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10/02/2003
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A inexistência de um modo brasileiro de se administrar

Por Paulo Ribeiro para o RH.com.br

O Brasil é mesmo um país de contradições. E praticamente todos os setores, a terra descoberta por Cabral é um mar de paradoxos. E na administração é assim também. Ao contrário da Europa e Estados Unidos, onde a forma de gestão empresarial é uma verdadeira escola, aqui a inexistência de um modo padrão é o modo padrão. É um conjunto de características que não chegam a formar uma escola de administração, mas que interferem nas técnicas de gestão trazidas do exterior. Tais características influem nos resultados e imprimem uma marca reconhecível nas empresas e nos profissionais brasileiros. Algo confirmado por empresas e empresários estrangeiros.

Um estudo feito em 1989 por pesquisadores da fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, com base em mais de dez anos de atuação em empresas no Brasil, destacou características como: predominância de visão imediatista, carência de planejamento estratégico, decisões centralizadas, políticas de controle rígidas, dificuldade de discussão de conflitos, sistema autoritário e tendência de delegação de problemas para os superiores hierárquicos.

Isto mostra que o administrador brasileiro trabalha sem usar uma forma racional, sem um planejamento estratégico. Mas, ao mesmo tempo, como são formados em ambientes instáveis, os brasileiros são reconhecidos internacionalmente por serem ágeis e aptos para mudanças bruscas.

O que os torna mais pré-dispostos à flexibilidade é o ambiente instável em que são formados. As regras são vistas como mutáveis no Brasil. É a taxa de câmbio, são as leis que "pegam ou não pegam", são as medidas provisórias. Isso obriga os executivos a pensar em cenários, fazer planos de contingência, tornarem-se ágeis.

Na cultura administrativa verde e amarela, o que importa é o fato de que o "jeitinho" faz parte da maneira de como o brasileiro enxerga a si mesmo. No Brasil, o herói corporativo é o apagador de incêndios, "resolvedor" de emergências. O planejador, ao contrário, é tido como enfadonho, burocrático, sonhador, ora da realidade. Porém, é óbvio que é melhor para uma empresa ter menos especialistas em resolver problemas e ter mais profissionais capazes de evitar que eles apareçam.

De acordo com Gabriel Bitran, professor e vice-diretor da escola de negócios do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), é a disciplina que faz a diferença em um ambiente de excelência. Para ele, quando há estabilidade, é preciso ter mais ciência e menos intuição. Quem não tem paciência para garimpar os dados, analisá-los e desenvolver serviços vai ficar para trás.

Bitran vê outro perigo para quem tem a cultura da flexibilidade: a autoconfiança excessiva e uma tendência a interpretar os movimentos de mercado como crises que vão passar.

Nas empresas brasileiras, a idéia de hierarquia é muito forte. Existe aqui a ética da desconfiança e o cidadão é culpado até que se prove o contrário. Isso atravanca a administração, que se volta para o controle. O cartão de ponto vale mais do que o resultado. Provando mais uma vez a contradição que é o "método" brasileiro de administrar, os executivos nacionais estão muito mais atualizados com as mudanças do mundo de negócios do que os europeus, por exemplo.

Outro dado que impressiona os estrangeiros é a internacionalização dos executivos brasileiros, que são em média muito mais bem informados sobre o mundo do que os estrangeiros, e costumam falar duas ou três línguas. Para muitos, o fato de não ter um estilo, ser o estilo é algo até charmoso. Mas, sinceramente, até que ponto isto é positivo? Qual é o limite entre a ousadia e o risco?

Palavras-chave: | executivo |

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