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28/09/2009
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Namoro entre colegas de trabalho gera problemas?

Patrícia Bispo

Hoje, com um mercado altamente competitivo, muitos profissionais passam mais horas do seu dia dentro das organizações do que junto aos familiares, compartilhando vários momentos de suas vidas com os colegas de trabalho. Em alguns casos, sem perceberem, criam laços que vão além de amizade e culminam em relações afetivas. Quando isso ocorre, há casais que sentem uma preocupação: como a organização irá ver essa relação que surgiu? Será que a empresa aceitará com naturalidade ou colocará objeções, com receio de que a performance dos apaixonados seja prejudicada?

De uma forma ou de outra, a realidade mostra que o convívio diário cria vínculos afetivos entre as pessoas e não é possível tentar ignorar esse fato. Foi justamente para trazer esse assunto à tona que o RH.com.br entrevistou Karin Leitzke, gerente de Recursos Humanos da Indústria Química Killing Tintas e Adesivos, e diretora de Relacionamento da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Rio Grande do Sul (ABRH-RS). Karin, que possui 15 anos de atuação na área de RH, afirma que hoje as organizações estão mais flexíveis em relação ao namoro no ambiente de trabalho. "No entanto, é exigida maturidade dos colaboradores que se relacionam", complementa. A entrevista na íntegra está logo abaixo, não deixe de conferir e uma ótima leitura!

RH.COM.BR - Há casos em que no convívio diário do ambiente de trabalho alguns profissionais acabam envolvendo-se e até chegam a namorar. Hoje, as empresas estão mais flexíveis a esses casos?
Karin Leitzke - Assim como as nossas relações sofreram mudanças com o passar das décadas, as empresas também mudaram quanto ao posicionamento frente aos relacionamentos no ambiente de trabalho. Tentar evitar, ou pior, reprimir algo tão possível de se acontecer entre pessoas que convivem diariamente pode ser danoso para uma relação transparente entre empresa e colaborador. Convive-se muitas vezes mais tempo com colegas de trabalho do que com nossos próprios familiares, desta forma, é fácil que as pessoas se interessem umas pelas outras. Se a empresa quiser impedir o namoro, o óbvio, que por muitos anos ocorreu, vai acontecer, ou seja, relações ocorrerão às escondidas da organização. E aí a relação da empresa com funcionário é que sofre, pois acaba tendo mentiras e mistérios dificultando um diálogo aberto e transparente. Logo, a resposta é sim. As empresas estão mais flexíveis, mas exigindo maturidade dos colaboradores que se relacionam.

RH - A Sra. acredita que o namoro no ambiente de trabalho, de fato, atrapalha o desempenho dos profissionais?
Karin Leitzke - Tudo depende da postura e da maturidade dos envolvidos. Conheço na empresa em que trabalho alguns casais de namorados e casados que são respeitados pela organização e pelos colegas, pois demonstram no dia-a-dia que não misturam seus papéis. Dentro da empresa são profissionais, focando-se cada um na sua atividade e responsabilidades, e saindo da empresa conseguem ter uma relação harmoniosa como casal. Há casais, inclusive, que pelas funções que exercem e que exigem alguns sigilos, têm contrato entre eles de não conversarem assuntos da empresa em seus lares. Daí vai do que o casal acha melhor estabelecer para sua saúde pessoal e profissional. Entendo até que pessoas apaixonadas, e neste caso estamos falando inclusive por colegas de trabalho, sentem-se mais completas e felizes e, portanto, podem até melhorar seu desempenho. Logo, afirmar que namoro no trabalho interfere negativamente o desempenho pode ser um grande erro. Lógico que para aqueles que não conseguem ter uma postura madura, o namoro pode atrapalhar bastante o desempenho e a carreira.

RH - Quando dois colaboradores começam a demonstrar que o relacionamento não é apenas profissional e pode culminar em uma relação afetiva, a empresa que se mostrar contrária ao possível envolvimento não estará invadindo a privacidade do casal?
Karin Leitzke - Sim, a empresa pode estar invadindo a privacidade do casal se este não apresentar motivo algum que esteja prejudicando a organização como, por exemplo, baixa de performances. Como falamos anteriormente, um relacionamento não necessariamente irá prejudicar o papel que cada um exerce dentro da empresa. Mas se isto estiver acontecendo, a empresa sim poderá intervir. Por exemplo, alguém da área de pessoal começa a namorar alguém da fábrica e comentar com o namorado valores de salários ou situações de demissões. Isso é algo inadmissível e a empresa deverá intervir; pois não se tratará de invasão de privacidade, mas de cobrança de uma postura ética e confiável que a empresa deposita em seus colaboradores.

RH - Ao observar um envolvimento afetivo entre seus subordinados, é aconselhável que o gestor converse com o casal para que eles saibam separar questões pessoais de assuntos profissionais?
Karin Leitzke - Sim uma conversa franca, aberta e com boas intenções, será bem-vinda. O gestor trazendo as expectativas que a empresa tem com a postura do casal que está se relacionando, tratando o assunto com clareza e sem retaliações, ajudará a fazer o casal refletir e adotar comportamento adequado não misturando questões pessoais e profissionais. Há situações que o inverso também acontece, ou seja, os próprios profissionais procuram o gestor para falar de seu relacionamento e esclarecem que terão postura respeitosa com a empresa e isso já demonstra um nível de maturidade diferenciado o que facilita a relação de confiança da organização com os colaboradores.

RH - Se o casal não apresentar problemas de produtividade, mesmo assim as lideranças ou a área de RH devem ficar atentas a esses profissionais?
Karin Leitzke - Há muitos namoros que acabam em casamentos. Logo, já pensou se as lideranças precisarem estar atentas a todos os relacionamentos enquanto perdurarem? Parece-me meio persecutório e repressivo. Havendo uma conversa franca entre as partes - empresa e colaboradores - no início da relação e o casal demonstra maturidade no dia-a-dia, não tem motivos para haver uma preocupação extra com estes profissionais. Já pensou casamentos que ocorrem na empresa e que duram por toda a vida? As lideranças e o RH deverão ficar rastreando o casal todo o tempo? Não vejo necessidade. As inconveniências de uma relação não madura logo aparecem e daí sim devem ser tratadas. O que vemos como prática comum dentro das empresas é de se evitar ao máximo que pessoas que se relacionam estejam no mesmo setor e principalmente com diferença hierárquica. Isto torna a separação entre questões profissionais e pessoais mais fácil de ser administrada.

RH - Esse mesmo casal com maturidade profissional poderá servir de exemplo para os demais colegas de trabalho, que estejam escondendo um relacionamento com receio da reação da empresa?
Karin Leitzke - Sim. Como diz o ditado, "o exemplo arrasta". Logo, profissionais receosos de "abrirem" o jogo para empresa de seus relacionamentos, se observarem o trato correto e justo desta com casais que agem com transparência, vão sentir-se provavelmente seguros de também exporem sua relação.

RH - Na sua visão como profissional de RH, ao ver dois funcionários solidificarem um namoro que culmine em uma relação estável, no mínimo é simpático que a empresa ofereça um presente ao casal no início de nessa nova etapa de vida?
Karin Leitzke - Esta é uma questão que muda muito de empresa para empresa e deve ser assim, pois presentes são tratados de forma diferente pelas organizações em função de sua cultura, orçamento, políticas, entre outros fatores. Logo, não há regra. Lógico que é simpático presentear o casal, mas se por algum motivo a empresa não puder fazê-lo, o carinho dos colegas e da empresa neste momento é o que vale e talvez até um cartão bem pessoal possa dizer mais que um presente.

RH - Diante da Justiça do Trabalho dois funcionários que se envolverem emocionalmente e sofrerem algum tipo de pressão para romper o namoro podem impetrar uma ação contra a organização?
Karin Leitzke - Sim, podem impetrar ação o que será danoso para todos os lados, pois uma ação judicial é desgastante e nem sempre chega aos resultados esperados. Para evitar este tipo de ação, a empresa deve adotar uma postura ética, transparente e madura ao tocar no assunto com os colaboradores e esperar o mesmo destes na condução de seus relacionamentos.

RH - Que orientações a Sra. pode dar a um profissional de Recursos Humanos que se depara com um casal de funcionários em crise e que deixa que os fatos pessoais afetem o desempenho das suas atividades?
Karin Leitzke - Chamá-los para uma conversa franca e respeitosa, no sentido de não entrar na intimidade do casal, mas apenas deixar claro que as situações particulares deles estão interferindo negativamente na performance profissional de cada um. Neste caso, seria bom trazer exemplos, para que fique claro que não se trata do gestor querer se meter em suas vidas particulares, mas de ajudar no desempenho e variáveis deste. Também seria adequado colocar-se à disposição para tentar ajudá-los se precisarem e neste caso uma forma de ajuda é encaminhar à área de RH que poderá orientar para um acompanhamento externo como, por exemplo, terapia de casal. Mas, para isto, é importante que o gestor sinta abertura do casal e cuide para não ser intrusivo. O foco é o desempenho e suas possíveis causas e não a crise do casal.

RH - Todas as considerações acima devem servir tanto para casais heterossexuais quanto homossexuais?
Karin Leitzke - Sim, para todas as situações, pois não podemos ter preconceito dentro das empresas. Entretanto, sabemos que ainda temos muito a evoluir nesta questão, pois o preconceito ainda existe e por parte de todos: colaboradores, gestores e empresa como um todo. E se tratar o assunto entre casais hetero por vezes é difícil, em casais homo ainda mais pela discriminação que começa às vezes pelo próprio casal que esconde da empresa pelo medo da retaliação. Trata-se de trabalharmos a diversidade dentro das empresas que é outro tema bastante importante e desafiador para nós profissionais de RH.

Palavras-chave: | Karin Leitzke | ABRH-RS | relacionamento | conflito |

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COMENTÁRIOS (2)
ANDRÉA FREITAS em 19/10/2009:
Olá, para todos e parabéns pelo site que tem sido muito útil para mim e com certeza para muitos!!! Na verdade tenho um dúvida: quando ocorre ameaça de demissão sem ao menos alertar o funcionário, há risco sobre isso? A empresa pode demitir um dos funcionários nessa circunstância? O funcionário tem direitos ou poderia reparar o dano? No aguardo de sua resposta, Desde já grata. Andréa Freitas

Carla Amélia Ó da Silva em 01/10/2009:
Estes detalhes são muito importantes tanto para os gestores do R.H. como para os funcionários. Deveria ser posto em prática em diversas empresas. Como não acontece, os gestores do R.H. fazem uso disso para pressionar negativamente aos envolvidos, o que traz transtornos graves para os trabalhadores. Haverá alguma proposta de palestras a serem realizadas nas empresas relacionadas com o assunto?

 
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