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19/04/2010
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Por que um talento é reprimido?

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Quantas vezes você já observou pessoas que se destacaram na escola, na fase da adolescência ou mesmo na faculdade, mas que infelizmente na vida profissional não alcançaram sucesso e hoje atuam em uma situação totalmente adversa àquela que você pensava? Isso pode ser reflexo de vários motivos e um deles é justamente porque essa mesma pessoa teve o seu talento podado seja por questões pessoais como timidez ou, então, a empresa aonde ela atua não soube valorizar e estimular um potencial, que poderia contribuir significativamente para o desenvolvimento do negócio. Mas, então, o que pode ser feito para que isso não ocorra: um colaborador com potencialidade diferenciada dos demais, ficar no anonimato?
Para responder essas e outras questões o RH.com.br entrevistou Dalmir Sant'Anna, consultor organizacional especialista na área comportamental e que lida constantemente com situações em que profissionais de valor deixam de contribuir para o crescimento das equipes e das organizações, simplesmente, porque enfrentam barreiras internas e externas que os fazem ficar no anonimato. "Lembre que ao ocultar o talento profissional, você passa internamente a desvalorizar as suas próprias competências", alerta o consultor Dalmir Sant'Anna. Confira a entrevista na íntegra e faça uma avaliação para saber se seu talento é inibido de alguma forma ou os membros da sua equipe estão vulneráveis a situações semelhantes. Boa leitura!

 

RH.com.br - Alguns profissionais que podem agregar valor ao negócio ficam no anonimato e não mostram seu real potencial possuem e fazem a diferença para o negócio. A inibição e a timidez são fatores decisivos para que isso ocorra?
Dalmir Sant'Anna - Sem dúvida que a inibição e a timidez são fatores decisivos para que o anonimato ocorra, entretanto, não há como valorizar o capital humano, sem entender a diversidade existente. Acredito, que o grande inimigo pela atitude de não mostrar o real potencial que faria a diferença para o negócio, passa pelo preconceito, seguido pelo comodismo e depois pelo pessimismo, que juntos, resultam em barreiras. Note que alguns profissionais fantasiam e vivem de expectativas. De maneira contrária, há pessoas que inovam, aprimoram, empreendem e surpreendem, pois entendem que sua geração é diferente, das gerações mais novas, que também são diferentes das gerações mais antigas. Esconder o potencial é como marcar um gol, em um jogo e não comemorar. Lembre que ao ocultar o talento profissional, você passa internamente a desvalorizar as suas próprias competências.


RH - Como é possível quebrar essa barreira de inibição e contar com reais chances de crescimento profissional?
Dalmir Sant'Anna - Desde a infância fazemos escolhas. Quanto mais vivemos, mais nossa vida é moldada por decisões que refletem na capacidade de realização. Para romper essa barreira de inibição, será preciso coragem em acreditar no seu próprio potencial, na sua capacidade de superação, no amor que você demonstra em fazer suas atividades. Quero que você pare alguns instantes e faça algumas reflexões. Você acredita que suas decisões consideram a capacidade de realização? Você confia realmente em você, nos seus colegas, seus filhos e seus amigos? Eles são capazes de realizar determinada tarefa que você delegou? Note que quanto mais se vive, mais as escolhas passam a ser essenciais e, como resultado, mais responsável, comprometido e envolvido você se torna pela direção da sua vida.


RH - Em sua opinião, qual o primeiro passo que uma pessoa deve dar para vencer a barreira criada pelo medo de se mostrar, apresentar suas ideias, seu real valor para no meio organizacional?
Dalmir Sant'Anna - Quando sou convidado para apresentar palestras sobre o tema motivação, além das inúmeras reflexões, gosto de usar uma frase minha que é assim: "O medo de fracassar levou inúmeras pessoas a desistirem da concretização de seus sonhos". Parece incrível, mas há pessoas que por medo, não buscam encontrar felicidade. Por medo, o desejo de fazer algo diferente, passam a ocultar verdadeiros talentos existentes na própria organização. Quero dar um exemplo. Se você colocar seu filho, no alto de uma pedra, ficar embaixo esperando e gritar para ele: "Filho pula, que a mãe, seu pai segura". Seu filho pula ou não? Seguramente sim, pois seu filho acredita em você. Agora, vamos imaginar a mesma cena, entretanto, quem colocou seu filho no alto da pedra é uma pessoa estranha. Seu filho irá pular também? Certamente que não, pois o medo será mais forte do que a confiança. Quero convidar você a imaginar, que na sua frente, há uma balança. Se o medo passar a ser maior do que sua coragem, a balança ficará embaixo. Quando você confia em si, a balança sofre uma mudança significa. Como resultado ocorre à ação de cair o medo e subir os pontos positivos que você possui.


RH - Existem ferramentas específicas para a quebra da inibição e que podem ser usadas a partir da iniciativa do próprio profissional?
Dalmir Sant'Anna - Essa é realmente uma pergunta muito importante, pois quando o profissional, indiferente da sua área de atuação, deseja quebrar a inibição para fazer a diferença, a partir da iniciativa, não pode aceitar uma atitude no estilo "meio termo". No meu livro "Menos pode ser Mais", apresento que não existe "mais ou menos". Não há como atender um cliente, ser um pai ou mãe, ser um líder ou oferecer um atendimento "mais ou menos". Não há como uma mulher estar "mais ou menos" grávida. Quem pertence ao "time do menos" é sempre parte de um problema e frequentemente apresenta uma desculpa, enxerga um problema para cada resposta e diz constantemente "pode ser possível, mas é difícil de ser realizado". Quem pertence ao "time do mais" é sempre parte de uma resposta, frequentemente apresenta um planejamento, enxerga uma resposta para cada problema e diz constantemente "pode ser difícil, mas é possível de ser realizado". Agora quero que você responda: Que time você pertence? Você faz parte do "time do menos" ou do guerreiro e vitorioso "time do mais?".


RH - Além do fator timidez, que outros contribuem para que os talentos fiquem no anonimato?
Dalmir Sant'Anna - Acredito que por traz da máscara do autoritarismo, existam pessoas extremamente inseguras do próprio perfil comportamental, principalmente pela pressão, resiliência, ausência de incompreensão e desequilíbrio emocional. O profissional eficaz que, almeja sair do anonimato, será aquele que possuir altruísmo para permitir que seu próprio crescimento intelectual, profissional e pessoal não gere insatisfação e descontentamento a si próprio. Perceba que, de nada adianta, prevalecer a pseudo-supremacia de julgar ser melhor que os seus colegas de trabalho, se no momento de fazer acontecer, os resultados não aparecem e não acontecem. A timidez não pode revelar que você é uma pessoa sem iniciativa, sem coragem e sem vontade de vencer.


RH - Os modelos mentais que cada indivíduo possui também são responsáveis pela inibição do profissional?
Dalmir Sant'Anna - Como comentei anteriormente, cada pessoa possui características, comportamentos, reações, atitudes e competências diferentes. Dessa maneira, os modelos mentais que cada pessoa possui, também sofrem mudanças, de maneira similar ou contrária. Perceba que há pessoas que no ambiente de trabalho são inseguras em compartilhar os próprios conhecimentos. Você conhece alguma pessoa assim? Há quem não aceita, de maneira alguma, qualquer sugestão de melhoria, ou mesmo, opinião construtiva sobre as atividades que desenvolve. Você conhece pessoas assim? Perceba que as diferenças estão presentes em vários aspectos da vida pessoal e profissional. Dessa maneira, a inibição não pode ser processada como um bloqueio psicológico, mas deve ser administrada, como uma pausa de crescimento, de amadurecimento e principalmente de reflexão.


RH - Quais as consequências que um talento reprimido traz à carreira do profissional?
Dalmir Sant'Anna - Recentemente, voltei de uma palestra em Salvador e fiquei surpreso, com um comissário de bordo, que ao contrário de usar aquelas frases prontas e repetitivas, usou o sistema de comunicação da aeronave para cantar. Isto mesmo, cantar. E o incrível é que os passageiros, apesar do espanto, ao perceber o grau de inovação começaram a bater palmas e, balançar a cabeça no ritmo da canção. Logo que a aeronave realizou o pouso em São Paulo, fui até a cabine para parabenizar o comissário pela atitude de inovação. Perceba que esse é um profissional com competência para exercer a função de comissário, mas também não esconde a alegria de possuir um talento de cantar. Quando você reprime um talento, passa a esconder a emoção de somar a felicidade com o prazer. Pessoas que escondem talentos, são profissionais que durante a aposentadoria, dizem que executaram tarefas por obrigação, mas na prática funcional, não possuíam "brilhos nos olhos", ao detalhar o amor por suas atividades.


RH - A postura das organizações e de alguns gestores, em relação aos colaboradores, pode ser um causa preponderante, para que os talentos resguardem-se?
Dalmir Sant'Anna - Em uma loja, observei a gerente de maneira enérgica, agressiva e grotesca, ao lado de uma funcionária, reclamar de algo que ocorreu. Durante alguns instantes, fiquei parado para observar a cena. Após a gerente sair, constatei que a funcionária ficou triste e abatida com a situação. Demonstrou nitidamente, insatisfação e baixa auto-estima. Com cordialidade, aproximei dessa funcionária e, questionei se a gerente é sempre assim brava e arrogante. Para minha surpresa a resposta foi essa: "O senhor pelo jeito não notou ela brava ainda. Tem dias que ela solta fogo pela boca". Você conhece algum líder assim? Perceba que, por mais talento o funcionário demonstrar, falta no processo de liderança, algo chamado ‘reconhecimento'. A psicologia ensina que quando uma pessoa recebe um elogio, passa a assumir o compromisso de fazer mais e melhor. Quanto tempo faz que, você não realiza um encontro, para valorizar e reconhecer os talentos, méritos e valores da sua equipe? Quanto tempo você não oferece um elogio, um reconhecimento, a uma pessoa? Quanto tempo você não oferece a si mesmo um elogio?


RH - Como o profissional de Recursos Humanos pode e deve estimular a revelação do potencial dos colaboradores?
Dalmir Sant'Anna - Funcionário que não recebe capacitação rema contra a missão da organização. Existem gestores que dizem não treinar seus liderados alegando que, depois de algum tempo, esse funcionário pedirá a demissão e, passará a trabalhar no concorrente. Quando ouço afirmações como essas, imagino como deve ser a valorização do potencial desses colaboradores. Quando sou convidado, para apresentar palestra para profissionais de Recursos Humanos, afirmo que: funcionário que não recebe capacitação, rema contra a missão, a visão e a própria meta. No cotidiano, profissional que não recebe treinamento e não participa de um processo de qualificação, realiza trabalhos insatisfatórios, encontra desculpas e se esconde atrás de culpados. A ação de apreciar a capacidade de realização influencia significativamente nos resultados e, pode criar novos rumos para vencer ou para aprender. Quando um profissional rompe a barreira do comodismo, começa a fazer algo diferente.


RH - Quais ações práticas as empresas podem adotar, para que os talentos humanos mostrem o potencial que possuem?
Dalmir Sant'Anna - Primeiro, acreditar que indivíduos com baixa auto-estima, passam a ser mais vulneráveis às influências externas apresentadas, pela mídia. De maneira negativa, conseguem transmitir aos clientes fatos negativos, deixando de explorar fatores relevantes da sua empresa, dos serviços e dos produtos. Segundo, acreditar que a diversidade está presente no ambiente de trabalho, na família e na rede de relacionamentos. Terceiro, perceber que as pessoas são diferentes e, por esse motivo, nem sempre executam tarefas como você gostaria que fossem realizadas. Quarto, intensificar o exercício de reconhecer profissionais que agregam valor ao negócio da organização. Quinto, jamais desista de oferecer capacitação aos seus colaboradores. Lembre que sua empresa é uma constelação de estrelas. Algumas pessoas brilham muito e outras não com a mesma intensidade. Mesmo assim, essas estrelas que não apresentam brilho intenso, possuem importância e fazem parte do contexto da missão, dos valores e das metas. Para que os talentos humanos mostrem o potencial que possuem, perceba que mesmo não tendo brilho constante, essa estrela tem a sua relevância para a organização.


RH - Quando um gestor, por exemplo, identifica que um profissional tem valores que estão presos. Como o líder pode ajudar o profissional a "soltar" seu talento?
Dalmir Sant'Anna - Gosto de refletir com líderes, gestores e profissionais de recursos humanos, que um dos ingredientes de uma liderança eficaz está em usar de empatia. Você certamente sabe que empatia é se colocar no lugar da outra pessoa, correto? Mas eu pergunto com frequencia. Se empatia é se colocar no lugar de outra pessoa, quantas vezes, você colocou-se no lugar do seu cliente? Deixa-me apresentar um exemplo que aconteceu comigo. Cheguei a um posto de combustível. Ao descer do veículo, observei o frentista com uma aparência triste e com uma fisionomia de desânimo. Em uma rápida abordagem, constatei o total despreparo e a desqualificação dessa pessoa. Quando perguntei, de maneira indignada e provocativa, sobre o preço da gasolina, esse funcionário do posto respondeu: "senhor, aqui é o preço mais caro da cidade". Qual o propósito desse funcionário? A resposta é levar em curto espaço de tempo, a empresa a falência e eliminar com a oportunidade de desenvolver algum talento nessa profissão. Você concorda comigo? Quantas vezes esse empresário, proprietário do posto de combustível usou de empatia para perceber como o cliente é atendido? Você alguma vez, realizou uma reunião com sua equipe, para perceber os valores, as ideias de melhorias e os sonhos que estão adormecidos na mente e no coração, de seus liderados? Para ajudar a "soltar seu talento" será preciso transparência, amor e verdade. Se o colaborador realizar uma sugestão, você rejeitar com aparência de arrogância e insatisfação, diante dos demais colegas, esqueça, pois esse funcionário não irá contribuir com novas sugestões. Uma árvore somente oferece excelentes frutos, após significativo tempo de vida e permanência em um terreno fértil. Se a árvore estiver mal preparada, o primeiro vendaval certamente vai derrubá-la. Entretanto, uma árvore saudável, gera frutos excelentes. Como está a árvore de talentos da sua empresa?

 

Palavras-chave: | Dalmir Sant Anna | talento | potencial |

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COMENTÁRIOS (2)
Marcial Martins Cabral em 19/05/2010:
É triste saber que muitas pessoas estão enterrando seus talentos por falta de incentivo da organização. Acredito que um simples reconhecimento e investimento seria o remédio para muitas delas. Parabéns pela matéria.

Pedro Castro em 23/04/2010:
Embora a tecnologia e os métodos tenham avançado em resultados, nada substitui a capacidade do ser humano de criar, inovar, fazer acontecer. Está aí a importância de estarmos motivados e amar o que estamos executando. Parabéns excelente reportagem

 
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