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08/10/2007
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A metamorfose das empresas

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

“É chato chegar... A um objetivo num instante... Eu quero viver... Nessa metamorfose ambulante... Do que ter aquela velha... Opinião formada sobre tudo... Do que ter aquela velha... Opinião formada sobre tudo...”, a essência da criatividade certamente está muito bem representada, inclusive no que se refere à realidade do meio organizacional, nessa estrofe da música “Metamorfose Ambulante”, do inesquecível Raul Seixas. Um cunho de certo atrevimento para quem adora seguir as regras e dizer um ‘não’ às mudanças, isso é inquestionável. Por outro lado, para os que buscam fugir do estático, enfrentar e se adequar às inovações, essas palavras caem como uma pluma, afinal não há como negar que seja qual for o segmento, hoje, as empresas procuram captar e reter os talentos criativos, ou seja, aqueles profissionais que façam a diferença para o negócio e, é claro, a concorrência.
Mas, o que significa ser criativo? “A criatividade não pode ser encarcerada em meia dúzia de frases feitas. Não é manualizável, normatizável, estática ou monolítica. A criatividade se adequa, ao que Mary Parker Follet chamava de Lei da Situação, que por ser tão variável, acaba por não se transformar em lei alguma”, afirma Geraldo Ferreira Araujo, consultor de estratégias corporativas, professor e autor dos livros “A Criatividade Corporativa na Era dos Resultados” e “Empreendedorismo Criativo – A Nova Dimensão da Empregabilidade”, ambos lançados pela Editora Ciência Moderna. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Geraldo Ferreira alerta para o fato de que, via de regra, as empresas apenas deslocam meia dúzia de talentos para um departamento “marqueteiramente criativo” e, a partir daí, intuem a massa funcional para que aguarde, passivamente, por dogmas. Confira a entrevista na íntegra e aproveite a oportunidade para refletir se sua organização está preparada para acompanhar as tendências do mercado. Boa leitura!

RH.COM.BR - O senhor dedica boa parte dos seus estudos à criatividade no ambiente corporativo. Que análise o senhor faz do cenário organizacional brasileiro, em relação ao potencial criativo dos profissionais?
Geraldo Ferreira Araujo – Em meu novo livro, “Empreendedorismo Criativo, a Nova Dimensão da Empregabilidade”, faço uma reflexão sobre os ambientes laborais modernos e cheguei à conclusão de que, nem por aqui nem em qualquer outro lugar do planeta, os potenciais dos profissionais engajados na maioria das bandeiras corporativas são estimulados a criar. Via de regra, o que está acontecendo em relação ao assunto nada mais é, e quando muito, do que deslocar meia dúzia de talentos para um departamento novo, dar-lhe um nome “marqueteiramente criativo” e, a partir daí, intuir a massa funcional para que aguarde, passivamente, pelos dogmas que, como uma taboa de mandamentos, lhes será impingida. Ou seja, a “Dona Norma” e o “Seu Manual”, respectivamente, a amante dileta e o solidário amigo de Max Weber, travestem-se de uma falsa modernidade por intermédio de expressões que apenas “pretendem dizer”, mas que continuam a desestimular e a inibir os que procuram pensar diferenciadamente. A realidade mostra que todos podem e devem ser criativos, porém, desde que não criem nada diferente do que já foi “criativamente” estabelecido.

RH - A criatividade tornou-se a "competência das competências"'?
Geraldo Ferreira Araujo – Infelizmente, estamos, uma vez mais, vivenciando mais uma daquelas fases de oba-oba, de modismo, de atuação perniciosa dos espertos de ocasião e que é tão lesiva para o entendimento e a solidificação da real importância da área de Recursos Humanos, qual seja, a de ser a mais estratégica dentro do contexto de qualquer ambiente corporativo moderno. Não, não é por aí. A criatividade nunca foi competência. A criatividade é dom inato de todo e qualquer ser humano. É inalienável privilégio da espécie Homo Sapiens.

RH - A criatividade está obrigatoriamente ligada à genialidade?
Geraldo Ferreira Araujo – De jeito nenhum. A criatividade é primogênita do conhecimento e caçula da não reverência cega aos conceitos estabelecidos. Tudo o mais é conseqüência. E aqui entre nós, uma pergunta que não quer calar: Heráclito, Platão, da Vinci, Michelangelo, Allighieri, Shakespeare, Camões, Garrincha, Pelé, Einstein, Hawking, Gates ou Jobs foram - ou são - personagens geniais ou, meramente, permitiram-se ser criativos?

RH - Afinal, que conceito o Sr. atribui à criatividade?
Geraldo Ferreira Araujo – A criatividade não é um conceito. A criatividade não pode ser encarcerada em meia dúzia de frases feitas. Ela não é manualizável, normatizável, estática ou monolítica. A criatividade se adequa, isto sim, ao que Mary Parker Follet chamava de “Lei da Situação”, que por ser tão variável, acaba por não se transformar em lei alguma. Ou seja, a criatividade simplesmente é. E está aí disponível para quem se encorajar a exercitá-la. Em meu livro “A Criatividade Corporativa na Era dos Resultados”, procuro abordar o tema com seriedade e acredito que a sua leitura possa servir de razoável parâmetro para que cada qual defina, por conta própria, para que caminhos direcionará seus estudos e reflexões.

RH - A criatividade exige pré-requisitos do profissional?
Geraldo Ferreira Araujo – Profundo entendimento do que faz - a criatividade é filha dileta do conhecimento -, compromisso permanente com o autocrescimento - crescer é uma decisão individual -, predisposição para se inserir em ambientes de constantes mudanças, persistência nas reflexões, aprofundamento nos experimentos e, last but not least, não ter medo do erro e se predispor a aprender com eles.

RH - Um profissional especialista corre o risco de se moldar a determinados padrões e, conseqüentemente, prejudicar o seu potencial criativo?
Geraldo Ferreira Araujo – Goethe dizia que “o especialista é o aleijão da história”. Hoje, com a pluralidade de alternativas e o desaparecimento e o surgimento de inúmeras profissões em todos os segmentos de mercado, essa verdade, de certa forma, ganha corpo. No entanto, ao que Goethe talvez se estivesse referindo era ao fato de que os “especialistas” daquele período pré-revolução industrial nada mais seriam do que meros repetidores de experiências que se haviam perenizado através dos tempos em atividades tidas e havidas como eternas. Assim sendo, se o especialista de hoje tiver comportamento similar, a máxima cristaliza-se. Porém, se fizer de sua especialização um trampolim para a permanente busca de um modelo sucedâneo, a assertiva se dissolverá nas ondas da inovação. Cabe a cada qual, em ponderada reflexão, a escolha de seu próprio norte.

RH - Então, ser especialista ou generalista não interfere na criatividade do profissional?
Geraldo Ferreira Araujo – Nem um pouco. Porém, a máxima de Goethe serve tanto para um quanto para outro: parar nos remos é remar para trás.

RH - A partir do momento que uma empresa abre suas portas para a criatividade, a possibilidade dos profissionais cometerem erros aumenta. Até que ponto é saudável ou permitido equivocar-se sem riscos efetivos para o negócio?
Geraldo Ferreira Araujo – Acredito exatamente no inverso: a possibilidade de erros se amplifica, justamente, quando a organização fecha as portas para a criatividade do corpo funcional. Primeiramente, porque sem exercitá-la continuarão sendo cometidos todos aqueles equívocos que estão manualizados. No mundo contemporâneo não há nada mais fora de esquadro do que essas bulas normativas. Você já teve oportunidade de ligar para algum “fale conosco” da vida? Pois é. Não é que as pessoas sejam burras. Não, a questão é que foi definido que a única coisa que é permitida dizer é o que é dito. Não pense que elas, após o término da ligação, também não estarão tão frustradas quanto você estará. E nada compromete mais o negócio do que isso. Tanto em relação à ponta atendimento quanto em relação à ponta cliente. O segundo aspecto é o de que o homem ainda não conseguiu inventar o vácuo. Portanto, um erro será, sempre, preenchido por outro. Não existe sistema de segurança perfeito, para o que quer que seja. Então, já que não errar é impossível, vamos começar a errar com um pouco mais de modernidade e, ao mesmo tempo, com muito mais comprometimento em relação às suas correções.

RH - Hoje, é possível imaginar uma empresa competitiva sem a presença de profissionais criativos?
Geraldo Ferreira Araujo – Na complexidade mercadológica do mundo moderno, não existe expectativa de competitividade para os ambientes corporativos que não contemplem o aflorar da criatividade em todos os níveis hierárquicos, que temam o erro como Drácula teme a luz radiante do sol e que não considerem a folha de pagamento como o seu principal ativo. Fora dessas verdades não há salvação.

RH - O trabalhador brasileiro possui peculiaridades em sua criatividade?
Geraldo Ferreira Araujo – Assim como o japonês, o italiano, o grego, o sul africano, o alemão, o canadense, o chileno, o francês, o americano e o neozelandês, o brasileiro também pertence à espécie Homo Sapiens. Portanto, no aspecto criatividade, a diferença de peculiaridades é zero. Não há mais espaço para esse tipo de distinção ou para qualquer outro tipo de filosofia segregacionista. O planeta Terra virou um país.

RH - O “jeitinho brasileiro” é um sinal de que a criatividade está presente não apenas no ambiente corporativo, mas em todas as esferas da nossa sociedade?
Geraldo Ferreira Araujo – Na minha avaliação, “jeitinho brasileiro” é o apelido carinhoso que foi criado para a incompetência, para o despreparo, para a falta de visão estratégica. Não há a menor correlação entre o tal do “jeitinho” e a criatividade, até porque a criatividade exige constância de propósitos, estudo, observação, persistência, avaliação e o recomeço sistemático de todas essas etapas. Criar é dom que exige esforço, dedicação e conhecimento. De minha parte, nunca tive a oportunidade de constatar que alguma coisa providenciada à toque do “jeitinho brasileiro” tenha contribuído para a melhoria ou aperfeiçoamento do que quer que seja. É “quebra-galho” para situações emergenciais, para situações que não foram devidamente avaliadas. Meramente isso. Mas você tem razão, ele ainda permeia muitos e muitos ambientes da sociedade brasileira. Incluindo-se aí os organizacionais.

RH - O que falta para as organizações brasileiras darem uma guinada definitiva no aproveitamento da criatividade dos profissionais?
Geraldo Ferreira Araujo – De forma bem objetiva: substituir o imediatismo míope, esclerosado e capenga por uma visão estratégica conseqüente que contemple a inovação como principal meta.

RH - Falar sobre aproveitamento do potencial criativo no meio organizacional, sem mencionar a participação efetiva do profissional de RH é um erro?
Geraldo Ferreira Araujo – Já tive a oportunidade de mencionar que considero RH a área mais estratégica nas organizações de ponta. No entanto, não basta termos um crachá de diretor, gerente, analista, técnico ou especialista para acharmos que, a partir de então, seremos capazes de coordenar a implantação e o acompanhamento de um processo sistêmico de aproveitamento da criatividade do corpo funcional. Mais que isso: se por um lado a importância e a responsabilidade dos profissionais da área de Recursos Humanos nos modernos contextos laborais tende a se amplificar, por outro se constata que muitos deles negligenciaram o manter-se em permanente processo de reciclagem e se encontram bastante defasados frente a essa realidade nova. E se a área de RH não conseguir descer nessa onda com confiabilidade, sua existência nas organizações ficará seriamente comprometida. Isso porque, mais cedo ou mais tarde todas as organizações serão, compulsoriamente, instadas a pegarem suas pranchas para irem surfar nas ondas da modernidade desse processo que, registre-se, é irreversível. As que não estiverem com pessoal qualificado e equipamento apropriado irão morrer na praia antes mesmo de se lançarem ao mar. O momento, portanto, é de pouco oba-oba e de muita reflexão.

 

Palavras-chave: | Geraldo Ferreira Araújo | criatividade | criativo |

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