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03/05/2010
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Treinamentos de fachada

Ricardo Alexandre de Oliveira Mendonça

Você chega para ministrar uma palestra e o microfone ainda está sendo testado. Os fios das caixas de som são pequenos e alguém pede a você, com cara de "estamos fazendo de tudo", para esperar um pouquinho. Indicam onde fica o café, a água, os banheiros etc. A pessoa que o receberia ainda não chegou e nem liga avisando, assim como os funcionários que estão no local dizem que "ela está chegando, deve ser o trânsito".

Em outro momento você chega ao local com antecedência, como convém ao profissional comprometido, e, nem o próprio local do seu trabalho foi aberto ainda. Você aguarda pacientemente por algum representante da empresa e liga para seu celular para avisar que chegou, mas, lamentavelmente, o celular dele está desligado ou fora de área. Hora de pensar em amenidades e, principalmente, na responsabilidade da empresa e seu comprometimento com a equipe e com o profissional contratado, você.

O mesmo ocorre num treinamento.

O material solicitado veio incompleto, o vídeo e a TV ainda nem foram conectados, muito menos testados. Você fica com cara de "acho que já vi este filme antes", mas como é educado e paciente, aguarda serem ligados e testados. Se não funcionarem tudo bem, afinal o treinamento é seu e não deles, não?

Hora marcada para começar. Você todo preparado e, às vezes, até um pouco nervoso e, das 30 pessoas que fariam o treinamento, só oito chegaram com quinze minutos de atraso dizendo que os outros estão chegando, pois foram acabar um pequeno relatório ou responder a uma ligação importante, dentre outras coisas. Mais uma vez você educadamente sorri e conversa amenidades para passar o tempo. Depois de trinta ou quarenta minutos e, aos poucos, as pessoas começam a chegar. Cumprimentam você discretamente e começam a papear assuntos pessoais, enquanto o organizador do evento, que recebeu você antes e teve que dar uma "saidinha", tenta apresentá-lo para que comece seu trabalho. Alguns minutos depois, já de posse da palavra, todos se distraem com a chegada de outros participantes e com o calor insuportável. Todos, inclusive você, descobrem que o ar-condicionado não está ligado; mais uma interrupção para ligá-lo. Hoje você deu sorte, até que estava funcionando.

Depois de acordar as regras e horários de intervalos e almoço com todos, finalmente, seu treinamento começa! Ao voltar do intervalo, você percebe que metade dos participantes sumiu; nada de grave, estão voltando e só foram fumar um cigarro e falar ao telefone. Particularmente não me incomodo com os fumantes, afinal sou um deles, mas nenhum cigarro do mundo leva vinte minutos para ser fumado. No almoço a situação piora, pois alguns aproveitam para ir ao banco, outros para resolverem pendências pessoais etc. etc. Ao fim do dia, o treinamento pôde ter sido prejudicado em sua eficiência pela bagunça e falta de organização.

Numa dimensão maior temos as empresas que contratam consultores e instrutores para fazer um grande treinamento em suas lojas, filiais, escritórios etc. Pagam-lhes bons hotéis, táxis a qualquer hora do dia ou da noite, refeições em bons restaurantes, passagens aéreas, telefonemas e, naturalmente os honorários pelo trabalho. Tudo funciona bem: todos chegam na hora, equipamentos funcionam, horários de intervalo e almoço são cumpridos etc.

O que falta, então?

Falta o acompanhamento das melhorias que muitas vezes não é feito, falta a própria folha de avaliação de quem ministra o treinamento (como os gestores vão saber se foi bom ou ruim?), falta explicar aos participantes a finalidade e que melhorias se pretendem implantar com o treinamento, falta liderança envolvida com os resultados e cobrança dos mesmos, falta tanta coisa. Participei de um treinamento assim, em 2002, numa grande empresa com sede no Sul do país e tenho colegas que também têm esta experiência. Também tenho este tipo de experiência no Rio, em São Paulo, Brasília e Bahia.

Por que tudo isto acontece e o que fazer? Parece que estão jogando dinheiro fora.

As falhas menores como equipamentos desligados, portas trancadas e atrasos, embora com desconforto para todos, participantes e instrutores, podem ser contornadas com um bom papo com os responsáveis e com um acordo geral e explícito com a turma. Podemos até firmar este acordo numa cartolina assinada por todos e colocada na parede da sala. De qualquer forma mesmo estas pequenas "falhas" denotam uma falta de organização e visão da importância do trabalho que será realizado. Fica evidente que não há um canal de comunicação satisfatório entre gestores e executores dos projetos e nem um acompanhamento satisfatório dos processos. E olha que falam tanto em gestão da qualidade. Existe gestão da qualidade sem gestão presente e medidora dos processos?

Na dimensão maior dos grandes e longos treinamentos, a necessidade de jogar dinheiro fora é muito grande, quase visceral, pelas empresas. Algo parecido como na época do "boom" da re-engenharia e da GQT, quando todos queriam implantar sem nem saber direito o que era, mas como eram empresas de vanguarda tinham que mostrar modernidade em modelos de gestão.

Felizmente temos muitas grandes e pequenas empresas boas e conscientes de seu papel, seu capital financeiro e suas responsabilidades sociais.

Treinamento é a parte 01 da educação empresarial, da criação da cultura e identidades da empresa. A parte 02 é a própria cultura em funcionamento, decorrente da reprodução sistemática e flexível das ferramentas e posturas recebidas no treinamento e, que devem ser constantemente avaliadas, em relação às metas estabelecidas anteriormente. A grande questão é que sem avaliação e cobrança de resultados, todo o treinamento perde-se em pouco tempo e é isso que vemos constantemente por aí. É de se esperar que isto aconteça em empresas com grande rotatividade de funcionários, uma vez que o treinamento dos novos ocupa mais tempo que a possibilidade da implantação de qualquer cultura organizacional que tenha o aspecto humano como diferencial.

As micro e pequenas empresas, por sua vez valorizam, cada centavo investido em treinamentos e cobram, sem piedade, resultados de todos os que participaram dos processos. Muitas continuam com esta tendência mesmo depois de crescerem. Entretanto, outras, perdem a dimensão e controle dos processos, implantam setores de RH desconectados da realidade de seus negócios, contratam gestores de RH que não entendem nada do negócio da empresa como se RH fosse um setor estanque e cuja função é promover "palestras motivacionais" desconectadas da verdadeira falta de motivação dos funcionários e tantas outras bizarrices que vemos por aí.

Há muitos anos passei por algumas seleções de emprego e fui aprovado numa delas para analista de RH de uma multinacional. Teria todos os benefícios etc. etc. Eu sabia o que a empresa fazia, mas em nenhum momento os candidatos foram informados das estratégias de negócio da empresa, suas metas, o que seria exigido de cada um etc. Só foram informados das atividades de treinamentos que teriam que fazer sem nenhuma ponte, nenhuma ligação com os objetivos de marketing e fluxo de caixa da empresa, um comportamento totalmente esquizóide para uma empresa daquele porte e peso no mercado mundial! No dia de assinar o contrato pensei: se entrar aqui nunca mais saio, pois terei uma série de confortos que não conseguirei me livrar nunca na vida e não terei mais tempo para escrever, pesquisar, estudar e dar meus treinamentos "por fora". Tinha uns 30 anos mais ou menos e perguntei aos meus pais o que fazer. Eles me disseram para fazer o que meu coração mandasse.

No mesmo dia peguei o telefone e liguei avisando que por motivos pessoais não aceitaria o cargo. Claro que muita gente me taxou de maluco para cima, "Imagina, recusar um emprego destes", "Ele acha que vai cair dinheiro do céu". Passei um bom tempo com dificuldades financeiras em função desta escolha, mas hoje sou feliz com o que faço e não me arrependo nada. Depois tive contato com dois analistas de RH que foram contratados e quando os sondei como era o trabalho me disseram que só conheciam a parte que lhes cabia sem nenhuma conexão com o resto da empresa e, ainda assim, tinham que viajar constantemente para dar treinamentos motivacionais.

Eu realmente nunca descobri qual a técnica que eles usavam para isso. Não entendo como motivar alguém sem uma bela dose de transparência, ouvidos apurados para ouvir reclamações, inclusive salariais e, principalmente, sem a empresa oferecer de verdade tudo aquilo que ela diz de bonito aos funcionários através dos "treinamentos motivacionais".

Resumo da história:
- Dinheiro é uma dádiva divina e deve ser muito bem utilizada.
- Recursos das empresas devem ser planejados para utilizar com acompanhamento e medição de resultados.
- Muitas empresas, especialmente as grandes, são obrigadas a gastar dinheiro dos vários setores com prazos estabelecidos para poderem receber mais no ano seguinte e, por falta de planejamento, gastam de qualquer maneira, ainda mais no fim do ano.
- Desconexão entre discurso e prática não motiva ninguém.

 

Palavras-chave: | crescimento profissional | aprendizagem |

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COMENTÁRIOS (5)
William Dionysio de Oliveira em 18/08/2010:
É uma realidade em qualquer empresa de grande porte. Os treinamentos são realizados e não há cobrança, apesar dos gastos realizados para que isso ocorra. Nas pequenas o dinheiro é aplicado com a garantia de que aquilo vai gerar retorno em breve. No serviço público isto é pior, a falta de comprometimento é visível. A falta de cobrança é clara e, não somente, dos servidores, mas também dos "gestores". Mas, isso, não é uma regra e nem maioria no setor público, tem gente muito boa querendo aplicar seus conhecimentos, mas esbarram, nos palpiteiros de plantão, os que acham que sabem de tudo, opinam: você tem que mudar seus indicadores, seus conceitos. Você tem que treinar seu pessoal e cobrar mais deles. Legal! Interessante! Você tem que PLANEJAR. ÓTIMO!!!! Aí, vem uma ordem para você fazer um determinado processo de trabalho, que nada tem haver com você e com o tipo de trabalho que faz, nem com o departamento que você dirige, mas é ORDEM SUPERIOR e você tem que acatar. Aí se faz a "PLANEJAÇÃO" - nessas alturas não há PLANEJAMENTO, pois o negócio pra ontem, se vira. Aí aparecem os palpiteiros de plantão, que nada fazem a não ser criticar, sugerir, criar regras, mas ajudar.....: "tô fora!!!!. e, você tem que se virar. Já participei de vários treinamentos motivacionais e, que na realidade, pessoalmente acrescentaram, mas profissionalmente, nada foi aplicado. A teoria, no serviço público, as vezes é uma rodovia distante da prática. Enfim, temos que continuar fazendo. Já há alguma melhora, mas falta iluminar a rodovia para que todos possam SEM MEDO trafegar enxergando e trilhando o caminho com conforto e sabendo aplicar o que está sendo assimilado. O texto do Ricardo Alexandre é ótimo, no primeiro momento parece um desabafo.

Thiago Orlandin em 25/05/2010:
Interessante análise. Apenas acho que criticar é algo relativamente fácil. Enxergar o problema exige competência, e isso você demonstra ter. Mas COMO o problema "miopia gerencial" se esstabelece, é outra história. Esse é o desafio. Essa falta de foco dos gestores é apenas uma consequÊncia de um problema que vem da formação do gestor no Brasil. Agradeço a leitura. Grande abraço! Parabéns!

Edilene costa em 24/05/2010:
Direto e objetivo. A vida de um consultor de treinamento é essa mesma. Pena que as empresas tenham essas "miopia" estigmatizada. Mas graças a talentos como Você Ricardo, o mundo não está perdido!!

Eugênio Ramos em 09/05/2010:
Excelente artigo. É lamentável que o treinamento no Brasil ainda seja encarado como custo, em vez de investimento no capital intelectual. Lamento ainda, que o treinador receba o estereótipo de mágico (ou bombeiro?). Espero que possamos mudar esses conceitos. Abraços, Eugênio Ramos

Simone em 04/05/2010:
Excelente texto! Principalmente, no tocante à falta de organização e nos tais "treinamentos motivacionais". Vejo muito disso po aí! Como se colocar um funcionário na sala de aula simplesmente tivesse o poder de motivá-lo! Parabéns ao autor.

 
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