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30/03/2009
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RH: o guardião dos valores e das crenças organizacionais

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Desde que criança, o ser humano recebe uma grande bagagem de informações que garantirão sua sobrevivência e influenciarão diretamente seu comportamento em relação às mais variadas situações junto à sociedade. Esse processo tem continuidade durante a adolescência e até mesmo na fase adulta. Isso porque, quando o profissional ingressa no mercado de trabalho, ele encontrará na empresa crenças e valores que estão inseridos na cultura organizacional.

Simplesmente não dá para “bater o pé” e virar as costas para a realidade corporativa, afinal para fazer parte da equipe ele precisará conhecer e compreender, através das crenças e dos valores, porque a companhia adota determinadas atitudes diante de algumas situações. Mas, será que as empresas estão realmente atentas para o real valor das crenças e dos valores coorporativos? Para responder essa questão, o RH.com.br entrevistou Romeu Huczok, consultor de RH que atua no mercado há 15 anos e traz em seu currículo as experiências de ter exercido cargos de gerente e de diretor de RH em empresas como, por exemplo, Siderúrgica Guaira (Gerdau), Souza Cruz, Incepa, Climax/Refripar (Electrolux) e Banco Banorte (Itau/Unibanco).

“Geralmente, dizemos que as empresas contratam pelos conhecimentos e habilidades - experiência, competência técnica - e demitem pelo comportamento. Isso ocorre porque, normalmente, quem vem de fora não tem os mesmos valores e leva um tempo para se integrar e às vezes não se agrega à cultura”, enfatiza Romeu Huczok. A entrevista aborda questões relevantes para as organizações de qualquer segmento ou porte. Aproveite a leitura e reflita sobre as crenças e os valores que estão presentes no seu cotidiano corporativo!


RH.com.br - O que diferencia as crenças dos valores organizacionais?
Romeu Huczok - As crenças são opiniões que se adota com fé e convicção, isto é, as coisas em que você acredita, baseando-se em toda sua formação, desde criança. Elas fundamentam os valores. Então, a forma como você foi educado, a religião, a escola pública ou privada, o que ouve dos pais, tudo isto compõe um conjunto de crenças que vão formar os valores.

RH - Qual a importância desses para a vida da empresa?
Romeu Huczok - São fundamentais, quanto maior a empresa, maior a importância dos valores serem discutidos, praticados e internalizados. Em uma empresa pequena o empresário costuma confiar mais em quem cresceu com ele, porque conhece os seus valores e saberá decidir com filosofia semelhante em sua ausência. Já em uma empresa grande, o colaborador da base muitas vezes nem conhece o dono ou os diretores. Se a empresa tem os valores conhecidos, praticados desde a seleção, por exemplo, refletidos em indicadores de competências comportamentais, a possibilidade de sucesso na contratação é muito maior.

RH – Mas, de onde realmente surgem os valores para o ser humano?
Romeu Huczok - No nível individual, os valores são os nossos “pais“ - a alma humana é nutrida pelos valores que ela possui, é o que orienta nossa vida. No nível da empresa é algo parecido. Nos momentos de crise, eles são fundamentais. Temos um caso bastante  conhecido de uma famosa empresa multinacional de auditoria que praticamente faliu porque um valor fundamental  para este tipo de negócio – a ética –  foi quebrado quando se adulterou números de resultados de organizações que repercutiam no mercado de ações e nos bônus dos executivos.
 
RH - Que fatores originam e definem as crenças e os valores corporativos?
Romeu Huczok – As crenças e os valores individuais dos executivos que participam do trabalho, a filosofia, isto é, o modo de pensar de cada um, com a influência fortíssima dos fundadores. Eles é que conduziram a empresa ao estágio em que está, com base nos seus valores. Quem não conhece a história das empresas familiares em terceira geração que às vezes quebram? Muito do que acontece é porque os valores perdem-se. E pode parecer estranho, mas às vezes a empresa pratica valores que são inadequados para o seu negócio, devem ser mudados. Portanto, precisa muitas discussões para se chegar a um consenso na forma de conduzir a empresa. Democracia não vale nessa hora, tem que ser consenso.
 
RH -
Quem deve estar à frente desse trabalho?
Romeu Huczok - Geralmente é a área de Recursos Humanos a condutora, mas muito apoiada pela diretoria, os executivos principais. Se não houver um profissional com muito conhecimento do assunto e de habilidade para conduzir discussões por vezes acaloradas, vai necessitar de uma consultoria.
 
RH -
Os funcionários devem participar do processo que determina as crenças e os valores organizacionais?
Romeu Huczok – Do processo que determina, não. Tem seu momento. O processo participativo tem três instâncias: informativo, consultivo e decisório. Eles podem ser ouvidos – consultados - por pesquisa, quem decide é a diretoria, depois de muita discussão. Depois eles são informados. Isto porque os funcionários nem sempre têm acesso a dados estratégicos sobre o negócio, sobre o perfil dos clientes, sobre resultados, entre outras informações.
 
RH - De que forma as crenças e os valores corporativos manifestam-se no dia-a-dia?
Romeu Huczok – Existe um alinhamento do pensamento, ou a maneira de pensar, atitude fundamentada nas crenças e valores, com a  manifestação pela palavra, depois vem a ação ou obra. Todo o  comportamento dos colaboradores tem consequência no clima organizacional e nos resultados. Se for uma empresa de serviços, o comportamento é responsável por mais de 50% dos resultados, acima de conhecimentos e habilidades.

RH - Quando uma empresa não possui crenças e valores determinados e claros diante dos colaboradores, isso repercute no comprometimento dos profissionais?
Romeu Huczok – É importante que se diga que toda empresa tem crenças e valores, às vezes não estão escritos, mas são claros pelos procedimentos praticados. Quando não o são, as pessoas podem errar muito nos padrões de comportamento. Mas se, por exemplo, ela tem um valor como honestidade, alguém tem um desvio de comportamento ligado a esse valor e nada é feito, ocorrendo impunidade, vai gerar um mau exemplo que provocará a falta de credibilidade e de comprometimento. Então, as políticas e os procedimentos devem estar alinhados, e as ações praticadas de forma coerente. Felizmente a maioria do empresariado tem essa consciência. Em contrapartida, veja a influência dos comportamentos praticados por valores negativos de autoridades e políticos que dão um mau exemplo, repercutem na sociedade, nos jovens do país, com péssimas consequências.

RH - Existe relação direta entre crenças, valores e desempenho profissional?
Romeu Huczok - Sim, uma empresa que faz com que os valores sejam praticados e os seus líderes dão exemplo, ela tem um norte claro para comportamento, afeta positivamente o desempenho profissional, os colaboradores erram menos,  e faz com que  um funcionário que age de acordo com os valores organizacionais seja bem visto e apoiado, gerando bom desempenho. O cliente também percebe. Em geral, o funcionário que tem desvios de comportamento correlacionado com os valores pode até conseguir algum tipo de resultado num curto prazo, mas no médio e longo ele causa prejuízos.

RH - Qual a maneira mais adequada para se divulgar as crenças e os valores nas empresas?
Romeu Huczok - Logicamente é importante que organização os tenha publicados, estejam presentes em banners, nas paredes, nos computadores, no house organ,  mas mais importante do que isto é praticar os valores, coerência entre o que se diz, que se fala, e o que se pratica, em todos os níveis da estrutura. Os funcionários precisam entender os valores. E para isto o melhor meio é o desdobramento dos valores, que se faz por meio de indicadores de competências comportamentais, que devem ser avaliados e ações desenvolvidas para os gaps.
 
RH - Atualmente, existe um "rol" de valores organizacionais que se destacam no mercado?
Romeu Huczok - São muito comuns os valores ligados à ética, à honestidade, à transparência, à qualidade, à valorização das pessoas, ao respeito ao cliente e o mais novo, à responsabilidade social.

RH - Como estamos em um momento em que o tema Sustentabilidade encontra-se em evidência, os valores corporativos também são realmente observados pela sociedade?
Romeu Huczok – Sim, na Europa já existe o “selo verde” para empresas que ajudam a cuidar do meio ambiente. Agora mesmo, estamos com alguns supermercados envolvidos em campanhas para acabar com o saco plástico. A sociedade observa e tende a rejeitar empresas cujos valores praticados estão em desacordo com as tendências e as aspirações.

RH - Que consequências o "engavetamento" das crenças e dos valores organizacionais pode proporcionar?
Romeu Huczok – Seria trágico, o caos, dificilmente uma empresa privada se sustentaria em longo prazo. Cada um vai comportar-se da forma como bem entende, a empresa vai perder clientes e mercado, funcionários que não aguentarão o clima vão pedir demissão. A empresa tem uma responsabilidade que nem todos percebem em relação a isto. Existem empresas que vêem um grau de importância tão grande que se transforma na missão de um vice-presidente, por exemplo,  fazer com que os valores sejam internalizados e cumpridos. Fora do âmbito da empresa, quando se ouve ou lê-se notícias sobre o estado de coisas, principalmente na política, tem-se a impressão que o país engavetou os seus valores. Se bem que isto é polêmico, alguns dizem que estes é que são os valores do país, com o que eu não concordo.

RH - Qual o papel dos gestores diante das crenças e dos valores em uma empresa?
Romeu Huczok – Hoje o gestor tem que ser um educador, quanto mais perto deste perfil, mais sucesso terá na formação de equipes com consequência nos resultados. Explico. Hoje em dia, quando vemos 50% das famílias formando novas famílias, 50% das mulheres trabalhando, fica a pergunta: quem educa as crianças, quem passa os valores? A escola diz que a responsabilidade é dos pais, os pais dizem que não têm tempo. E os valores formam-se enquanto criança. Quando eu estudei em escola pública, o padrão era excelente, convivia com mais pobres que eu e mais ricos, ainda criança tinha visão do social, compartilhava o lanche. Em minha casa, para minha mãe, mentir era como um crime. Ela dizia que quem mentia podia roubar e cometer outro crime mais grave. Hoje,  muitos que estudam em escola privada e vivem em shoppings, sem generalizar, se não houver uma correta orientação, podem estar muito preocupados com o último modelo de celular, a marca da roupa,  do tênis. Isto é,  às vezes, podem ter valores distorcidos. A sociedade já começa a se preocupar com isto, em algumas escolas  já se começa a trabalhar filosofia. Então, quando um jovem criado e um estilo “tudo pode” numa escola onde era “cliente” e não somente aluno, entra num ambiente empresarial, tem que ser reeducado na questão disciplina, rever valores. O gestor tem um enorme papel nisto. E ele vai usar os valores organizacionais como parâmetros para posicionar o comportamento de todos.

RH - Como a área de Recursos Humanos está inserida nesse contexto?
Romeu Huczok – Valores organizacionais, assim como RH, Qualidade, Marketing, imagem da empresa, é papel de todos numa empresa. Entretanto, o RH é responsável em primeira instância por selecionar, contratar, treinar, fazer com que os “regulamentos” sejam cumpridos. Portanto, ela pode ser a “guardiã” dos valores organizacionais, ser assessora na sua interpretação e no como fazer cumprir.

Palavras-chave: | Romeu Huczok | cultura organizacional |

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COMENTÁRIOS (4)
Ricardo M. Pfutzenreuter em 16/11/2009:
Parabéns pelo artigo,muito claro e direto ao assunto. Precisamos nos lembrar como gestores,que sempre estamos sendo observados. Portanto, devemos ensinar pelo exemplo.

Orlei Antônio Dossa em 03/04/2009:
Parabéns, o texto está muito bom e de fácil entendimento.

Rogeria Maria Ost Boeni em 02/04/2009:
Adorei o artigo!Muito bom de ler e de fácil compreensão...Parabéns.

Marina Scudino em 31/03/2009:
Excelente as informações aqui prestadas e muito oportuno para minha monografia.Parabéns a toda a equipe que prima pela alta qualidade de seus artigos.

 
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