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25/07/2005
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A arteterapia usada pelo RH

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Todos sabem que o dia-a-dia corporativo também significa conviver com ambientes sisudos e cheios de tensão. Quem não gostaria de fugir dessa rotina e se deparar com o lúdico em seu ambiente de trabalho? Através da utilização das linguagens plástica, sonora, corporal, literária, entre outras, a arteterapia tem se tornado uma aliada para profissionais de RH que querem, por exemplo, resolver problemas relacionados a conflitos, ausência de feedback e falta de valorização dos colaboradores. Várias são as definições para a arteterapia, mas muitos especialistas concordam que essa técnica resgata o potencial criativo do homem, buscando o psique saudável e estimulando a autonomia e a transformação interna, para reestruturação do ser. Para que você possa se familiarizar um pouco mais com esse recurso, o RH.com.br entrevistou a arteterapeuta Hilda Oliveira. Ela utiliza essa técnica na Fábrica Carioca de Catalisadores S.A., onde atua como coordenadora de RH. Confira a entrevista na íntegra.

RH.com.br - Qual a origem da arteterapia e quando a mesma passou a ser usada no Brasil?
Hilda Oliveira - De forma objetiva, podemos dizer que Freud já falava que a arte era um produto de uma neurose sublimada. Para Jung, a arte vinculava-se aos postulados de sua psicologia analítica. No livro A Prática Psicanalítica, Jung considera "o valor da utilização de técnicas expressivas como elemento propiciador do resgate do sentido de viver".
No Brasil, a arteterapia destacou-se com o trabalho de Nise da Silveira, que iniciou o uso de técnicas expressivas no tratamento de pacientes psicóticos internados no Hospital do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, fundando, mais tarde, o Museu do Inconsciente. Ao pesquisar sobre as imagens desenvolvidas pelos internos, Nise percebeu que ilustravam a teoria psicanalítica de Jung e decidiu manter contato com o autor, a fim de analisar os materiais elaborados. Jung percebeu que as obras retratadas pelos pacientes de Nise da Silveira remitiam a imagens arquetípicas. Nise utilizava a expressão "Emoção do Lidar" e se preocupava com o termo de "Arte na Modalidade Terapêutica", pois, tanto para ela como para Jung, as expressões plásticas deveriam ser desprovidas de valor artístico para não receber julgamentos referentes a padrões estéticos. Surge, desta forma, a arteterapia.

RH - Quais os principais objetivos da arteterapia?
Hilda Oliveira - Segundo Maria Urritgaray, a finalidade da arteterapia é possibilitar que a "imagem imaginada" seja transportada pela "imagem criada", a partir da utilização de materiais plásticos, que cedem sua flexibilidade e maleabilidade a quem os utiliza para expressar seus conteúdos íntimos. Na minha opinião, tal conceito define muito bem o processo de tornar consciente os sentimentos que impedem o pleno desempenho do indivíduo em sua relação consigo mesmo e com o outro.

RH - Em que situações a arteterapia pode ser usada?
Hilda Oliveira - Pode ser usada em situações onde as pessoas estão com problemas ou desejam se conhecer melhor e entender seus sentimentos, e para aqueles que acreditam que a expressão plástica pode ajudar a exprimir emoções e sentimentos. É muito bom também para a integração de grupo. A arteterapia pode ser usada em atendimentos individuais, grupos, adultos, crianças e adolescentes. Existem trabalhos belíssimos com grupos de terceira idade, pacientes de doenças terminais e pacientes psicóticos, como citei anteriormente. Neste último, e em alguns outros casos, é necessário que o profissional de arteterapia também possua formação em psiquiatria ou psicologia.

RH - De que forma a área de RH pode usar a arteterapia para auxiliar na gestão de pessoas?
Hilda Oliveira - A área de RH pode usar, principalmente, em trabalhos de integração de equipes, para melhorar a comunicação, para trabalhar feedback e para ajudar os indivíduos a trabalharem suas metas de vida, criando uma visão de futuro.

RH - Na prática, como a Arteterapia pode ser aplicada pela área de RH?
Hilda Oliveira - Como exemplo prático, posso apresentar minha experiência com a equipe de Recursos Humanos da Fábrica Carioca de Catalisadores. É importante lembrar que eu trabalho com a metodologia do Espaço Meditando e Criando, de Vera Signorelli Silveira, onde fiz minha formação. Este método que consiste em trabalhar nos quatro componentes da ação: corpo - movimento, sensação - percepção, conduta - exteriorização da sensação através da arte, e pensamento - insight - que viabiliza a ação. Hoje fazemos encontros mensais de quatro horas, mas, no início, estes encontros duravam o dia inteiro. Realizamos trabalhos corporais de relaxamento, de respiração, algumas vezes ao ar livre, usando sempre música, depois a viagem de imaginação, a reprodução plástica da vivência e a leitura individual do trabalho. Essas reproduções podem ser pinturas, desenhos, colagens, modelagens, criações a partir de sucatas, tecidos, entre outros. Ao final, temos o fechamento de tudo que foi realizado.

RH - Quais foram os resultados que a Sra. alcançou com esse trabalho?
Hilda Oliveira - Com o desenrolar destes encontros, a equipe melhorou muito em relação à comunicação, à cooperação, à empatia e à ajuda mútua. Os julgamentos deixaram de existir e o feedback passou a ser mais natural, houve muito amadurecimento individual também. Claro que ainda temos problemas, mas, sem dúvida alguma, muito menores do que podemos observar nas organizações em geral.

RH - Quais as vantagens de ser usar a arteterapia?
Hilda Oliveira - A grande vantagem da arteterapia em organizações é que ela traz o lúdico, o leve e o abstrato para ambientes estritamente racionais, onde a emoção é toda controlada, quando não é abafada, e onde a fala e os gestos são comedidos. Ela ajudar as pessoas a relaxarem, terem um momento para si mesmas, sem cobranças ou julgamentos. Durante as sessões, por exemplo, os indivíduos entram em contato consigo mesmos e com os outros do grupo, com quem convivem, muitas vezes, mais de 8h por dia e há anos e dos quais desconhecem a história de vida. A arteterapia é uma forma de ajudar essas pessoas a "pensar fora da caixa", criar símbolos com materiais diversos, contar a suas visões de futuro, não de forma racional e com palavras, mas com imagens que eles próprios elaboraram.

RH - Essa metodologia oferece alguma desvantagem?
Hilda Oliveira - A "leitura" do material desenvolvido durante as sessões de arteterapia em empresas não é muito aprofundada, até mesmo para preservar um pouco o funcionário. A profundidade é determinada pelo indivíduo, que estabelece o limite.

RH - Quem está apto para aplicar a arteterapia?
Hilda Oliveira - A profissão de arteterapeuta, no Brasil, infelizmente ainda não é regulamentada. Existem diversas pessoas capacitadas dando a formação com critérios diferenciados. A minha formação, por exemplo, foi de 150 horas de aulas teóricas e vivenciais, seguidas de um aprofundamento de 65 horas. Foi realizada no Espaço Meditando e Criando, coordenado pela Vera Signorelli Silveira, no Rio de Janeiro. Depois disso, são necessárias muitas horas de estudos sobre arteterapia e temas complementares como exercício de respiração, exercícios de relaxamento, conhecimentos sobre o que cada material provoca, visualização criativa, Gestalt, estudos das teorias de Jung, entre outras. Existe, ainda, o Congresso de Arteterapia que acontece a cada dois anos e é uma excelente oportunidade de reciclagem. Também é muito importante vivenciar as atividades que serão aplicadas, o arteterapeuta tem de ser exposto à técnica. No Rio de Janeiro, temos algumas faculdades com curso de pós-graduação em arteterapia.

RH - Aplicar a arteterapia numa empresa requer custo elevado?
Hilda Oliveira - Não. É importante ter um espaço que acomode bem as pessoas, onde elas possam se movimentar e se exercitarem sem esbarrar no outro. Quando a empresa possui um espaço próprio como este, o custo é baixíssimo. A idéia não é montar um atelier, mas, sim, uma oficina. Os materiais utilizados, como tintas, pincéis, papéis de diversos tipos e gramatura, lápis de cera, pastel, tesoura, cola, gliter e outros são materiais baratos, adquiridos em papelarias. Revistas velhas, sucatas, restos de tecidos são reaproveitamentos. Sendo assim, os custos mais altos seria do espaço, caso a empresa não tenha um local próprio, e do profissional que irá conduzir os trabalhos.

RH - A arteterapia é uma ferramenta que pode ser utilizada isoladamente ou deve ser usada juntamente com outros recursos?
Hilda Oliveira - Considero difícil usá-la isoladamente. Pode-se usar música, exercício de bioenergética, chi-kun, exercícios de expressão corporal, uma linguagem de PNL, técnicas de "juntar os caquinhos", psicodrama, tudo irá depender do conhecimento que o profissional tenha de outras técnicas.

RH - Quais os conselhos que a Sra. daria para quem nunca utilizou a arteterapia numa empresa, mas que pretende usá-la como ferramenta na gestão de pessoas?
Hilda Oliveira - Em primeiro lugar, conheça a si mesmo, de preferência com o uso da arteterapia. Aprenda a não julgar e a respeitar o outro do jeito que ele é, tenha interesse genuíno pelas pessoas e disponibilidade para elas. Tudo isto, se você tiver feito o curso de formação em arteterapia, é claro.

Palavras-chave: | arteterapia | Hilda Oliveira |

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COMENTÁRIOS (2)
jorge jamilson rego em 03/10/2011:
Ótimo. Mas uma profissão a somar - a saúde mental e outras áreas. Terminei Biologia no ano passado, gostaria de conhecer mais sobre arteterapia e fazer uma pós.

Adriana em 02/05/2010:
Boa tarde! Achei ótima a reportagem. Sou aluna do Curso de Arteterapia e num futuro penso em trabalhar com empresas. Minha contribuição é dizer que o Curso de Arteterapia (Graduação e Pós Graduação), já existe na Universidade Feevale - Novo Hamburgo, RS. Um grande abraço, Adriana

 
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