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25/02/2008
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Comunicar é ser compreendido

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Ao contrário do que muitos pensam, uma boa comunicação não se resume a falar muito e tão pouco usar expressões que imponham altivez pelo número de sílabas ou pela entonação que impressionam que “teoricamente” podem impressionar os ouvintes. Falar bem inclui um conceito mais amplo. Segundo Moriaki Hijo, consultor de empresas e especialista em comunicação organizacional, um dos principais vícios do meio corporativo é o individualismo – que leva as pessoas a não ligarem se a outra parte está ou não entendendo a informação transmitida.

Para Moriaki Hijo, que juntamente com Neusa M. Cassoni Hijo, escreveu o livro “Melhore sua comunicação no trabalho”, lançado pela Textonovo Editora, quem se comunica bem passa a impressão que não se comunica bem. Por quê? Porque seu foco está na outra pessoa, na outra ponta. “A comunicação só passa a existir quando a outra parte entende bem sua mensagem. Ninguém se lembra disso. Só que cuidar da outra ponta não é para qualquer um. Só pessoas experientes facilitam o entendimento, sabem ouvir, sabem interpretar”, afirma o escritor. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Moriaki Hijo aborda diversos pontos sobre a comunicação que podem ser usados tanto na vida profissional quanto pessoal. Se você tem dificuldade de assimilar a cultura de comunicação da empresa onde atua ou, ainda, não consegue ser ouvido, essa entrevista pode ajudar a refletir sobre questões simples, mas que fazem a diferença. Boa leitura!

RH.com.br - O que significa “comunicar bem” em um mundo onde as organizações deparam-se com constantes processos de mudanças?
Moriaki Hijo - Bem, num cenário de mudanças a prioridade é conquistar a confiança. Este é o ponto. O primeiro passo é ganhar a confiança. Sem a confiança, nada feito. O segundo passo é informar. O terceiro passo é convencer. Por fim, converter, ou seja, trazer para o nosso lado. Eis o caminho para comunicar bem. Comunicar bem é pavimentar a estrada da confiança, pois o mundo não acaba hoje. Sem isso em mente a comunicação de amanhã poderá ser para apagar o incêndio de hoje.

RH - A comunicação no ambiente de trabalho possui peculiaridades?
Moriaki Hijo - Sim, e vamos falar de uma em especial. A de ter o espírito de “prevenção de acidentes”. Evitar mal-entendidos. Porque mal-entendidos geram horas de prejuízo. Fazer a equipe entender isso é vital. A rigor, ninguém liga para o espírito de prevenção de acidentes na comunicação. Exemplo? Dizer o óbvio. Não, ninguém diz o óbvio. Mas veja, quem garante que o que é obvio para mim é também óbvio para quem ouve? Nunca sabemos. Mesmo assim, preferimos não dizer. É cultural, é tabu. Temos o medo do deboche. Resultado, milhões de acidentes acontecem porque as pessoas não dizem o óbvio. Nos países do Primeiro Mundo, as pessoas no trabalho dizem o óbvio sem qualquer constrangimento. Todos entendem a intenção de “prevenção de acidentes”. Todos agradecem. É um pacto social.

RH - Qual o peso que a comunicação exerce na vida de um profissional e no ambiente corporativo?
Moriaki Hijo - Total. A comunicação é a última etapa do desenvolvimento pessoal e profissional. Até então ele cuidou só de um lado da comunicação: o lado dele. Cuidou de como falar, de como impressionar, da gramática. E a outra parte? A comunicação só passa a existir quando a outra parte entende bem sua mensagem. Ninguém se lembra disso. Só que cuidar da outra ponta não é para qualquer um. É para gente grande. Só pessoas experientes facilitam o entendimento, sabem ouvir, sabem interpretar. Não há prova maior de maturidade do que a capacidade de interpretar o que se ouve. A capacidade de ir além das palavras. Ir às essências. Para a maioria das pessoas a outra parte não existe. É abstrata. Quem descobrir a outra parte na comunicação leva o troféu. Quem se candidata?

RH - Quais são os principais vícios de comunicação que as pessoas possuem dentro das organizações?
Moriaki Hijo - Vamos falar do vício número um. O de ser individualista. Não se preocupar com o outro. Não facilitar o entendimento. É comum achar que um bom comunicador é a pessoa que fala bem, fala bonito, fala sorrindo. Quem realmente quer se comunicar bem tem outra postura. Ouve mais que fala. Passa conforto. Faz a outra parte sentir participante da conversa. Sabe, por experiência ou instintivamente, que a missão de se comunicar é ajudar o outro a entender. No ambiente de trabalho, fazer o outro se sentir bem é o primeiro passo para uma boa comunicação. Veja uma coisa intrigante. Quem se comunica bem passa a impressão que não se comunica bem. Por quê? Porque seu foco está na outra pessoa, na outra ponta. Quem nunca cometeu este erro de julgamento? Por exemplo, o melhor vendedor pode ser uma pessoa que não impressiona à primeira vista. Não impressiona a platéia. Só que na hora da venda, no sagrado momento do desempenho de sua função, o que vale mesmo é a opinião do cliente. Então, quem é o melhor chefe? O melhor líder? A melhor recepcionista? O melhor professor?

RH - Por que esses vícios são cometidos com tanta constância?
Moriaki Hijo - Por não fazer parte da cultura. Infelizmente, na nossa cultura do dia-a-dia o outro não existe. Por isso, queremos cortar a fila. Sujamos a calçada. Fazemos barulho à noite. Esta postura afeta profundamente a comunicação. Por isso, dizemos que o vício maior na comunicação é o de ser individualista. Só se preocupar com ele próprio. Enfim, é excluir o outro na hora de se comunicar. É deixar o outro adivinhando. Adivinhar? Isso não é comunicação. Quem nunca se sentiu excluído ao ler um manual de instruções ao comprar um aparelho? Ao assistir a uma aula de um professor arrogante? Ao ouvir um chefe prepotente? Um funcionário que diz “não” sem sequer ouvir você? Mesmo pessoas bem intencionadas acabam excluindo você por problema de treinamento na comunicação. Foram treinadas para falar bem, para impressionar, para serem simpáticas. Cada vez mais está tudo muito parecido. Muito impessoal. Todos excluem todos simpaticamente. Claro, é melhor excluir simpaticamente do que rudemente. É melhor falar bem do que falar mal. É um avanço, sem dúvida. Só que a outra ponta continua excluída.

RH -Qual o segredo para uma boa comunicação no meio organizacional?
Moriaki Hijo - Criar o bom hábito de ouvir as pessoas. Este gesto gera conforto. Que gera confiança. Que gera boa comunicação. Então, o segredo é antigo: todos gostam de ser ouvidos, todos gostam de ser parte. Num ambiente fechado, demasiadamente hierárquico, com comunicação formal, as pessoas adotam o famoso comportamento defensivo. O importante não é solucionar e sim explicar que não deu. Tudo bem explicadinho. Enfim, num ambiente assim não existe clima para uma comunicação sincera. As pessoas não enxergam pessoas; enxergam ovos e pisam em ovos. É o ambiente propício para mentiras burocráticas. As verdades dos relatórios. A frase engatilhada por todos é “não é minha culpa”.

RH - Alem das palavras, que outros fatores interferem em um processo de comunicação entre duas pessoas?
Moriaki Hijo - É fazer o outro virar paisagem. É não prestar atenção, é sonegar pequenos gestos. É acreditar no “bem, ele ou ela vai entender”. Vai nada. Quem entende ser passado para trás? Em inglês existe uma expressão que cabe como luva para esta situação. É “take someone for granted, que não possui uma tradução específica para o português, mas que pode ser interpretada como “aceitar algo como consumado, uma situação como certa”. Neste estágio já não existe mais a preocupação com o outro. O interesse em ajudar o outro a entender. O outro já não existe. Como pode existir comunicação se você matou a outra ponta? É o popular “dois surdos conversando”.

RH - Os problemas evidenciados entre as relações interpessoais estão diretamente relacionados à falta de uma boa comunicação?
Moriaki Hijo - Veja, faltou o interesse por outro, morre a comunicação. Em geral, falta de comunicação é conseqüência e não a causa dos problemas interpessoais. Para reverter o problema é preciso examinar os sentimentos. Este é o ponto principal. Depois, deixar que pequenos gestos falem também. Ouvir, olhar nos olhos, sorrir, agradecer, cumprimentar, lembrar das qualidades e esquecer os defeitos. Para muitos casos é mais seguro assim do que tentar reverter o problema apenas com diálogos. Por quê? Porque a comunicação dessas pessoas falhou antes. Já vi pessoas travadas na comunicação. Falam, falam, mas não conseguem se comunicar. Só pioram as coisas. Infelizmente. Um exemplo exagerado e engraçado: Jack Nickolson no filme “Melhor é impossível”.

RH - Qual a função do gestor frente à boa comunicação no ambiente de trabalho?
Moriaki Hijo - O papel de líder. De facilitador. De pavimentar a estrada da confiança. A comunicação só existe de verdade onde há confiança entre as pessoas. Fora isto é faz de conta. Aí é só na força. Na ameaça. No dinheiro.

RH - Que orientações o Sr. passaria a um profissional de RH que identifica problemas de comunicação entre os membros de uma equipe?
Moriaki Hijo - Cada membro precisa da certeza que será ouvido. A comunicação nasce daí. É preciso escalar alguém que a equipe respeite. Não que goste, mas que seja imparcial. Pode ser firme, mas tem que ser imparcial. Numa crise a pior coisa é a percepção que há segredinhos por trás. Em resumo, é preciso escancarar a imparcialidade. A justiça é a percepção da imparcialidade.

Palavras-chave: | Moriaki Hijo | comunicação |

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