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20/07/2010
RH » Desenvolvimento » Entrevista Enviar Comentar Compartilhar Imprimir

O panorama da Educação Corporativa no Brasil

Patrícia Bispo

É notório o envolvimento das organizações focadas em ações à Educação Corporativa, afinal é fundamental investir no desenvolvimento dos talentos humanos que agregarão diferenciais significativos para o negócio e, consequentemente, terão uma parcela significativa na permanência das empresas no mercado cada vez mais competitivo. Mas, qual o real panorama Educação Corporativa no Brasil? Quais os parâmetros utilizados pelas companhias ao direcionarem recursos para as Universidades Corporativas, por exemplo?
Essas questões encontram respostas "Pesquisa Nacional - Práticas e Resultados da Educação Corporativa 2009", realizada por pesquisadores ligados ao Programa de Pós-Graduação em Administração da FEA/USP - Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e com registro como grupo de pesquisa no CNPq. Todo esse trabalho foi coordenado pela Profª. Drª Marisa Eboli, que concedeu entrevista ao RH.com.br.
Segundo ela, a pesquisa abordou 16 diferentes temas que constituíram a base para a construção do questionário enviado às organizações, contando com 54 empresas respondentes. "Os últimos dez marcam muito mais a consolidação do conceito e das práticas da Educação Corporativa no Brasil do que mudanças. Nesse processo, observou-se o amadurecimento e a evolução das experiências. O que amadureceu bastante na concepção de Educação Corporativa - ou Universidade Corporativa - foi sua vinculação estratégica", afirma. Na entrevista, você poderá conferir o que a professora Marisa Eboli assinala sobre a participação dos gestores nesse contexto de extrema relevância para o ambiente corporativo. Boa leitura!

RH.com.br - Comemoramos dez anos da Educação Corporativa no país e no final de 2009, a senhora apresentou a "Pesquisa Nacional - Práticas e Resultados da Educação Corporativa 2009". Quais os principais objetivos desse trabalho?
Marisa Eboli -
O saldo do balanço das atividades de Educação Corporativa depois de dez anos inquestionavelmente é muito positivo, mas isso não significa que não haja muito trabalho pela frente para encorpar e consolidar o conhecimento sobre as práticas e resultados da Gestão da Educação Corporativa como uma das ferramentas que contribuem para a efetivação da estratégia organizacional. Essa carência tem sido fortemente indicada nos contatos com os profissionais atuantes na área. Assim, uma pesquisa que abrangesse o tema de forma ampla e profunda, com amplitude nacional, parecia-nos plenamente necessária. Com este propósito, foi realizada a "Pesquisa Nacional - Práticas e Resultados da Educação Corporativa 2009", conduzida pelo Grupo de Estudo em Gestão da Educação Corporativa, uma equipe de pesquisadores ligados ao Programa de Pós-Graduação em Administração da FEA/USP - Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e com registro como grupo de pesquisa no CNPq, sob a minha liderança. Os objetivos principais desta pesquisa foram: apresentar um panorama geral dos vários aspectos relacionados à Educação Corporativa e identificar práticas correntes das organizações no Brasil.

RH -
Qual a metodologia aplicada e o universo pesquisado nessa pesquisa?
Marisa Eboli -
A pesquisa abordou 16 diferentes temas que constituíram a base para a construção do questionário enviado às organizações. Esses temas foram definidos com base na literatura disponível. Para cada tema foram escolhidas as variáveis consideradas mais relevantes para a elaboração da pesquisa, possibilitando uma ampla análise das ações de Educação Corporativa das organizações e contou com o patrocínio de seis organizações entre as quais a Universidade Ambev, Eletrobrás, Grupo Santander Brasil, Itaú Unibanco, Nestlé e Sebrae Nacional, que viabilizou sua realização. Os principais aspectos metodológicos utilizados foram: questionário eletrônico (software select survey); questões fechadas - na maioria - de múltipla escolha ou dicotômicas, abertas, ao final; escalas de discordância (1) < - > concordância (5); pré-teste com duas empresas escolhidas intencionalmente; envio para mais de 800 empresas; período de coleta de dados: dois meses, de 27 de agosto de 2009 a 28 de outubro de 2009; 96 questões; 54 empresas respondentes e análise descritiva dos dados.

RH - Quais os principais resultados revelados pela "Pesquisa Nacional - Práticas e Resultados da Educação Corporativa 2009"?
Marisa Eboli - Os principais resultados da pesquisa, revelados foram:
- O perfil das organizações praticantes da Educação Corporativa é formado por grandes empresas, inseridas em cadeias de produção globais e complexas, envolvendo competências estratégicas que compreendem muitas partes interessadas ao longo dessa cadeia.
- O perfil dos responsáveis pelos Sistemas de Educação Corporativa (SECs) revelou pessoas com bom nível de maturidade e capacidade técnica.
- Em termos de Alinhamento Estratégico e Inserção na cultura, a pesquisa sugere que as ações educacionais são voltadas para o atendimento da estratégia, mas o processo pode estar desvinculado do planejamento estratégico da empresa e que a Educação Corporativa ainda não está inserida plenamente na cultura da empresa.
- Os programas educacionais têm como principal critério as demandas de Unidades Estratégicas de Negócio (UENs) e preenchimento de gaps, sendo que as práticas de Educação a Distância (EaD) ainda têm um grande potencial de crescimento.
- Quanto à Mensuração e Avaliação dos Resultados, pode-se dizer que ainda se encontram em um nível prematuro, possibilitando um grande potencial para uso de metodologias como o Balanced Scorecard para esse fim.
- O Papel dos Líderes nos SECs, de forma geral, parece ainda não ter sido assimilado por estes. Possivelmente comprometendo os resultados e a continuidade das ações de Educação Corporativa. Há necessidade de focar ações na conscientização e participação dos líderes no SEC.
- Com relação à comunicação das ações de Educação Corporativa, ela não é realizada ainda com várias das partes interessadas durante o processo.

RH - Os dados apresentaram surpresas para a senhora?
Marisa Eboli - De modo geral considerei os resultados muito interessantes, mas não diria que apresentaram exatamente surpresas. Acho que o acompanhamento da realidade que vinha fazendo informalmente no contato com as empresas já sinalizava algumas tendências de resultados que a pesquisa confirmou.

RH - Diante desse estudo, que avaliação a senhora faz da evolução da Educação Corporativa no Brasil?
Marisa Eboli - Esses 10 anos marcam muito mais a consolidação do conceito e das práticas da Educação Corporativa no Brasil do que mudanças. Nesse processo, houve amadurecimento e evolução das experiências. O que amadureceu bastante na concepção de Educação Corporativa - ou Universidade Corporativa - foi sua vinculação estratégica. Os programas e as ações educacionais são concebidos e desenhados para atender com sucesso a estratégia de negócio, olhando para o futuro e para fora da organização. Passa a ser central a ideia de competências críticas ou core competence, como capacidades que a empresa tem que possuir para garantir seu sucesso no mercado. Antes, nos centros tradicionais de treinamento e de desenvolvimento das grandes companhias, os programas e as ações eram desenhados a partir de necessidades individuais dos empregados em relação ao que já havia sido estabelecido como habilidades necessárias para determinado cargo. Sem dúvida, todo este movimento reflete a relevância que a Educação Corporativa adquiriu na Gestão Empresarial, sendo desnecessário afirmar que não se trata apenas de mais um modismo na área de Administração, tendo evoluído para uma real consciência da importância da educação como condição para competitividade. Também é inquestionável o amadurecimento do ponto de vista conceitual e de reflexão, e o crescimento de produção própria nacional sobre este tipo de conhecimento. No âmbito do mundo corporativo houve expressiva expansão de experiências, tanto em termos de quantidade como de qualidade.

RH - Essa mudança no cenário corporativo deve-se, principalmente, a quais fatores?
Marisa Eboli - O alinhamento estratégico e cultural é o principal fator que leva uma organização a investir na educação corporativa. Isso tem ocorrido muito nas grandes multinacionais e nas companhias brasileiras internacionalizadas. Cada uma tem a sua estratégia e, dependendo de como estiver fundamentada, pode dirigir seus interesses para a sustentabilidade, a inovação ou outros grandes temas que hoje são tendência na gestão.

RH - Quais os principais desafios que a Educação Corporativa enfrenta no Brasil?
Marisa Eboli - Como desafios para a Educação Corporativa foram apontados os seguintes aspectos: a extensão da Educação Corporativa a todas as partes interessadas; uma maior conscientização das lideranças sobre a importância da Educação Corporativa; a inserção da Educação Corporativa na cultura da empresa; a mensuração dos resultados da Educação Corporativa; e o alcance das estratégias relacionadas ao Desenvolvimento Sustentável por meio das ações de Educação Corporativa.

RH - Qual a contribuição que o profissional de Recursos Humanos dá à Educação Corporativa nas empresas brasileiras?
Marisa Eboli - A orientação estratégica da UC deve ser levada em consideração na hora de definir o staff que dela fará parte. Montar a equipe, identificar os perfis de pessoas necessárias, encontrá-las e desenvolvê-las, torna-se o desafio definitivo. O papel do Gestor da Educação Corporativa ou Chief Learning Officer (CLO) é participar da direção da empresa de forma estratégica, na determinação dos condutores de aprendizado e a sua integração por toda a organização.

RH - Que razão a faz acreditar que gestores tornam-se personagens fundamentais na condução da Educação Corporativa brasileira?
Marisa Eboli - Uma é que cada vez mais os líderes se envolvem no Sistema de Educação Corporativa (SEC), comprometendo-se e participando diretamente do processo de desenvolvimento de suas equipes. Na pesquisa, identificamos que as companhias que mantiveram suas ações de educação corporativa contavam com esse alto comprometimento.

RH - Ao longo dos dez anos da Educação Corporativa no Brasil, o e-learning conquistou o espaço que merece?
Marisa Eboli - Com certeza ainda não. A pesquisa apontou que 70% dos programas das 54 empresas respondentes são presenciais. Esta situação é agravada, se pensarmos que 56% destes sistemas são internacionalizados. Para atender aos princípios de sucesso de um Sistema de Educação Corporativa deve ser contemplada seriamente a utilização de práticas consistentes não só de e-learning, mas de Educação a Distância (EaD) de modo geral. E isto só será possível se o gestor da Educação Corporativa ou Chief Learning Officer e seu staff possuírem as competências requeridas para o exercício completo de suas atribuições e responsabilidades. Em minha opinião, este é um assunto que requer urgência: relacionar sistemas de educação e aprendizagem nas empresas com competentes práticas de EaD.

RH - Quais as tendências para a Educação Corporativa no Brasil?
Marisa Eboli - Como tendências para a Educação Corporativa, foram identificados os seguintes aspectos: o uso contínuo de tecnologia e sistemas de informação; a presença de parcerias com outras empresas, com a formação de universidades corporativas setoriais; a integração entre ações da Educação Corporativa e das demais áreas da empresa; a consolidação das práticas existentes no mercado; e a Educação Corporativa como elemento indutor da sustentabilidade na empresa.

RH - Quais as suas expectativas para os próximos dez anos, quando falamos sobre a Educação Corporativa nacional?
Marisa Eboli - Minha expectativa seria ter a universidade corporativa promovendo internamente a inovação, o empreendedorismo e a sustentabilidade, além de integrá-la com as demais áreas, em especial com a de Gestão de Pessoas. Outra expectativa seria ter um envolvimento cada vez maior dos líderes empresariais com a responsabilidade de formar e desenvolver suas equipes. Para uma gestão adequada de um SEC, tem sido constantemente destacada a importância desta responsabilidade compartilhada: o gestor da Educação Corporativa ou Chief Learning Officer e seu staff e os líderes empresariais atuando de forma integrada.

 

Palavras-chave: | Marisa Eboli | aprendizagem | pesquisa |

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COMENTÁRIOS (1)
Maria do Carmo Lima em 03/08/2010:
Excelente a entrevista.

 
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