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04/05/2009
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Sentimento de solidão do poder

Por Milton de Oliveira para o RH.com.br

Despertei para este assunto quando certa vez o diretor-presidente de uma grande empresa me procurou no hotel onde estava hospedado e me convidou para um jantar. Mas, como não poderia, agradeci o convite. O referido diretor insistiu tanto que fui obrigado, ainda que constrangido, a desmarcar outro compromisso já assumido anteriormente.

Chamou-me a atenção, o fato de um dirigente naquela posição não ter alguém para acompanhá-lo ao jantar. De repente, vi-me diante de um exe¬cutivo alegre, pois acabara de realizar um vantajoso investimento e, ao mesmo tempo, frustrado por não ter com quem comemorar o sucesso no fechamento do negócio. Lembro-me que batemos um longo papo sobre a solidão.

A partir daquela noite, comecei a observar o mesmo fenômeno em presidentes, diretores e superintendentes de outras organizações. Passei a denominar esse fato como síndrome da solidão do poder. Desde então, fiquei sensível ao tema e passei a observar, atentamente, o problema da desumanização do poder.

Percebo que os profissionais no poder tendem a se isolar, pouco a pouco, perdendo o contato mais íntimo com as pessoas de sua lida diária. Esse isolamento, como os processos descritos acima, leva-as a sentimentos de solidão. Tenho discutido esse assunto com vários dirigentes empresariais e muitos se queixam desta dificuldade. Eles reclamam da falta de um diálogo mais pessoal em momentos de tensão e sentem um desgaste maior por esta falta de apoio afetivo-emocional.

De modo geral, a dinâmica das orga¬nizações vai, gradualmente, causando este sentimento nos dirigentes, que começam a se isolar: almoçar sozinhos; conversar pouco com as pessoas; e ter sempre um lugar separado dos demais membros da organização; entre outros.

As pessoas passam a ter um relacio¬namento cada vez mais formal com estes executivos. Passam a dizer apenas aquilo que eles querem ouvir, não falam de seus sentimen¬tos pessoais, fazem elogios aos diretores e evitam fazer críticas ou sugestões que possam pro¬vocar reações negativas. Muitas pessoas evitam, fora da rotina diária, aproximar-se deles, pois temem serem vistas como bajuladoras e pro¬curam não ter qualquer aproximação que não tenha restrita relação com o trabalho.

Conversando com dirigentes, constatei que uma série de problemas humanos não encontra espaço para ser comentada no dia-a-dia: dificuldades nas relações conjugais e familiares, afetivas e sexuais. Disfunções emocionais, como medos, angústias e dificuldades na definição de projetos existenciais são assuntos que encontram pouca ressonância entre os pares nas relações de poder. Quando esses assuntos são tratados, os interlocutores procuram não emitir opiniões e pouco ou nenhum feedback é dado aos executivos. Parece que as pessoas em posições hierárquicas mais elevadas não têm o direito de ter problemas.

Muitas vezes, convido ou sou convidado por diretores para almoço de negócios e a conversa se transforma em confidências, desabafos e em troca de opiniões sobre esses assuntos reprimidos. Nesses momentos, sempre tenho surpresas bastante agradáveis: descubro artistas com as mais variadas vocações; avós carinhosos; jardineiros; mestres-cucas; pessoas habilidosas em trabalhos manuais; enfim, indicadores de uma série de sensibilidades desconhecidas. No entanto, essas pessoas são tidas, no cotidiano, como frias, tiranas, distantes, "estopins curtos", entre outros.

Estou convicto de que grandes dirigentes são pessoas sensíveis e versáteis, mas que, muitas vezes, são vistos apenas pelo ângulo profissional e, com o tempo, perdem a sensibilidade no relacionamento e se distanciam no trato diário com seus subordinados.

São necessários muitos aborrecimentos, acidentes de trânsito ou uma doença grave para se conscientizarem da importância das pessoas em nosso dia-a-dia. Em várias oportunidades, constatei o quanto uma tragédia é necessária para terem a noção da pouca atenção dedicada às pessoas que cercam alguns executivos. Em certa ocasião, vi um dirigente emocionado falar com seu sócio do assunto mencionado: "Compadre, vamos precisar de uma doença para nos lembrar o quanto fomos e ainda somos amigos?".

Sempre sugiro aos órgãos de RH criarem instantes que permitam encontros informais dos diretores com suas equipes, procurando superar essas dificuldades inerentes ao exercício do poder. Gosto de falar que chefe também é gente e também precisa de instantes de intimidade.

Palavras-chave: | humanização | relacionamento |

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COMENTÁRIOS (4)
RUBEM em 11/05/2009:
Caro Milton, parabéns pelo artigo. Muito bom mesmo e bem típico dos dias atuais. Ao meu ver, esse isolamento que o Sr. comenta no artigo, é criado pelo próprio Administrador, ou pelo executivo da empresa. E as causas podem ser as mais diversas: falta de tempo, medo de dar abertura aos seus subordinados, postura de mandão, etc. Tenho dito em algumas oportunidades, que muitos executivos temem elogiar seus funcionários porque pensam que depois de elogiar alguém vai lhe pedir aumento de salário, um cargo melhor. Então acabam se isolando e isolado ficará, pois se ele não se aproximar dos funcionários, estes certamente não chegarão perto. E dá no que dá. Um sentimento de solidão, frustração e quando não uma depressão que está cada vez mais presente nas pessoas do mundo moderno. Tenho a convicção que o elemento chave para a aproximação entre empresa (diretores/executivos) é, sem dúvida, o Recursos Humanos. O profissional de RH precisa estar atento a isso e mais, precisa estar de braços dados com as duas partes. Precisa fazer esta ponte, pois afinal de contas, o interesse final é o mesmo: que a empresa consiga os melhores resultados e todos possam ser felizes no trabalho, e a empresa sempre eficiente para ocupar lugar no mercado tão competitivo e globalizado.

Jair de Oliveira em 08/05/2009:
Quando Deus fez o homem ele deve ter errado na dose. Pôs muita emoção na composição quimica do ser. Os executivos, por terem sucesso material, não sabem lidar com esse componente quimico chamado emoção e, decorrente, criam inúmeras barreiras para não expressar as suas emoções e nem lidar com as dos outros e a consequência é essa: sentimento de solidão. Quando é que as pessoas vão entender que da cabeça para cima somos diferentes, mas que da cabela para baixo somos iguais? e que compete aos mais evoluídos auxiliarem os menos evoluídos na caminhada da Senda da Luz. Enquanto não se compreender isso, haverá o sofrimento desnecessário e inútil para a evolução da espécie. Gostei muito do artigo e parabenizo seu autor pelo grande trabalho que presta a esses seres tão frágeis.

VALDERICE CASSIMIRO SANTANA em 07/05/2009:
Esse artigo chamou muito a minha atenção, pois infelizmente a visão de algumas pessoas é de que o executivo é alguém muito superior que ganha muito bem, a ponto de não precisar de ninguém. O executivo por sua vez tem que fazer a sua parte, não sendo tão formal, ouvindo para ser ouvido, conversando quando necessário. Tudo é forma de um bom relacionamento, tanto na empresa como na vida pessoal. O sucesso é mais quando ele é compartilhado. A vida é melhor quando temos com quem compartilhar.

Bia Melo em 06/05/2009:
Achei este artigo interessante. Por trabalhar com RH, muitas vezes me senti na solidão, mas com o tempo descobri que quem contribuiu para que eu estivesse na solidão, foi eu mesma, por não ter tido uma postura aproximativa das pessoas com quem trabalhava, muitas vezes sendo formal, não me importando com aqueles estavam próximos. O ser humano só pode dar aquilo que tem, como vai dar o que não tem e o que não experimentou? essa é uma realidade, o que se encontra em nossa alma e em nosso coração é o que irá refletir em nossas atitudes. Muitas vezes identificamos as consequências, uma pessoa fria, distante, com medos, angústias, um estopim a explodir! Mas se descobrir-mos a causa, haverá uma mudança tão grande, que as consequências deixarão de existir e passaremos a viver melhor e mais leves. Um grande abraço!

 
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