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27/08/2002
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O que esperar de um curso de Business English?

Por Maria Alice Capocchi Ribeiro para o RH.com.br

Essa pode parecer uma pergunta fácil de responder, à primeira vista. Mas na verdade, temos que considerar o que dois clientes deste serviço - o Ensino/Aprendizagem de um Idioma para Fins Especiais – esperam.

Um desses clientes é o Recursos Humanos de uma empresa, geralmente uma espécie de cliente intermediário do serviço a ser prestado. Intermediário porque é o profissional de RH que, em muitos casos, intermedia a contratação do serviço, os acertos da prestação do serviço (seja o prestador do serviço uma empresa ou professor autônomo) e o pagamento do serviço prestado (em diferentes níveis de subsídio aos funcionários).

Mas será que os RHs estão conscientes do que seus funcionários esperam? A prática mostra que os clientes finais deste serviço, os alunos propriamente ditos, estão mais do que nunca atentos às pequenas nuanças que fazem toda uma diferença. A resposta dada hoje à pergunta acima certamente não é a mesma que teria sido dada há uma década atrás!

Você, profissional de RH, responda primeiro à pergunta e depois confira se sua resposta confirma as expectativas que foram colhidas na pesquisa discutida abaixo. Calma: se sua resposta não ‘bater’ com os dados colhidos, não se desespere, pois você não é o único. Mas talvez agora se torne mais um dos profissionais que estão ficando atentos a certos detalhes que, como mencionado acima, não eram (e em muitos casos, ainda não são!) levados em consideração até pouco tempo atrás.

O Contexto da Pesquisa

Entre agosto e outubro de 2001, entrevistei 72 alunos de um Programa de Business English que conduzimos em diferentes empresas. O Programa em questão foi desenvolvido especificamente para profissionais que trabalham com comércio exterior, pessoas plenamente cientes de que o sucesso de qualquer transação comercial depende de habilidades de negociação, as quais, quando aplicadas utilizando o idioma Inglês, dependem diretamente da competência interativa dos interlocutores nesse idioma.

O Programa de Business English mencionado acima tem por objetivo desenvolver a competência gramatical, discursiva, estratégica e sócio-lingüística dos alunos em situações e eventos da fala que os alunos enfrentarão em sua vida profissional real. Sendo assim, um dos mais importantes componentes desse Programa é a investigação dos atos e eventos da fala no que se refere à gama de variáveis sócio-lingüísticas apropriadas a cada contexto possível.

Propositalmente, entrevistei alunos que não faziam aulas comigo, de modo que eles não experimentassem constrangimento algum e pudessem expressar suas idéias mais abertamente.

Os Resultados da Pesquisa

Para responder à pergunta título deste artigo, cada um dos 72 alunos entrevistados foi instruído para levar em consideração todo e qualquer aspecto lingüístico e sócio-cultural que lhe viesse à mente. Não foram dadas maiores instruções para não influenciar as respostas.

Trinta e oito alunos, aproximadamente 52% dos entrevistados, antes mesmo de responder à pergunta, fizeram questão de esclarecer a importância que o Programa tinha para eles. Business English, na sua visão, é um instrumento que lhes confere um certo poder por desempenhar duas funções sociais:

* A primeira sendo a de reafirmar sua identidade como membros de um grupo especial (executivos) que tem acesso a essa linguagem também especial a qual, por sua vez, está associada às formas mais relevantes de poder econômico e político. Essa visão já foi discutida por Enerre (1994:24) em seu livro Linguagem e Poder;
* A segunda função sendo a de lhes proporcionar ascensão na hierarquia das empresas onde trabalham, trazendo-lhes como recompensa mais respeito e reconhecimento profissional e social.

Uma porcentagem impressionante, 89%, ou seja, 64 alunos esperam que o professor de Business English os auxilie a desenvolver sua competência comunicativa em Business English em três níveis, os quais foram igualmente identificados por Rubin (1983:10-17) ao discutir a relação entre a Sociolingüística e a aprendizagem de um idioma:

* A identificação da relação forma/função apropriada, ou seja, quais as palavras adequadas para expressar tal idéia em tal contexto com tais interlocutores;
* Quais os parâmetros sociais que permeiam os atos de fala, ou o que podemos chamar de “a etiqueta social da linguagem”; e
* A percepção dos valores subjacentes a determinado grupo engajado em um ato de comunicação.

Para atender a essas expectativas, espera-se que um professor de Business English tenha não somente pleno domínio do idioma Inglês, mas também amplos conhecimentos sobre a linguagem característica desse grupo social e seu conteúdo temático. Esse professor deve estar familiarizado com os eventos e situações da fala nos quais esse grupo especial atua. O professor é visto como um modelador da linguagem no que se refere à propriedade e correção da forma de expressão, assim como se espera que ele constantemente chame a atenção de seus alunos em relação a essas duas características.

49% dos entrevistados (35 alunos) consideraram um professor nativo lingüística e sócio-culturalmente melhor equipado para atender às suas expectativas, enquanto que 51% acreditavam que professores não nativos estão igualmente bem equipados lingüística e sócio-culturalmente se moraram por, pelo menos, um ano em um país falante de Inglês (preferencialmente Estados Unidos e Inglaterra) e ainda mantêm contato com falantes nativos do grupo social mencionado acima. Certamente há dez ou mais anos atrás estas porcentagens teriam sido invertidas, sendo a preferência dada a professores nativos.

Outra perspectiva interessante foi levantada por 83% dos entrevistados (60 alunos): a transferência lingüística e transferência de regras sociais da língua materna dos alunos para o Inglês. Neste aspecto, o professor brasileiro identifica mais facilmente essas transferências, e essa capacidade de identificação é vista como sendo muito importante, pois os alunos querem sabem quando estão realizando transferências positivas, quando estão realizando transferências incorretas e porque certas transferências são positivas enquanto que outras levam-nos a incorrer em erros ou inadequações. Alguns tipos de transferência citados pelos alunos relacionam-se à força de determinadas expressões, a ser direto ou não, à clareza e não ambigüidade de formas, adequação de formas educadas e uso de expressões idiossincráticas. Certamente os alunos entrevistados não leram Hatch (1983:i-xvii) ou Blum-Kulka and Olshtain (1984, 1986), autores que já discutiram essa interessante questão da transferência.

Conclusão

Esta pesquisa em pequena escala aponta para uma mudança significativa quanto às expectativas e o perfil dos alunos de Business English. Até alguns anos atrás, mesmo alunos adultos, não tinham consciência da importância de determinados fatores sócio-lingüísticos na aprendizagem de um idioma estrangeiro, como também não se questionava o conhecimento de professores nativos sobre importantes questões da Sociolingüística no que se refere à aprendizagem de idiomas.

Não que esses alunos tenham adotado livros de Sociolingüística como sua leitura de cabeceira. Mas, o desenvolvimento de sua consciência sobre a importância da aprendizagem de quais parâmetros sociais entram em jogo nos atos da fala, pode ser atribuída à crescente necessidade de interação com executivos estrangeiros no cenário econômico internacional e de sua observação de que “algo mais” do que o conhecimento do idioma determina a competência comunicativa de alguém.

Os resultados desta pesquisa apontam para a importância de qualquer programa de idioma estrangeiro incorporar essas características sócio-lingüísticas e o fator transferência, tanto em seu conteúdo programático como na preparação dos professores que conduzirão esses programas, sejam eles professores nativos ou brasileiros.

Igualmente importante é uma metodologia que incorpore a aprendizagem situada e que conduza uma análise de necessidades – Needs Analysis – junto aos participantes do programa. Os alunos devem ser agentes ativos de sua aprendizagem, antes mesmo do início de qualquer programa.

E o RH, por ser também um dos clientes deste serviço, deve ser outro agente igualmente ativo, investigando o que os cursos realmente oferecem: quem são os profissionais que vão ministrar o curso, como foram treinados, como são desenvolvidos, qual o curriculum total do curso, qual o curriculum de cada estágio, e, “last but not least”, se as características sócio-lingüísticas aqui discutidas são efetivamente trabalhadas pelo curso.

Palavras-chave: | Business | English | curso |

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