Por Marcello Nicoleli para o RH.com.br 
Qual é o papel das universidades brasileiras na consolidação do desenvolvimento do país? Faça esta pergunta para empresários e gestores de Recursos Humanos que a esmagadora maioria vai afirmar que elas deveriam atuar em consonância com as necessidades corporativas, sobretudo em relação à qualificação da força de trabalho. Segundo os responsáveis pela administração das companhias, as universidades são afastadas do cotidiano das empresas, e a crítica é pertinente em muitos aspectos, mas não me interessa no momento tocar nesse ponto. Meu desejo é dar uma contribuição para melhorar essa imagem, mas o que vou relatar vai surpreender muita gente que se embriaga com frases do tipo "nossos valores são oferecer oportunidades aos nossos funcionários e colaborar com a qualidade de vida em nossa sociedade".
Sou professor há 15 anos em administração e negócios empresariais, no momento exercendo a docência na Universidade Federal Rural de Pernambuco, prestigiada instituição de ensino na região Nordeste. Além do ensino, tenho por obrigação promover extensão universitária, onde ofereço oportunidades para pessoas que não tenham acesso ao ensino universitário - maioria da população - possam receber conhecimento e amenizar o problemático quadro social brasileiro.
Diante do exposto, venho preparando um projeto, intitulado de Empresa Cidadã, que pode ser resumido da seguinte forma: realização de palestra motivacional nas empresas orientada aos funcionários, explanando sobre comprometimento com os resultados, qualificação profissional, trabalho em equipe, relacionamento interpessoal e familiar, responsabilidade social e qualidade de vida. A palestra é curta, gratuita, e tem como objetivo fazer as pessoas refletirem sobre sua importância no desempenho da empresa e sobre a educação permanente como mola para o desenvolvimento pessoal e social.
Em outras palavras, o projeto procura atender à demanda do mercado de trabalho de melhorar a performance dos profissionais sem onerar os cofres da empresa. O projeto está previsto para ser realizado entre os meses de agosto a dezembro de 2011 e tem como meta chegar a 200 companhias de diversos portes e segmentos da economia, localizadas na Região Metropolitana do Recife.
Com o objetivo de lapidar a palestra e montar um bom banco de dados sobre as potenciais empresas a serem atendidas, desde o início do ano realizo contatos, visitando e agendando palestras em varias organizações. Foi um trabalho que considero importante para adquirir a experiência necessária, para que o projeto possa atingir os objetivos propostos.
Naturalmente, essa fase pré-projeto serviu como um termômetro sobre a percepção e o interesse do empresariado quanto ao trabalho. Foi nesse ponto que fui surpreendido, pois as reações foram inesperadas. Os fatos relatados abaixo aconteceram entre os meses de fevereiro e junho de 2011. Todos os nomes das empresas e de seus gestores foram omitidos, para o bem ou para o mal. Não é de minha personalidade queixar-me das pessoas, até porque ninguém tinha obrigação de aceitar o que um professor universitário propõe-se a fazer, mas senti a necessidade de compartilhar o meu conhecimento adquirido sobre o gestor de RH supostamente moderno e atento às necessidades dos colaboradores.
No ambiente empresarial há dezenas de empresas que fazem palestras ou treinamentos in company, muitas delas estão consolidadas no mercado e cobram caro para realizar o serviço. O que você faria se um professor de uma universidade reconhecida batesse à porta da sua empresa, oferecendo qualificação profissional gratuita aos seus empregados? Se você faz parte do clube que diria "Nossa", que boa notícia, isso não acontece todo dia, vamos agendar agora mesmo, por favor, entre em contato comigo, preciso saber onde você está. Este clube é muito menor do que podíamos supor. Estou chocado em ver que a maioria dos gestores não se importa com isso, mesmo que digam o contrário. A maioria dos empresários manifestou pouco ou nenhum interesse em realizar a palestra em sua empresa, sem anunciar isso de forma direta. As expressões que mais ouvi foram: "Vamos ver uma data mais adequada para fazer a palestra", "Estamos passando por mudanças, mas assim que pudermos entraremos em contato", "Muito interessante, mas preciso falar com meu sócio a respeito". Como você pode observar, são formas polidas de dizer que treinamento desse tipo é descartável na visão do gestor. Minha leitura que faço do que eles dizem é: "sabe aquela história sobre a importância que eu dou aos meus funcionários, é tudo mentira, na verdade eu não tenho qualquer preocupação com eles".
Falei dos polidos, mas os mal-educados também se manifestaram. Lembro de uma vez que eu telefonei para uma gerente de RH de uma importante empresa no ramo que atua e que, pela forma com que fui tratado, parece que se sentiu ofendida por receber minha ligação. Isso sem falar dos que não quiseram atender-me, mandando suas secretárias dizer que estavam ausentes. Eu pensei que, ao oferecer um trabalho GRATUITO (peço permissão ao leitor para usar essa palavra em letras maiúsculas, pois tenho a impressão que os empresários não conseguem entender isso) seria estendido um tapete vermelho, pois um trabalho similar a esse custa caro. Não peço nem ajuda de custo com transporte e assumo todas as despesas com materiais de apoio. Em vão, nada disso sensibilizou os homens e as mulheres de negócios.
Passei por varias situações que não esperava que fosse acontecer como, por exemplo, as vezes que o empresário agenda a palestra e no dia marcado, na hora que chego para realizá-la, diz que aconteceu qualquer coisa e cancela ali mesmo, na minha frente. Ele arranjou mais o que fazer, mas deve entender que eu sou desocupado e posso me dar ao risco de ter o meu tempo desperdiçado. Respeito profissional é algo que ensinamos nas nossas escolas de negócio, mas parece que não passa de retórica na mente dos gestores. Quando eu ofereci a palestra a uma empresária e, no meio da minha explanação, fui interrompido com o argumento de que "O pessoal daqui não liga pra isso, são uns imprestáveis", fiquei imaginando como deve ser a rotina de organizações em que as pessoas são sistematicamente desrespeitadas, sem valor algum no presente e nenhuma perspectiva de futuro.
São muitas as situações de constrangimento que eu venho deparando-me, mas a docência implica na humildade e perseverança em prosseguir com os ideais. Acredito fielmente que a educação é um investimento necessário para nossas empresas ganharem competitividade e vou prosseguir com a minha proposta até o fim. Agradeço aos empresários e aos gestores de RH sensíveis que acolheram e aderiram ao projeto - são eles que me encorajaram a continuar esperançoso em levar adiante a minha proposta, mas me sinto inseguro quanto ao bom desempenho e alcance dos objetivos estabelecidos.
Se o ensaio preliminar confirmar-se nos próximos meses, talvez só consiga atingir 30% da meta prevista no planejamento. Ao encerrar o projeto, no fim do ano, devo escrever um relatório sobre a conclusão dos trabalhos. Na concepção do projeto, eu havia imaginado que escreveria algo que encorajasse a mim mesmo e a outros docentes universitários a elaborar novos projetos e atender muitas outras empresas com propostas semelhantes. Mas, se tivesse que concluir hoje, diria que o mais urgente não é causar mudanças nos empregados das organizações. O desafio atual é buscar soluções que mudem a forma como os empresários e os gestores de RH encaram seus próprios colaboradores.
Palavras-chave: | crescimento profissional | aprendizagem |



