Por José Vieira Leite para o RH.com.br 
A nós parece que não. A expressão “Universidade Corporativa” contém uma insuperável contradição entre seus termos. Universidade é, por definição, “[Do lat. universitate]. S. f. 1.Universalidade. 2.Instituição de ensino superior que compreende um conjunto de faculdades ou escolas para a especialização profissional e científica e tem por função precípua garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa. 3. ...”.
Enquanto que Corporação significa: “[Do fr. corporation]. S. f. 1.Associação de pessoas do mesmo credo ou profissão, sujeitas às mesmas regras ou estatutos, e com os mesmos deveres ou direitos; corpo. 2. ...”.¹
A contradição, portanto, é evidente: o que é universal – ou seja, que conta com “universalidade”, e tem por função precípua garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento – não pode ser corporativo, isto é, relativo a pessoas do mesmo credo ou profissão. Por que, então, a expressão Universidade Corporativa vem ganhando tanta projeção, no tempo recente, nas organizações? E isto vem, cada vez mais, sendo adotada por empresas privadas e – pasmem! – públicas, de diferentes quadrantes do globo.
Pensamos que, de uma parte, pela circunstância da Administração de Empresas contemporânea produzir, recorrentemente, novas modas, em um processo permanente de mudança da forma, mantida, todavia, praticamente imutável, a essência mesma do conteúdo. Na área da Gestão do Trabalho, por exemplo, o Departamento de Pessoal passou a ser Departamento de Administração de Recursos Humanos, e hoje é Departamento de Gestão de Pessoas.
O Setor de Treinamento tornou-se Setor de Treinamento, Desenvolvimento e Educação (TD&E) e hoje é Universidade Corporativa. Tudo isso sem alterar-se em praticamente nada a teoria e a prática da separação radical entre concepção e execução do trabalho, proposição fundamental da Escola de Administração Científica taylorista. Taylor é o reitor da quase totalidade das Universidades Corporativas (que permanecem oferecendo Treinamento para os geridos e Desenvolvimento para os gerentes, contribuindo, assim, decisivamente, para a manutenção ampliada da clivagem concepção/execução).
De outra parte, como é amplamente conhecido, as corporações são “donas do mundo” na atualidade, dispondo de muito maior poder que os Estados Nacionais, por exemplo². Nesse contexto, as organizações criam instrumentos de produção de conhecimento “customizados” a seus interesses – as Universidades Corporativas –, lançando mão, ainda, dada a força social de que dispõem, do glamour do termo Universidade, de elevada aceitação na sociedade, para conferir status a uma prática que avilta, distorce, nega, enfim, o conteúdo socialmente positivo da idéia de Universidade. No setor público a contradição é ainda mais gritante, pois, em tese, o Estado é de todos e não de uma dada empresa.
Universidade Corporativa? Que nada! Desenvolvimento, amplo geral e irrestrito, para todos os que trabalham, isso sim. Aqui incluída a preocupação com a produção de conhecimento de utilidade não apenas para a corporação que o patrocina, mas também, e, principalmente, para o corpo social que a legitima.
O processo educativo, se levado a efeito pelas corporações, por certo é muito bem-vindo, sobretudo em um quadro de tanta necessidade educacional como o que vivemos hoje no Brasil. Porém, tal processo não deve ter seu foco apenas no aumento da produtividade do colaborador – finalidade primeira de grande parcela das Universidades Corporativas – mas, sim, também no incremento da felicidade nas atividades de quem trabalha, que tudo produz, inclusive o avanço de sua própria produtividade.
¹ Definições extraídas de FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. NOVO DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1975.
2 Ver, a propósito, o filme “The Corporation”, disponível em DVD.
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