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24/10/2002
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Ampliação das percepções e recuperação do reflexo

Por ABTD para o RH.com.br

Inês Cozzo Olivares - www.abtd.com.br

Sem nenhuma pretensão didática ou terapêutica, o método surgiu há 13 anos, concebido pelo cantor, compositor, escritor e diretor de teatro, Oswaldo Montenegro, que conta como tudo começou: "Eu comecei a dirigir musicais que tinham como intenção apresentar o contador de estórias numa mistura da fábula com o realismo. Então, havia uma intenção, em primeiro lugar estética. Os exercícios que eram usados para a montagem é o que as pessoas têm chamado de método do reflexo. Esses exercícios vieram da necessidade de preparar um elenco, acima de tudo brasileiro, portanto talentoso, criativo, mas sem formação, na sua maioria. Um elenco que não tem no seu colégio uma aula de teatro e não conhece cinema, mas que tem a formação heterogênea do brasileiro e a conseqüente criatividade que isso dá".

Sobre o método propriamente dito e sobre como ele começou a ser praticado, diz: "Eu reparei, quando estudei Stanislaviski (exercícios de atenção), que ele propõe que o ator tenha uma consciência absoluta de tudo que esta à sua volta enquanto atua e faz sempre um jogo de equilíbrio entre a atenção fria, que seria a marca, o local da luz, o texto etc. e a atenção quente que seria a emoção do personagem. Dominar isso faz parte e é o objetivo dos exercícios de Stanislaviski. Eu comecei a trabalhar aumentando o número de atenções e busco, não o domínio consciente daquilo, mas sim o inconsciente. Quer dizer: aumentando o numero de atenções até um ponto muito alto, o ator não teria mais como raciocinar, analisar e tiraria dali o reflexo, permitindo ao inconsciente emergir e dar a resposta. Eu tinha, baseado no livro A arte cavalheiresca do arqueiro Zen, em que o arqueiro acerta no alvo sem mirar, uma vontade de investigar porque se consegue fazer tantas coisas quando não se está tenso. Porque o bailarino, durante o ensaio, é capaz de dar três piruetas e na apresentação só arrisca uma. A partir daí, em 76, nós começamos a tentar o exercício da atenção sem tensão".

"Desde que somos crianças, somos educados ouvindo dos adultos: "Preste atenção!" o que nos deixa tensos. O objetivo era eliminar a tensão e para isso todos os exercícios seriam voltados para o jogo, para a brincadeira. A criança não precisa ser chamada a atenção quando está envolvida num jogo, numa brincadeira, exatamente por causa desse envolvimento, mas principalmente por causa do componente lúdico. A intenção era fazer a pessoa conciliar a parte fria com a quente, isto é, a atenção externa com a interna, sem dor, brincando. Todos os exercícios que surgiram daí, vieram dessa idéia. Do fato de que o Pelé não faria as jogadas fantásticas que faz se parasse para pensar"

Outro componente que viria a ser importante no desenvolvimento dos exercícios e do método de um modo geral, surgiu assim que ele começou a trabalhar com Hugo Rodas, em Brasília, e teve um tipo de treinamento em que deveria preencher espaços. Sobre isso esclarece: "Eu notei que seria interessante que o bailarino, o músico, o ator, antes de aprender a sua marca, aprendesse a ocupar aquele espaço. Nesse caso, ele não teria mais o lugar dele, mas o lugar dele em função do lugar em que um outro estivesse, de modo que ele não mais veria a marca como um objeto tenso a ser cumprido, cumprindo-a com o carisma da naturalidade. Os exercícios buscam sempre que a pessoa concentre-se sem ficar tensa, que tenha seu inconsciente projetado para fora, apresentando as maravilhas que ele mesmo não conhece de si".

"O mais importante nos exercícios é que eles sejam práticos. A pessoa não precisa entender o que está fazendo, aliás é melhor mesmo que ela não entenda. O exercício tem que ser também lúdico. As brincadeiras devem ser visuais, auditivas e táteis a fim de que a pessoa seja estimulada em toda sua extensão do reflexo".

Para melhor esclarecer como são os exercícios de várias atenções, Oswaldo Montenegro nos cita um exemplo:
"Cria-se um jogo em que a luz amarela significa uma determinada atitude, por exemplo sorrir; a luz azul significa andar, a vermelha fazer uma pose engraçada. Então se vai trocando essas luzes, enquanto, ao mesmo tempo, o número 1 significa que se deve dar um grito de gol, o número 2 um salto, o 3 se jogar no chão, e quando ele ouvir um som deverá andar rápido, quando não, andará devagar. Esse número de atenções o fará até rir, porque chega um momento em que será impossível cumprir todas as atenções e o exercício se tornará uma brincadeira, porque uma das premissas básicas, e que é a primeira informação que ele recebe, é que ele não será cobrado pelo erro que cometer. Pelo contrário, nesta fase do treinamento o erro é até bem-vindo, desde que ele responda tão rapidamente quanto possa aos estímulos oferecidos. Independentemente disso tudo, eu acho que a brincadeira sempre foi saudável!".

Marco André Brandão de Magalhães, "Candé", que foi aluno do curso durante 4 anos e hoje é um dos menestréis e um dos orientadores do treinamento, juntamente com Paulo Branco e Deto Montenegro, acredita que o trabalho "é de liberar, através da explosão (como é chamada a resposta imediata que não passa pelo consciente) o medo de errar e a intuição". "Nós não temos o objetivo de mudar as pessoas. Na verdade o objetivo é de levá-las a uma maior aceitação daquilo que elas são em sua essência," acrescenta.

Paulo Branco, bailarino, mímico, produtor de teatro e orientador nesse treinamento, foi quem primeiro ofereceu um contato a profissionais de T&D no I Fórum de Técnicas Alternativas em Recursos Humanos, desenvolvido em outubro pela ABTD-SP e organizou um workshop no Banco Nacional S/A, utilizando o método com o objetivo de preparar os funcionários para assumirem um papel polivalente em suas tarefas diárias. Ele conta que era importante estimular a união entre eles de modo a que não se sentissem usados e percebessem que isso os capacitaria muito mais a nível profissional, além de poder ser encarado como algo divertido. O resultado foi 100% satisfatório.

Paulo também explica que através desse treinamento pode-se obter, muitos outros resultados positivos como o desenvolvimento da segurança pessoal, da confiança e da assertividade. O método se baseia na idéia de que, quando sobrecarregamos a mente consciente de informações e comandos, há um momento em que ela entra em tilt e não pode mais responder aos estímulos. É exatamente aí que o inconsciente emerge e assume, já que a mente não permite a existência de espaços vazios. No momento em que o inconsciente emerge, a pessoa está respondendo com a intuição.

Passamos muitos anos de nossa vida recebendo comandos e estímulos que atrofiam a intuição e o reflexo. São comandos como: Não mexa!, Não faça!, Não vá!, Cuidado: é perigoso! Não se arrisque! Todos esses comandos fazem com que pensemos duas vezes antes de arriscar ou de confiar em nossos instintos.

Daí o curso utilizar a maior parte do treinamento levando o aluno ao erro. "Alguns exercícios não têm outro objetivo que não seja o de fazer o aluno errar", esclarece Paulo. O importante é que esse erro não será censurado, levando à perda do medo de errar e a respostas cada vez mais rápidas e intuitivas.

Paulo usa o exemplo de um bambu envergado para ilustrar essa explicação: "Se eu tenho um bambu que passou muito tempo envergado para a direita e eu o desejo equilibrado, ereto, pouco irá adiantar trazê-lo para o meio. Ele voltará para a direita. Será preciso trazê-lo para o lado totalmente oposto, a fim de que, ao soltá-lo ele se centralize. Assim fazemos com os alunos. Com comandos como: Não pense! Arrisque! Deixe o erro acontecer! Acredite na sua primeira resposta intuitiva! e similares. Fazemos isso até que o aluno pare de racionalizar e vivencie. Quando o resgate da capacidade intuitiva aconteceu, então retomamos a capacidade analítica".

Quem trouxe o método para o público, treinando pessoas de fora do elenco das peças de Oswaldo Montenegro, há aproximadamente seis anos foi Deto Montenegro, irmão de Oswaldo, também ator, diretor e orientador no curso dos menestréis.

Questionado sobre o que é o curso, respondeu que ele busca desenvolver potenciais, principalmente a autenticidade. "Ninguém aqui vai te transformar num extrovertido se você for tímido, mas, com certeza, vai te ajudar a ser um tímido mais legal! O curso é extremamente simples, mas tem o charme de te fazer se sentir muito bem, devolvendo o carisma perdido na tentativa de buscar 100% de acertos e eliminando a tensão que isso cria".

Paulo Branco reforça esse conceito, acrescentando que o treinamento elimina a necessidade de imitar modelos e gera um alivio muito grande ao mostrar que ninguém vai ser melhor você do que você mesmo.

Esse tipo de sentimento, essa percepção de que você tem o seu próprio brilho, é que devolve a confiança e auto-estima de que todos precisamos para produzir bem e com qualidade.

Eduardo Carmello, ator, que levou a prática do método também para seu trabalho como professor de educação física, acrescenta que "Na verdade, o método é mais que uma técnica de recuperação do reflexo. É uma filosofia de vida. As pessoas passam a ter uma nova forma de abordagem de vida após o treinamento. Além disso, a arte também é uma forma de desenvolver o senso de qualidade naquilo que fazemos. Se eu faço com arte, a probabilidade de estar dando o melhor de mim naquilo que faço é muito maior".

Luciana Godoy, formanda em Psicologia, desenvolveu um trabalho de integração de funcionários para a cadeira de Psicologia Organizacional na faculdade. Ela diz que "Até o relacionamento da turma que participou mudou! A sensibilidade das pessoas aflorou, permitindo uma união que antes não existia".

Patrícia Fontes é psicóloga, terapeuta na linha junguiana de abordagem corporal e está no treinamento há mais de um ano. "Eu levei de fato o treinamento para todas as áreas da minha vida. Ele é muito mais do que um simples método. O curso propicia um envolvimento que eu nunca havia conhecido. É uma proposta nova de vida, que fez com que meu desempenho profissional se tornasse mais eficaz .Descobri que não precisava mais representar papéis que aprisionam e tolhem a personalidade e a afetividade. Redescobri o riso como uma forma mais autêntica de me expressar e hoje eu sei o quanto isso é contagiante. Meus pacientes responderam de forma extremamente positiva às minhas mudanças e passaram a ter, eles mesmos, insights mais intensos e qualitativos em função da minha própria sensibilidade aguçada e da coragem que passei a ter de acreditar em minhas respostas intuitivas ao pontuar determinadas questões nas sessões terapêuticas".

Além dos exercícios de varias atenções de Stanislaviski, utiliza-se também exercícios de musicalidade, ritmo, dicção, interpretação, expressão corporal, mímica, e quaisquer outros que resgatem a intuição trazendo de volta o reflexo. Em geral todo exercício de teatro combinado com exercícios de educação física com a conotação de brincadeira, podem se transformar em exercícios adequados para o treinamento, conforme orienta Oswaldo Montenegro que também diz que "Toda a visão oriental de que está no inconsciente o seu maior poder, sem que isso implique em nenhum misticismo, é interessante como literatura de apoio e compreensão do método. Paulo e Eduardo indicam também a literatura de Castañeda, embora creiam que isso é mais pessoal do que técnico.

"É muito bom que o professor leia sobre tudo isso, diz Oswaldo, mas o aluno não. Quanto menos o aluno teorizar melhor!".

Sobre dificuldades ou contra-indicações do método, é Paulo Branco, mais uma vez, que nos responde: "Não vejo dificuldades ou perigos na utilização do método de um modo geral. Entretanto, é muito fácil, e se está mesmo muito próximo de um trabalho de condicionamento do aluno, que não é, de modo algum, o objetivo do treinamento. Por isso, o orientador deve cuidar o tempo todo de estar realmente treinando o reflexo e não provocando uma resposta condicionada para o acerto.

É unanime para todos os que fazem o curso e os que o propiciam que seus maiores benefícios são: o desenvolvimento da percepção, da autenticidade, da assertividade, da confiança, da auto-estima, do carisma pessoal e, principalmente, da integração entre as pessoas.

"Nós estimulamos o trabalho em equipe. Aqui o que brilha não é a estrela. É a constelação", Deto Montenegro.

Palavras-chave: | abtd | jogo |

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