade de um empreendimento. O escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924) foi quem melhor soube expressar a angústia humana diante da falta de sentido da dita “civilização moderna” e do caráter desumano e desumanizador da burocracia. No romance “O Processo”, ele narra o drama de um homem que é preso, julgado e condenado à morte, sem qualquer explicação plausível ou um motivo para tal.
Os julgamentos grotescos, frutos da burocracia inflexível dessa história, não parecem mais surreais que as manchetes nos jornais diários sobre a crise financeira mundial e os avanços e retrocessos de Wall Street. Todas essas realidades cruéis não fazem, igualmente, o menor sentido humano e social. E isso leva à carência de sentimento, à falta de bom senso, de rumos e dificulta avaliar o que somos e fazemos. Dentro da lei universal de causa e efeito, as conseqüências para esse quadro são as piores.
“Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama, transformado num gigantesco inseto”. É desse modo que Kafka inicia a história de Gregor, um funcionário público, que, devido a uma angustiante rotina de trabalho, desumaniza-se a ponto de virar uma barata.
Ao acordar para o trabalho, Gregor constata que “se transformou num inseto horrível, com dorso duro e inúmeras patas". Aos poucos, ele vai se adaptando à modificação física, uma metamorfose que segue provocando alterações de comportamento, atitude, sentimentos e opinião. E começa então a pensar e agir como um inseto repugnante, abandonando sua identidade e consciência humana. Acaba perdendo a própria alma.
A metamorfose que Kafka nos relata, não conta apenas a história de um homem que se transformou num inseto. É, sobretudo, um alerta à burocracia, à sociedade de massa e ao absurdo da desumanização do homem pela falta de sentido para sua existência.
Existem no mercado inúmeras situações “kafkanianas” em que, para garantir sua subsistência, muitos indivíduos se submetem a cruéis condições de trabalho. Algumas organizações adotam, de forma distorcida, o pensamento racional-econômico de que as pessoas rendem mais quando submetidas a disciplinas exaustivas e ambientes opressivos.
O mundo corporativo precisa rever seus valores, investindo mais em educação e cultura empresarial. É preciso compreender que responsabilidade social e sustentabilidade devem transitar pelo caminho dos valores humanos e não pela estrada sinuosa da ótica oblíqua do mercado de capitais.
Palavras-chave: | comunicação | reconhecimento |
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