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30/04/2002
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Não se faz mais planos de carreira como antigamente

Por Gilberto de Moraes para o RH.com.br

Quando o Rômulo entrou na empresa, pela porta de um desses conhecidos Programa de Trainees, em que alguns alunos das chamadas Escolas de Primeira Linha são submetidos a uma batelada de testes e entrevistas em português, inglês, espanhol, francês etc, foi apresentado a ele e a mais 14 rapazes e moças, todos muito orgulhosos de si e reunidos num lugar asséptico intitulado Centro de Desenvolvimento Humano, um tal de Plano de Carreira. Na ocasião, meados da década de 80, um Plano de Carreira era o máximo que se poderia esperar de uma empresa, em geral multinacional americana ou européia, pertencente ao setor de bens de consumo de massa.

Após a sessão de vídeos institucionais e farta distribuição de folhetos sobre os produtos da empresa e mensagens do Presidente, alguém do RH iniciou a tão aguardada apresentação do tal Plano, enquanto o Rômulo, entre impressionado e crítico, limitava-se a ouvir a mocinha, aliás muito simpática, argumentar sobre os benefícios do Plano. E o Rômulo ali, pensando no que seria do seu futuro dali em diante.

Segundo ela, se o Rômulo fosse um profissional dedicado, fiel, cumpridor de seus deveres e, acima de tudo, honesto, além de nunca medir esforços para chegar um pouco mais cedo e sair um pouco mais tarde, mesmo que não tivesse mais nada para fazer, o que dificilmente aconteceria, porque Trainee quando não está trabalhando, está aprendendo e vice-versa... Nesse caso, em pouco menos de, digamos, dois anos ele deixaria a condição de Trainee para ser promovido a um Anything Junior.

Outros dois ou três anos de dedicação total à empresa, cumprindo metas e desafios, participando do Planejamento Estratégico e agüentando os olhares desconfiados do restante do pessoal comum que costuma freqüentar o restaurante coletivo, enquanto os Trainees, futuros Managers da empresa, freqüentam o restaurante especial, que é para já irem acostumando-se, e o Rômulo passaria a Anything Pleno. Desta vez, com direito a um pomposo aumento no salário e vaga reservada no estacionamento ao lado dos outros Managers e Directors, além do direito de passar a freqüentar cursos de oratória, aperfeiçoamento do idioma e pós-graduação, tudo pago pela empresa.

Nesse momento, o Rômulo já estaria caminhando, altivo e confiante, para o seu terceiro estágio, aquele que lhe daria o título, nada modesto, de Anything Sênior.Pelas contas do Rômulo, ele já estaria entrando nos anos 90, a tão aguardada última década do século XX e do milênio. Isso após dois ou três anos de infindáveis reuniões que atravessariam noites e mais noites, todas regadas a Coca-Cola e sanduíches de ótima qualidade, além de novos cursos de marketing pessoal, outros mais para aperfeiçoamento da oratória e idiomas. A essa altura, a empresa já estaria pensando em mandar o Rômulo e seus 14 colegas para Estocolmo, onde se localizava a sede da empresa, para passar pelo menos um ano realizando um Programa Especial de Capacitação em Finanças. Na volta ao Brasil...

Na volta ao Brasil, o Rômulo, já promovido a Manager Trainee ou Anything Máster, teria uma sala só pra ele, com secretária e carro da empresa e a certeza de que, se dali em diante ele continuasse dedicado, fiel, cumpridor de seus deveres e, acima de tudo, honesto, além de nunca medir esforços para chegar um pouco mais cedo e sair um pouco mais tarde, mesmo que não tivesse mais nada para fazer, o que dificilmente aconteceria, porque Manager quando não está trabalhando, está treinando o seu pessoal ou pedindo para que eles façam alguma coisa, o Rômulo até poderia chegar a Director of Anything ou, na pior das hipóteses, estaria com a aposentadoria garantida. Ponto final.

Foi aí que, de súbito, o Rômulo teve aquela visão; na verdade, um presságio. Ele viu a empresa, agora transportada para o início do Século XXI, sendo comprada por uma concorrente e os mesmos Trainees, agora todos Managers, reunidos novamente numa sala asséptica, intitulada Centro de Desenvolvimento Humano e alguém do RH iniciando a tão aguardada apresentação do PDV – Plano de Demissão Voluntária.

E isso foi acontecer justamente com o Rômulo, que sempre acreditou em horóscopo e esoterismo. Ele, claro, não teve dúvida: levantou-se e foi direto para o Departamento Pessoal solicitar o seu desligamento. Parece que até hoje ele se arrepende de não ter avisado os outros colegas.

Palavras-chave: | talento | trainee |

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