
"O profissional de RH tem experienciado um alto nível de adversidades, pela função e pelos desafios de gerenciar novas e diversas exigência por parte dos stakeholders envolvidos: ser estratégico e promover resultados, prestar excelência em serviços de RH, ser consultivo e pró-ativo, ter foco no negócio e no cliente, atrair e capacitar funcionários para serem altamente competentes. Percebo que uma das maiores adversidades que o profissional de RH tem hoje é a de demonstrar e fazer acreditar à diretoria e gerentes da importância do papel de RH como função estratégica, influenciando o desempenho da empresa e contribuindo para a excelência organizacional". Esse comentário é feito pelo consultor Eduardo Carmello, autor do livro "Supere: a arte de liderar com as adversidades", Editora Gente. Em entrevista ao RH.COM.BR, ele fala sobre os benefícios, as desvantagens da adversidade e como o profissional de RH deve conviver com um ambiente repleto de constantes trnsformações e desafios. Confira!
RH.COM.BR - A adversidade é um tema que tem despertado o interesse de várias empresas, inclusive no Brasil. Na sua opinião, por que esse assunto tem conquistado espaço no mundo corporativo?
Eduardo Carmello - A adversidade chama a atenção no mundo corporativo fundamentalmente pela sua insistente e constante presença nos processos de transformação organizacional, observada nas fusões e aquisições, redirecionamentos estratégicos, inércia cultural, mudança brusca de paradigmas e, principalmente, na dificuldade das pessoas em se adaptar, flexibilizar e aprender rapidamente novos conhecimentos, habilidades e atitudes capazes de agregar valor e criar vantagem competitiva ao negócio. Adversidade é a força oposta, a energia contrária capaz de abalar nossos interesses e objetivos. Na maioria das vezes decidimos classificá-la como desfavorável, hostil, imprópria. Para o mundo corporativo, a adversidade é o produto da dificuldade de se gerenciar todas as exigências externas e internas da empresa ou do indivíduo para corresponder às necessidades de desempenho e satisfação de todos os stakeholders envolvidos.
RH - O Sr. mencionou que a adversidade é um produto da dificuldade de se gerenciar as exigências externas e internas da empresa ou do indivíduo. Essas dificuldade é preocupante?
Eduardo Carmello - Sim. Os dados destas dificuldades são alarmantes. A Folha de São Paulo, no dia 22 de junho de 2003, publicou uma pesquisa com 11 mil trabalhadores sobre produtividade no ambiente de trabalho, concluída pela consultoria FranklinCovey, mostrando que 56% dos funcionários não conhecem claramente os objetivos das organizações; 43% se dizem sobrecarregados de tarefas, sem saber por onde começar, ou seja, perdem o foco; 67% sentem falta de reconhecimento por parte da empresa; somente 19% afirmam possuir forte comprometimento com as prioridade definidas pelos superiores. Nos estudos de resiliência, por exemplo, sabemos que 80% das turbulências causadas nas organizações são literalmente "fabricadas". Diante de situações inovadoras, emergências ou sob pressão, a maioria dos profissionais têm suas competências diminuídas ou desaparecidas. Há uma grande necessidade de compreensão de como as pessoas encaram e gerenciam um processo de mudança na organização, pois como já sabemos, as pessoas não resistem às mudanças, resistem a serem mudadas. É por isso que o conceito de resiliência ganha tanta força nos dias atuais, pois tem demonstrado que, mesmo diante de um cenário de instabilidade, algumas pessoas e empresas conseguem sobrepor-se e reconstruir-se diante da adversidade com o máximo de competência, inteligência e saúde possível.
RH - - Quais as vantagens e as desvantagens que a adversidade pode trazer para as organizações?
Eduardo Carmello - No ocidente não gostamos muito de adversidades. Não conheço muita gente que acorda de manhã e diz: 'Uau! Estou louco para enfrentar uma adversidade hoje!'; 'Quero ver o meu chefe super irritado!'; 'Meus gerentes não conseguem assimilar o novo modelo estratégico. Fantástico!'. Não somos muito fãs de adversidades. Mas o fato é que a adversidade nos traz grandes oportunidades. As adversidades têm o poder de eliciar em nós recursos e inteligências que, se não tivéssemos passado por aquela experiência turbulenta, provavelmente não conheceríamos em nós competências que estavam "adormecidas". A desvantagem da adversidade acontece quando ela gera um alto nível de pressão constante e desmedida, onde os colaboradores não têm capacidade de assimilá-las e começam a entrar em desgaste, fadiga, exaustão, influenciando negativamente o desempenho organizacional.
RH -- O Sr. acredita que a adversidade pode ser foco de "investimento" de qualquer organização?
Eduardo Carmello - Normalmente focamos investimentos: onde e quando percebemos a possibilidade de lucrarmos algo com isso, na possibilidade de criar e agregar valor ao negócio; na capacitação e aprimoramento de sistemas, processos e, principalmente, no capital humano; e onde encontramos possibilidades de minimizar custo, desperdício e ineficiência. Se perceber que sua empresa está se desgastando muito com as adversidades e obtendo pouco resultado, então o foco é oportuno. Sabendo que as grandes turbulências estão na dificuldade de pessoas assimilarem informações e transmutá-las em conhecimento rapidamente, o pertinente seria investir no aprimoramento dos ativos intangíveis e em capacitação, orientação e incentivo do capital humano, para que ele possa fazer digna e inteligentemente todas as suas transições de forma a criar excelência e significado no seu trabalho. Por isso, decidimos aplicar o conceito de resiliência em gestão de pessoas. Resiliência é a capacidade que uma pessoa ou empresa têm de administrar excepcionalmente um conjunto de características capaz de enfrentar e sobrepor-se a todos os embates ocorridos durante a trajetória de vida. Utilizamos os fatores de promoção da resiliência para sensibilizar e capacitar pessoas a manterem-se firmes, flexíveis e integradas durante um embate ou se recuperar prontamente de traumas, desgastes e adversidades.
RH - Quando mencionamos a adversidade, logo pensamos em como esse público interno dever ser conduzido. Qual o perfil do gestor que melhor se adapta à adversidade?
Eduardo Carmello - O gestor resiliente é aquele que sustenta e aprimora continuamente suas organizações e times, com a competência de absorver altos níveis de mudança com o máximo de inteligência, desempenho e sabedoria possível. Os saberes necessários para o gestor resiliente são: adaptar-se às mudanças e às situações ambíguas; ser capaz de se recuperar de esgotamento, exaustão ou traumas; ser proficiente em manter calma, clareza de propósito e orientação em situações adversas; ter capacidade para pensar estrategicamente e tomar decisões acertadas mediante pressão; liderar sistemas de trabalho complexos e adotar condutas flexíveis na resolução de problemas; contar com a capacidade de trabalhar eficazmente com os superiores e liderados em problemas complexos de gestão.
RH - Ser líder de um grupo onde predomina a adversiade é sempre um motivo para grandes preocupações?
Eduardo Carmello - Acredito que a grande riqueza do líder está na capacidade de conseguir conscientizar seus funcionários a transformar as adversidades em desafios a serem conquistados. No filme Gladiador você nunca vê Maximus - personagem principal, que pode ser considerado um exemplo de líder - dizer:
- Homens, o dia de hoje será muito difícil. Temos poucos homens e não sei se vamos dar conta da batalha. A adversidade é grande!
Sua fala na primeira batalha do filme, aos seis minutos e 33 segundos do filme é:
- Em três semanas estarei fazendo minha colheita. Imaginem onde estarão, e assim será!
- Irmãos, o que fazemos na vida, ecoa na eternidade.
Maximus oferece um sentido de protagonização, responsabilidade e significado em cada ação da vida. Para o líder resiliente, o foco não deve estar na adversidade e sim no propósito e na capacidade de sua equipe em superá-la. Não há nenhuma necessidade de se criar adversidades, pois já há muitas exigências e estímulos a serem cumpridos.
RH - Que cuidados uma liderança deve ter diante da adversidade?
Eduardo Carmello - O líder precisa gerenciar as exigências e o nível de tensão da equipe da mesma forma que um mestre arqueiro zen dispara sua flecha em direção ao alvo. Ele sabe que se colocar pouca força, a flecha não chegará ao alvo. Mas se colocar força demais, a alta tensão fará com que a flecha perca o rumo e se desvie para fora do alvo. O mestre zen treina anos e anos para conseguir a precisa tensão em seu arco para conduzir sua flecha ao alvo desejado. Muita exigência, muita tarefa, projetos intermináveis que faz com que a equipe trabalhe até tarde da noite, sem dar tempo necessário para a equipe se recuperar e "tomar fôlego". O nome correto desta "queimação" no ambiente de trabalho é Burnout.
RH - O Sr. poderia falar um pouco sobre essa "queimação" no ambinete de trabalho?
Eduardo Carmello - A Síndrome de Burnout é conhecida como uma das conseqüências mais marcantes do estresse profissional e se caracteriza por exaustão emocional, avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade com relação a quase tudo e todos. O termo Burnout é uma composição de burn=queima e out=exterior e quer significar que o profissional que tem esse tipo de estresse consome-se intelectual, física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo, irritadiço e em outras ocasiões, totalmente apático. A síndrome de Burnout pode ser considerada como um efeito de um organismo que não conseguiu se adaptar adequadamente às exigências do meio, gerando um comportamento disfuncional e não saudável para a pessoa e para a empresa.
RH - E quanto à área de RH especificamente, como essa deve trabalhar a adversidade no dia-a-dia para que os conflitos não sejam uma constante?
Eduardo Carmello - Acredito que o maior triunfo da área de RH está na capacidade de criar, o que Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, chamou de "liberdades reais", que é o aumento da visão e das capacidades que as pessoas desfrutam. De gerar significado para todas estas transformações e adversidades que as empresas se encontram. De capacitar os colaboradores a utilizar-se da adversidade para aprimorar suas competências e responsividade em situações complexas, assim como aprender a ter uma mente solucionadora diante de embates. Quando expandimos nossa visão, entendemos o significado da situação e ganhamos capacidade de realização. As empresas e times que têm esse espírito criam funcionários que adoram mudanças, que são loucos por desafios, pois sabem que essas situações vão lapidando suas competências e caráter. Todo diamante bruto precisa de lapidação. Se interpretamos adversidades como um mal feito por alguém para atrapalhar nossos objetivos e interesses, estamos fritos. É por isso que não consideramos o conflito um problema. O problema é que desperdiçamos a maior riqueza do conflito que é não aprender nada com o a situação adversa e deixar de conhecer e respeitar pontos de vistas diferentes dos nossos parceiros que poderão ser utilizados em outros contextos e situações. Para o RH-GP, ajudar as pessoas a descobrir suas capacidades, aceitá-las e confirmá-las positiva e incondicionalmente é, em boa medida, a maneira de as tornar mais confiantes e resilientes para enfrentar as adversidades, por mais difícil que se apresente.
RH - Que conselhos o Sr. daria para um profissional de RH que trabalha diretamente com a adversidade?
Eduardo Carmello - Estrategicamente, meu conselho seria focar sua energia para demonstrar à empresa como as pessoas efetivamente criam valor e formatar algum sistema de mensuração deste valor, contribuindo efetivamente para a realização dos objetivos estratégicos do negócio. Em resiliência, trabalhamos com três dimensões que consideramos altamente necessárias para restabelecer foco e alinhamento estratégico:
- Território - é preciso que as pessoas saibam constantemente o que está acontecendo, para onde vamos, o que precisamos para alcançar os objetivos da organização. Imagem-chave: clareza de propósitos;
- Relacionamentos: o profissional de RH precisa comunicar massiva e constantemente os fatos e dados para que as pessoas tenham a verdadeira dimensão do problema. Senão, em ambientes de instabilidade e pressão, as pessoas entram facilmente em estresse e se dão o direito de criar boatos, negativismos e vitimizações capazes de piorar a situação. É necessário criar um ambiente de segurança, confiança, flexibilidade para construirmos juntos os resultados que queremos. Imagem-chave: conexão e interação que resulta em excelente desempenho;
Criar resultados: proporcionar transparência dos objetivos estratégicos, informando o que se espera de cada empregado envolvido e como se pode criar os resultados a partir dos conhecimentos, atitudes e habilidades específicas para o negócio. Imagem-chave: transparência dos resultados.
Enfim, o profissional de RH resiliente é sempre aquele que decide interpretar a adversidade como uma circunstância e um aprendizado da vida e escolhe a inteligência e a esperança em vez da vitimização e do desespero.
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