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08/06/2010
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Feedback - Tome cuidado com seu Narcisismo!

Por Rodrigo Ramos para o RH.com.br

Todos são narcisistas! Este é um fato que não podemos ignorar na vida. Desde o momento em que nascemos somos influenciados e estimulados a constituir uma identidade, um recorte de realidade para sobrevivermos na vida. A este recorte de realidade nomeamos de narcisismo, que significa tudo aquilo que nós identificamos de forma consciente ou inconsciente, que contribui para a constituição da nossa ilusória "completude". Assim como no mito de Narciso, em que um belo jovem afoga-se no rio ao se encantar com a própria imagem, as pessoas encantam-se com suas imagens, com seus valores e seus comportamentos. O ser humano ama muito o padrão que construiu para si, mesmo que este tenha coisas boas e ruins.

Por exemplo, existem pessoas que se queixam muito da vida. Por quê? Porque a vida é ruim? Não! Porque elas enxergam a realidade dessa forma e se satisfazem com isso. E muitas vezes, essas mesmas pessoas, já receberam vários conselhos, passaram por diversas terapias, perderam vários amigos e amores devido às suas chatices, mas continuam do mesmo jeito: agindo e se satisfazendo de forma destruidora para si e para os outros.

Dentro do meio corporativo, ou em qualquer outro lugar, pessoas que não reinventam seu estilo no contexto onde trabalham, sofrem muito, pois para se reinventar é preciso flexibilidade. Porém, para adquirir flexibilidade é preciso desestruturar o seu narcisismo e isso é difícil, pois significa que devemos reduzir ou até eliminar crenças que cultivamos com satisfação, mesmo que nos prejudiquem. É parecido com a história da mulher que apanha do marido só que não larga deste para não se deparar com as mãos vazias. É preferível ficar com a mão cheia de porcaria, do que ficar com nada. Ter nada é pior porque causa dor e, às vezes, angustia.

Para um profissional do século XXI, é preciso reinventar-se sempre, só que para isso acontecer é preciso refletir sobre diversos pontos importantes que se relacionam com as palavras narcisismo, feedback e agressividade. É preciso murchar a "completude" ilusória do narcisismo, estar aberto aos feedbacks e administrar sua agressividade.

Como disse no início deste artigo, o narcisismo pertence à raça humana, pois corresponde à criação de uma "imagem de completude" construída pelo sujeito para sobreviver. Dentre muitas características, essa "imagem de completude" é constituída também de "crenças supostamente verdadeiras" sobre como o sujeito deve levar a vida. Ou seja, a forma como constituímos nosso narcisismo contribuirá para as nossas escolhas de vida, julgamentos, pensamentos, emoções, comportamentos e atitudes. Cada um constrói sua verdade a partir do seu recorte de realidade. Por exemplo, para dois irmãos gêmeos, se o dia amanhecer nebuloso, um deles dirá que o dia está fantástico e o outro que o dia está uma desgraça. Ou seja, cada um vai interpretar o estímulo externo conforme o seu recorte de realidade, o seu narcisismo.

Na sociedade, podemos dizer que existem dois tipos de lugares: aqueles que toleram muito o nosso narcisismo e aqueles que toleram pouco. Quando estamos com amigos ou com a família, principalmente ao lado daqueles que temem a quebra da "harmonia", na maioria das vezes existe uma tolerância maior do narcisismo, causando satisfação, conforto e comodismo para os seus integrantes - "Ele tem esse jeito arrogante, mas gostamos muito dele." Ou melhor: - "Ela sempre explode quando lhe apontamos falhas. Mas não tem problema, porque gostamos do seu jeitinho".

Já, dentro de uma empresa, a tolerância diminui. Ou seja, a pessoa que tem o jeitinho arrogante ou que costuma explodir quando lhe apontam qualquer tipo de falha, não permanecerá muito tempo na organização se não for flexível e se não desestruturar seu narcisismo.

É claro que hoje em dia as corporações de sucesso entenderam que é preciso aceitar as singularidades dos colaboradores, porém, existe uma série de regras que são fundamentais para a convivência grupal de uma empresa. É o princípio da troca: você precisa desfazer-se de algumas crenças narcisistas para lidar com a empresa, assim como esta precisa aceitar a sua singularidade para que você fique motivado e entregue resultados. É o que Simon Dolan chama de Gestão por Valores: saber conciliar os valores dos colaboradores com os valores da empresa.

Sendo assim, gostaríamos de destacar que uma das principais ferramentas que as empresas utilizam para alinhar seus colaboradores ao contexto empresarial é a ferramenta do feedback. Porém, para utilizá-la, é importante refletirmos sobre alguns pontos fundamentais.

1º - Flexibilidade para ESCUTAR-SE

Ninguém gosta de ouvir que a sua forma de agir no mundo está errada, mesmo que seja um detalhe! Isso agride o nosso "monstrinho narcisista" que mora na nossa mente e que vive dizendo que somos "perfeitos", apesar de sabermos que isso é uma grande ilusão. O feedback agride principalmente as pessoas que não conseguem trabalhar suas emoções, devido à inflexibilidade para desconstruírem seu narcisismo. Para estes profissionais muito "inflados", seu esquema de crenças costuma funcionar da seguinte maneira: se o outro é complacente diante das minhas falhas, é porque gosta de mim e me reconhece como espelho; se é contra, é porque não gosta de mim e está querendo quebrar meu espelho. "Espelho, espelho meu, será que existe alguém que tem coragem de ir contra MIM?" Apesar da maturidade aparente, espelhada no semblante, existem muitos profissionais infantilizados emocionalmente, ao ponto de acharem que quando recebem um feedback do seu Líder, é porque está pegando no pé.
Sendo amigo ou inimigo, nunca deixe de questionar sobre o que dizem de você. Isso pode ser um sinal importante para sua consciência. Lembre-se: se estão falando de você, não há escapatória, existe uma cota de responsabilidade sua nisso. É muito interessante se escutar, escutando o outro.


2º - Cuidado com as monstruosas defesas do "EU COMPLETO"

Você já conseguiu escutar uma crítica sem pronunciar qualquer palavra? Qual foi a última vez que você escutou um conselho e se manteve calado? Você se incomodou para mudar ou simplesmente escutou e, logo em seguida, fez um discurso justificando o seu comportamento?
Todos nós precisamos tomar muito cuidado com as nossas justificativas e negações que construímos quando escutamos um feedback, pois elas funcionam como defesas que querem encobrir a nossa ilusão de perfeição.
Quando alguma pessoa lhe aponta um erro, isso abre uma brecha, uma ferida, uma frustração, uma agressão, que te deixa bravo, porém, se você se incomodar e refletir, isso poderá produzir transformação. Não existe outra forma de mudar a não ser pela dor de se libertar de identificações narcisistas que permanecem na nossa personalidade. Por exemplo, a pessoa que se queixa da vida identifica-se com esse jeito de existir e só irá descolar-se da sua "gosma" quando encarar a dor da perda, para ganhar o prazer da surpresa de uma nova maneira de se relacionar com o outro: sem queixas e com mais gratidão.
Tome cuidado com seu espelho! Ele pode fazer com que você se apaixone demais pelos seus defeitos.


3º - Dica para quem fornece o FEEDBACK

O feedback é um recurso muito importante, no entanto, só funcionará se ocorrer dois fenômenos: quando a pessoa que estiver recebendo for flexível, como dissemos anteriormente, e/ou quando a pessoa que estiver dando o feedback for vista pela outra que está recebendo, com o mínimo de respeito e admiração. Ou seja, para que o feedback tenha sua eficácia e atinja seu resultado, é preciso existir transferência.

A transferência é um conceito criado pelo Pai da Psicanálise, Sigmund Freud, para destacar que para um tratamento terapêutico obter êxito, é preciso que a pessoa que pede ajuda enxergue no outro (que pode ser representado pelo pai, mãe, médico, psicólogo, diretor, gerente, líder religioso, colega de trabalho etc.), de forma consciente ou inconsciente, o salvador para a sua cura. Seguindo a mesma linha de pensamento, para que o feedback funcione com efetividade, é importante que aquele(a) que o entrega represente, o que Lacan denomina, um mestre. A pessoa não precisa ser um mestre, ou muito menos, acreditar que seja um mestre, mas é importante que represente para aquele que recebe o feedback, um mestre, mesmo que seja momentaneamente.

Para clarear o entendimento, qualquer pessoa, não importa o cargo, pode ter essa função do mestre em determinados momentos dentro da organização. Para isso acontecer, basta que a pessoa que receberá o feedback esteja aberta e que a pessoa que entregará o feedback tenha percepção de que sua intervenção, no momento específico, terá efeito construtivo para o outro. Por exemplo, existem muitos Gerentes que acreditam que podem dar feedbacks à vontade, mas não percebem que quando não existe transferência, quando o subordinado não enxerga nele um mestre, a intenção "positiva" acaba transformando-se em um insulto, humilhação, ou principalmente, não é levada a sério. Na linha contrária, existem grandes exemplos de feedbacks que foram extremamente bem-sucedidos entre colegas próximos.

Para concluir, sem ter a intenção de fechar as reflexões sobre narcisismo e feedback, entendendo que a complexidade do relacionamento humano vai muito além do que imaginamos, ainda temos muito percurso pela frente. É preciso sempre um esforço de reflexão para trazermos à consciência formas diferenciadas de melhorar a qualidade de vida organizacional.

É muito importante persistir no constante aprendizado que a vida nos atribui cada dia. Precisamos acreditar que é possível lapidar o carvão com o intuito de transformá-lo no precioso diamante. Assim como comentou o grande poeta Sá Muray:
"Descobri que não preciso liquidar os meus defeitos que persistem dentro do meu ser. Apenas preciso lapidá-los. Por este motivo, depois que me libertei de alguns nós, descobri que muitos deles se tornaram minhas qualidades".

Que venham as interpretações!

 

 

Palavras-chave: | feedback | equipe |

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COMENTÁRIOS (10)
andreia machado silva em 23/06/2010:
Rodrigo, amei seu artigo. Isso me ajudou a entender sobre o ego humano que tem levado muitos indivíduo ao egocentrismo muitas vezes nos tornando seres indomavéis ,tão superiores mais cheio de imperfeiçõe, e quando isso vem á tona a frustações passa ser frequente em nossas vidas . É preciso sermos seres flexivéis e estar aberto a criticas e nos destituir do nosso eu se quisermos uma transfomação interior. Consequentemente, uma revolução em nossas vidas que atingirá a todos em nossa volta. Obrigado pelo belíssimo texto.

Carolina Manciola em 15/06/2010:
Excelente mesmo Ro. Sem dúvida o seu artigo reflete o que pessoas de sucesso constumam fazer: se reinventar a cada dia. E para isso é preciso muita flexibilidade. Na andragogia, costumamos falar que para incluir mais alguma coisas no nossos "tão cheio copo" é preciso esvaziá-lo um pouco. E isso não fácil. Sempre que olho pra trás me assusto com a pessoa que eu era. Não por ser tão pouco, mas pelo rápido processo evolutivo que tenho me permitido passar. Espero que você também esteja usufruindo de suas próprias palavras (e pelo que venho acompanhando é isso mesmo que você tem feito). "Como diria o Cortella: Gente não nasce pronta e vai se gastando, gente nasce não pronta e vai se fazendo". Para isso nosso lado narcisista tem que ser tão narcisita a ponto de buscar incessantemente pela perfeição mesmo que ela seja uma utopia. Vamos em frente e conte comigo! bj

Priscilla Nannini em 14/06/2010:
Rodrigo, gostei demais do seu artigo. Muito pertinente o assunto... As pessoas precisam se libertar do seu espelho próprio e se descobrir mais! Abrçs

Edilson Silva em 14/06/2010:
O que está faltando nas pessoas no momento é humildade. Se você é uma pessoa humilde, com certeza saberá receber críticas ou elogios e sobressair em qualquer situação. Não deixa que o seu narcisismo tome conta de suas emoções e age sempre pela razão.

Ricardo Nappini em 14/06/2010:
Mais um excelente artigo do grande consultor Rodrigo Ramos.

Paula em 14/06/2010:
Rodrigo, estou orgulhosa de você!! Trabalho com grandes equipes há 12 anos, há 6 anos lidero equipes de 40 a 60 essoas (hoje na minha turma tenho 53) e realmente existe certa resistência por parte de alguns de aceitar os feedbacks negativos, que nem sempre são interpretados como sugestão de melhoria. Eu mesma tive que "apanhar" bastante até acertar o caminho da aceitação da opinião do outro (mesmo que esta seja equivocada!). Realmente liderar pessoas exige muito tato, e o seu artigo já está no mural da minha equipe! Parabéns! Um abraço, Paulinha.

André Santana em 14/06/2010:
O feedback é uma excelente ferramenta de avaliação. Devemos lembar que o feedback ao mesmo tempo que pode ser uma crítica construtiva ao seu desempenho, pode também ser um elogio as suas atividades executadas. E para alguns o "mostrinho narcisista" é perigoso até no elogio. Os "super egos" ridicularizam alguns líderes em seus feedbacks positivos com o "Falou o que eu já sabia". Pessoas com estas atitudes no momento em que forem líderes, terão bastante dificuldade de avaliar sua equipe, pois terão extrema facilidade de criticar e imensa dificuldade de elogiar. Onde um bom feedback tem que existir a crítica construtiva e o reconhecimento da atividade bem executada.

Ju Marinello em 13/06/2010:
Parafraseado com Caetano e a sagacidade sempre presente de Rodrigo Ramos, o artigo é desafiador. Serve como binóculo e microscópio... paisagens e espelhos. A todo o instante me deparo com textos que não passam de três tapinhas nas costas, aqueles que não impulsionam o indivíduo à nada, mas que servem de "muleta" para quem esquece que tem pernas. Parabéns, meu amigo! Como dizia o Superman: "Para o alto e avante!" Beijos! Juliana

Cremilda Lima da Silva em 10/06/2010:
Parabéns pela excelente matéria feedback - cuidado com seu narcisismo, pois as pessoas que não aceitam feedback e não estão dispostas a mudanças de atitudes ou comportamentos, terão mais dificuldades nos relacionamentos, principalmente, no âmbito profissional. E quanto a quem dar o feedback, é importante ser discreto, sincero, primeiro elogiar para depois criticar, demonstrando carinho e interesse pelo outro, em seu desenvolvimento e crescimento tanto pessoal quanto profissional.

Bianca Gonçalves dos Santos em 09/06/2010:
O texto é muito interessante, permite a reflexão em questões dentro da organização. Trabalho na área de treinamento, é comum escutar no incio do treinamento: - não sei, por que treinamento? Eu sei de tudo. - treinamento para que, sou o melhor no que faço! Devido a completude do ser humano, como foi citado. Percebi como o treinamento, desenvolvimento e a capacitação dos participantes,trabalha com essa questão do narcisismo, que até o prensente momento não tinha associado ao EU PERFEITO. O texto permitiu a interpretação de como aplicar um feedback, como receber um fedback, como não realizar o feedback e como desenvolver um treinamento sobre feedback. Muito Obrigada!

 
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