
Se pudéssemos reunir, numa mesma sala, personalidades como Alberto Santos Dumont - O Pai da Aviação, Jonh Nash - matemático que conquistou o Prêmio Nobel de Economia, em 1994, e o cineasta George Lucas - criador da trilogia Guerra nas Estrelas, e perguntássemos o que os três têm em comum, certamente muitas pessoas diriam: eles foram marcantes em suas áreas de atuação. A resposta estaria certa, logicamente, mas poderíamos acrescentar algo mais: todos, ao longo de suas vidas, experimentaram a inovação, não recuaram diante do medo de errar e foram criativos. Criatividade, a competência tão desejada e procurada por profissionais e empresas está ao alcance de todos. Não há quem não seja criativo, o diferencial está na capacidade de exercitar a mente a experimentar o novo, de ser flexível, de perceber o que acontece ao lado.
Para falarmos sobre criatividade e como essa pode ser desenvolvida individualmente e no mundo corporativo, o RH.com.br entrevistou a Ana Lucia de Mattos Santa Isabel. Pesquisadora, administradora de Recursos Humanos e consultora do Instituto Avançado de Desenvolvimento Intelectual (Insadi), ela tem desenvolvido trabalhos na área de desenvolvimento e de aplicação de atividades vivenciais em muitas organizações. "Uma pessoa criativa não é alguém diferente dos demais. É, ao contrário, alguém comum, de quem a escola, a família e o grupo social nada retiraram", afirma. Durante a entrevista, ela deu dicas de como é possível desenvolver o potencial criativo e de que maneira a área de Recursos Humanos deve atuar nesse processo. Aproveite e boa leitura!
RH.com.br - O que é ser criativo?
Ana Lucia de Mattos - Ser criativo é desenvolver um olhar inovador para as coisas corriqueiras do dia-a-dia. Uma pessoa criativa não é, em absoluto, alguém diferente dos que a cercam e dotada de algo além. É, ao contrário, uma pessoa comum, de quem a escola, a família, o grupo social nada retiraram. Pessoas criativas, em geral, levam uma vida estimulante, cultivando amigos, aprendendo constantemente, re-fazendo, descobrindo, desenvolvem profunda compreensão de como solucionar problemas. Acabam ocupando cargos mais elevados no ambiente corporativo, tornando-se líderes inspiradores que levam os que com elas convivem a buscar o aperfeiçoamento de suas competências. Um dado muito relevante sobre as pessoas criativas é que elas desenvolvem a capacidade de "ter mais tempo". Sempre têm muitos e variados interesses fora de seu foco profissional. Muitos, por exemplo, são voluntários em diversas instituições.
RH - Ser criativo é sinônimo de ter idéias "brilhantes"?
Ana Lucia de Mattos - É preciso ter sempre em mente as quatro fases do processo criativo: preparação, incubação, iluminação e verificação. As tão ansiadas "idéias brilhantes" só surgem na terceira fase. Ou seja, depois de termos feito o esforço consciente e disciplinado que a primeira fase requer. A fase de preparação, de onde, afinal, brotam as idéias, requer que o candidato à pessoa criativa leia muito, veja muito, ouça muito. E de forma bem variada. Os "pedaços de idéias" assim recolhidos, vão aglutinando-se, durante a fase de incubação. Muitos retalhos de coisas, ouvidas, lidas, sabidas, acabam transformando-se, numa espécie de alquimia, em uma nova idéia. É, então, e só então, que irrompe das profundezas do ser, a idéia nova, resultado de paciente busca e cozimento. É a fase da iluminação, tão realçada, louvada, buscada. As idéias são como animais selvagens.Têm sempre uma forte tendência a se enfiar em tocas. É preciso um trabalho constante para apanhá-las pelo rabo e trazê-las à luz. Muitas idéias brilhantes perdem-se nesta fase devido à falta de verificação que nos garante objetivos, pertinência, adequação e viabilidade.
RH - A criatividade é nata ou pode ser desenvolvida através de técnicas?
Ana Lucia de Mattos - Há muitos mitos envolvendo esta questão da criatividade. Todos nós somos criativos. Podemos nos tornar cada vez mais criativos, desde que aumentemos nossa autoconfiança e tenhamos disciplina para trabalhar com regularidade. Ser criativo está ligado ao estilo de vida adotado. Pessoas criativas estão sempre investigando. São curiosas, bem humoradas e trabalham bem em equipe, porque sabem partilhar.
RH - E qual o caminho para ser criativo?
Ana Lucia de Mattos - Um excelente caminho para se tornar mais criativo é desenvolver o hábito de fazer breves caminhadas ao ar livre, deixando o pensamento solto em uma espécie de meditação ativa. Outra providência útil é ter um "caderninho de tesouros" no qual se devem anotar cada fiapo de idéia que surgir e também notícias, palavras, informações, frases que nos chamem a atenção. Este hábito organiza nosso caos interno tornando nossa criatividade estruturada, e, portanto, produtiva.
RH - Normalmente, que competências o indivíduo criativo traz consigo?
Ana Lucia de Mattos - Todos nós somos criativos em alguma coisa. Não existe ninguém que não seja criativo em algum grau. Uma cozinheira é criativa quando modifica uma receita, um pedreiro quando soluciona um problema de assentamento de tijolos, e assim por diante. Os traços mais marcantes das pessoas que se tornam referência em se tratando de criatividade costumam ser: curiosidade; imaginação; capacidade de buscar informação; proficiência; autoconfiança; senso de humor; persistência, flexibilidade, curiosidade e paixão.
RH - De que forma identificamos uma empresa que oferece um ambiente criativo?
Ana Lucia de Mattos - Empresas que constroem um ambiente criativo podem ser identificadas pela sua capacidade de correr risco, com baixo nível de estresse em todas as camadas da hierarquia, com excelente padrão de comunicação e um clima organizacional que reflita confiança. Uma empresa criativa mantém o equilíbrio entre conservadorismo e dinamismo também. Existe uma natural tendência a conflito entre os mantenedores da "lei e da ordem" e o povo da inovação, da aventura. Os dois tipos precisam estar presentes em empresa ágil. Como numa colméia que abriga e necessita de operárias e exploradoras. Numa empresa criativa os dois tipos convivem com respeito e compreensão.
RH - O que mata a criatividade das pessoas?
Ana Lucia de Mattos - A causa mais freqüente e cruel é o medo. Medo do julgamento do outro, medo de errar, medo de perder e o sub-reptício medo do sucesso e das conseqüentes responsabilidades que ele acarreta.
RH - A pressão constante, pelo aumento da produtividade, pode ser considerada uma inimiga da criatividade?
Ana Lucia de Mattos - Sim e não. E posso explicar. Para algumas pessoas, a pressão constante é extremamente estimulante. Para outras, um entrave devido ao alto grau de estresse gerado. É função do líder colaborativo adequar o nível de pressão mantendo-o nos limites adequados.
RH - Como as empresas podem estimular a criatividade no dia-a-dia?
Ana Lucia de Mattos - Criando um ambiente em que as pessoas sintam-se livres para experimentar que descobrir é olhar para o que todos estão vendo e pensar em algo diferente. Para isso, é preciso romper bloqueios mentais, estimular os aspectos lúdicos, permitir o erro, soltar-se da lógica, das normas, da busca insana pela praticidade a qualquer custo. Além disso, é urgente estimular a leitura, o bom humor, a intuição, o conhecimento pelas artes. Podem-se criar cooperativas de idéias como: um canto específico para a descontração com a presença de jogos, livros e brinquedos; estimular os membros de uma equipe a realizarem um debate livre por semana; instituir o cargo de "responsável pela surpresa do dia", que deve ter, claro, rotatividade diária. Enfim, se não podemos abolir totalmente a rotina de nossas vidas, podemos criar espaço nela, inclusive na rotina corporativa, para novidades, surpresas.
RH - E a área de RH, o que pode fazer para contribuir com o processo criativo?
Ana Lucia de Mattos - É aos gestores de RH que cabe a construção e a garantia deste clima organizacional favorável. Isto se faz com atitude, confiança, estímulo, e, claro, providenciando a oportunidade de mudar o padrão "não criativo" para o criativo através de treinamentos adequados e ações continuadas. Eu sonho com o dia em que, em cada empresa, o gestor de RH adote como lema a frase instigante de Daniel Goleman, em seu livro O Espírito Criativo: "Se não for divertido, não estamos interessados". Quando isto acontecer, as reuniões deixarão de ser mornas, objetivas e maçantes para ser criativas, estimulantes e produtivas.
RH - Estimular a autoconfiança dos profissionais pode ser um diferencial para exercitar a criatividade nas empresas?
Ana Lucia de Mattos - Sem a menor sombra de dúvida. Pessoas inseguras, mesmo que criem, jamais se expõem às críticas.O caminho para a criatividade presente no dia-a-dia corporativo é trilhado através do autoconhecimento, do conhecimento do outro e da serena convivência entre o eu e o outro que só é construída por pessoas autoconfiantes. As pessoas autoconfiantes são dotadas também de ânimo, fagulha que dá a partida no motor da criatividade. Sem ânimo, sem energia suficiente, qualquer projeto criativo corre o risco de falhar ou mesmo de não ser implementado. Seres humanos autoconfiantes possuem a capacidade de entrar no fluxo, como se cada projeto fosse seu único empreendimento. Isso faz com que fiquem totalmente envolvidos com a tarefa, cometam menos erros, reconheçam, tolerem e refaçam os que vierem a cometer, e sejam muito mais perceptivos e produtivos.
RH - A criatividade sempre caminha lado a lado com o risco de cometer erros?
Ana Lucia de Mattos - Sempre. Veja por exemplo, os músicos de jazz. Cada um deles parece tocar para si mesmo. Se erram, continuam tocando, fazendo do erro, muitas vezes, belíssimos, comoventes improvisos. Isto só é possível graças à atitude de confiança mútua e ao encorajamento recíproco. Se quisermos os acertos, devemos estar preparados para os erros. Sempre que erramos, nos maldizemos e perguntamos: "onde foi que eu errei?". Pessoas criativas, flexíveis, dizem entre divertidas e curiosas: "onde será que isto vai dar?". Seguem a idéia, espreitam-na até a retiram da toca.
RH - Quais os benefícios que uma empresa conquista, ao estimular a criatividade dos seus colaboradores?
Ana Lucia de Mattos - O ganho imediato é inovação a serviço da produtividade. Mas, há os que, apesar de mensuráveis, são menos visíveis à primeira vista como, por exemplo, diminuição do nível de estresse corporativo, redução do número de acidentes de trabalho, melhoria do clima organizacional, possibilidade de poder melhorar a atuação em relação à responsabilidade social da empresa.
Palavras-chave: | Ana Lúcia Mattos de Santa Isabel | criativiade |




