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10/01/2009
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Estamos preparados para avaliar o desempenho das pessoas?

Por Alberto Pirró Ruggiero para o RH.com.br

Primeiramente, desejo a todos um 2009 de muito sucesso e conquistas duradouras!!!

Uma preocupação dos tempos atuais seja nos ambientes corporativo, político ou social é a sustentabilidade. Assim como no caso de outros temas que viraram história, parece que, para muitos, buscar a sustentabilidade é a resposta para todos os males do mundo moderno. Mas, parafraseando Madame Roland, podemos afirmar: "Ó Sustentabilidade! Quantas barbaridades se cometem em teu nome". Dentro do espaço corporativo, há um tema potencialmente gerador de algumas dessas barbaridades: a Avaliação de Desempenho.

Com maior ou menor estruturação, as empresas atuais costumam organizar suas operações com o formato de processos. E as empresas mais conscientes procuram focar seus processos nos requisitos da sustentabilidade. Mas, que é sustentabilidade? Utilizaremos a seguinte definição, contida no Relatório Brundtland, de 1987: Sustentabilidade é "suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas".

Entretanto, embora haja diferentes nuances nas definições de sustentabilidade para cada caso, elas sempre desembocam, ou pelo menos tangenciam, em questões éticas. E é ao evitar ou esquecer de discutir tais questões que as organizações podem cometer algumas barbaridades.

O desempenho das pessoas no ambiente de trabalho pode ser considerado uma das peças fundamentais para a sustentabilidade das empresas. Por isso, é torna-se importante refletir sobre sustentabilidade e ética na etapa mais crítica de um sistema de gestão do desempenho: o processo de Avaliação do Desempenho.

Usaremos três lentes para examinar a questão: Respeito, Lealdade e Transparência. Se olharmos isentamente tal processo, podemos notar que ele tem muitas características de um verdadeiro tribunal de exceção, sem defesa e sem júri. Entretanto ele é fundamental e imprescindível para o sucesso, tanto das organizações como das pessoas que a constituem. Por isso, é importante que seja mantido e valorizado sem jamais perder de vista suas questões éticas que podem impactar a vida de seres humanos. No livro "A 25ª hora", de C. Virgil Gheorghiu (Lisboa: Bertrand, 1973), existe um diálogo (numa discussão sobre o envio de operários escravos para um país europeu) que expressa bem como podemos esquecer do lado humano das pessoas sem sequer nos darmos conta disso:


- Isto é o que há de mais grave - disse o Conde. - Sim, porque isso quer dizer que não tens respeito nenhum pelo ser humano. E tu também és um ser humano. Não tens portanto respeito algum por ti mesmo.
- Eu respeito cada homem segundo o seu valor - disse Luciano. - Não creio que tenhas motivo de queixa contra mim nesse sentido.
- Respeitas o homem como respeitas o teu automóvel, porque representa um certo valor."

E aí vem a primeira questão. Quanto os processos de avaliação - e o uso que se faz dos seus resultados - respeitam as pessoas como seres humanos?

Quem avalia o desempenho de alguém deve entender que seu pronunciamento é uma verdadeira sentença que pode alavancar ou bloquear uma vida profissional e pessoal. Vai decidir, ou pelo menos influenciar, o futuro da pessoa avaliada. Mas, atenção!, não é só o futuro profissional. Trata-se da vida de alguém que tem família, tem amigos, tem sonhos, sendo que o desempenho profissional é apenas um dos componentes do mosaico que é a vida de cada um. Não podemos limitar as pessoas a serem apenas o "capital humano" das empresas. Respeitar o ser humano que está sendo avaliado é a primeira das lentes para olhar esse processo. E pode ser a menos difícil de usar.

A lealdade talvez seja o item mais crítico a ser observado. Lealdade aqui significa usar este instrumento sem finalidades do jogo político ou financeiro. Quem avalia tem condição de fazer uma avaliação isenta de meras opiniões pessoais, potencialmente contaminadas com sentimentos de simpatia ou aversão?

Há uma preparação cuidadosa dos avaliadores para serem juizes do desempenho alheio? E como são preparados os avaliados para fazerem sua auto-avaliação e entenderem o papel do avaliador?

Quem avalia o avaliador? A avaliação é fundamentada em observações criticamente criteriosas, que consideram todas as variáveis que podem impactar o desempenho? E, ainda sob esta lente, o uso que se faz dos resultados da avaliação está focado apenas nos interesses da empresa ou há espaço para valorizar o ser humano e suas aspirações pessoais? (Para estas e outras questões de lealdade, sugiro assistir o filme "A questão humana" - Direção de Nicolas Klotz, 2007).

E, enfim, é preciso reconhecer que as organizações empresariais não devem nem podem ser instituições de benemerência. Elas sobrevivem pelo desempenho das pessoas que a corporificam. E é aí que entra a lente da transparência. O bom desempenho é indispensável para a sustentabilidade das empresas; mas não pode deixar de lado a sustentabilidade da pessoa avaliada. O avaliado deve ter claro o que se espera dele; precisa ser informado claramente sobre como está sendo observado seu desempenho; tem todo o direito de saber os planos reais que a empresa tem para ele: sejam de progresso, correções ou até realinhamentos da carreira e desligamento. Sem eufemismos que lancem verdadeiras cortinas de fumaça sobre questões delicadas. É através do tratamento justo, indispensável para que a transparência exista, que uma pessoa que trabalha numa organização pode ser considerada não apenas pelo seu valor, como um objeto, mas como um ser humano integral.

Claro que estas questões não têm todas as respostas, ainda. O objetivo é provocar a discussão do tema. Não podemos, todos os responsáveis pela gestão de pessoas, ter receio de enfrentar os aspectos mais difíceis do tema. É fazendo perguntas e buscando as respostas para elas que o ser humano evolui.

Um abraço e até a próxima!!!

Fonte: HSM On-Line 10/12/08

Palavras-chave: | avaliação de desempenho |

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COMENTÁRIOS (7)
Anderson Moreira em 21/09/2009:
Gostei muito do modo como você expôs o assunto, principalmente para alertar, nós profissionais de RH, da importânicia de planejar todo o processo de uma avaliação de desempenho e suas consequencias, e agir com responsabilidade, ética é respeito.

edenilson moreira de mello em 08/05/2009:
Seu texto é oportuno nesse momento em que se fala constantemente em desempenho, sustentabilidade e avaliação de desempenho, e como estas enfrentam a crise utilizando processos complexos como estes. Diante dessa realidade, por que não fazer uma abordagem ao assunto de como o homem é visto nos processos de avaliação interna das empresas?! Se como objeto ou seres humanos com individualidade e talentos distintos?! Levantar o tema faz bem para todos que de alguma forma participam da área de recursos humanos, seja aluno, professores ou profissionais de RH. Devemos sempre estarmos antenados com os novos questionamentos sobre o que é certo ou errado e assim fazer uma reciclagem e uma reflexão dos nossos paradigmas.

Roberto Cesar C.R Cavalero em 07/05/2009:
O enriquecimento de conhecimento sobre avaliar o desempenho das pessoas,leva condições favoráveis e sustentáveis à longo prazo nas organizações, Inclusive, a carreira profissional de profissionais, através da realização das suas atividades e responsabilidade no papel que representa no processo de trabalho, as quais poderá fortalecer a empresa nos processos de gestão de pessoas.

Marcelo Aquino da Silva em 07/05/2009:
Parabéns, pelo seu texto muito construtivo! O papel do avaliador deve ser muito sincero na sua avaliação, pois ele será de vital importância para o futuro do profissional. Agindo com ética e total transparência em sua avaliação. Não se deve avaliar levando para o lado pessoal, e sim buscando todo o seu potencial e profissionalismo dentro da empresa. Para que no futuro esse profissional não venha sofrer com os erros do avaliador; erros que deixarão marcas e irão causar uma deficiência no profissional pelo resto de sua carreira.

Sofia Nunes em 07/05/2009:
A matéria reforça a importancia de uma avaliação de desempenho dentro da empresa, pois é apartir dela que os profissionais avaliarão o colaborador, quanto seu perfil ,suas obrigações desempenhadas em fim seu comprometimento organizacional .Que gera sua sustentabilidade dentro da organização.

Francilena Sales em 07/05/2009:
Parabéns, por sua matéria. Eis aqui uma questão de fundamental importância no momento ao qual se decidir avaliar o desempenho do colaborador em um ambiente de trabalho, a segurança e a firmeza de como de realiza este importantíssimo trabalho deve ser primordial, pois é a avaliação de um ser humano, uma vida que não se limita apenas no meio organizacional, é preciso conhecimento e profissionalismo para tornar uma avaliação de desempenho em uma ponte para a busca e realização de novos horizontes.

Maria Carlota Boabaid de Carvalho em 14/04/2009:
Seu texto é brilhante. Traça cada ponto de forma precisa. Os melindres das avaliações de desempenho nas organizações, a ausência de cultura por parte de gestores e líderes que estão no comando, a vaidade e poder que insistem em prevalecer em relação as necessidades do ser humano, na minha opinião, por mais que eu sonhe e procure não desanimar, pois é minha área de atuação, sinto uma inconsistência infinita no entendimento desse processo.

 
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