Por Luiz Carlos Moreno para o RH.com.br 
"Senhor Presidente,
Quero agradecer a oportunidade e o privilégio que foi trabalhar nesta empresa. Uma organização de grande porte, com pessoas maravilhosas, mas que como em todas, também comporta em seus quadros pessoas medíocres, mesquinhas e incompetentes.
Anos de dedicação, desenvolvimento pessoal e profissional, meu desempenho pode ser medido pela conquista de novos clientes e pelo cumprimento sistemático de minhas metas. Retorno das férias, um mês depois, numa sexta - feira ao sair para o campo, o gerente me chama:
- O senhor está demitido!
A surpresa não impede as lágrimas, mas estas não impedem as palavras:
- Por quê?
- Puxa vida, estou vendo aqui, você cumpriu, aliás, superou suas três últimas metas trimestrais... Bem, não é nada pessoal. Eu gosto muito de você. Você é um grande profissional, mas o fato é que veio uma determinação...
- Mas eu gostaria de saber o motivo!
- Não há motivos.
Ainda, em meio às minhas lágrimas, fui contemplado com uma observação, no mínimo deselegante, para não dizer insensata (esperar sensibilidade já seria demais):
- Nunca tive o dissabor de ser demitido na minha vida!
Pensando que para tudo tem uma primeira vez na vida, calei-me. Tendo constatado que não ia dar para continuar a conversa, tomei o rumo dos preparativos finais: exame médico demissional e me pus a pensar na vida e no que poderá ser dela sem o emprego. Até agora, só pensava no trabalho.
Duas ou três pessoas ficariam muito felizes com a notícia. Afinal, eu era bem remunerado pelos meus esforços. E inveja é sempre um problema. Mas, num nível de pessoas mais simples, que normalmente são as mais sinceras, tenho certeza, fica um misto de indignação e de saudade.
Revendo a história, penso na semi-analfabetizada que administra o escritório, essa me invejava declaradamente.
Penso no hipócrita do meu gerente que chama seus clientes de "cara" ao telefone; que não conhece os clientes da empresa, que nunca sai às ruas para visitá-los porque gosta do ar-condicionado e forja relatório de visitas para a regional. É uma pessoa cara (custo) para a empresa, mas sua maior habilidade e prazer estão em dirigir um caminhão, contar caixas no depósito. Um gerente ganha para isso? Que embora receba reembolso por quilômetro rodado, deixa o carro com a esposa para serviços domésticos e particulares, utilizando carros dos profissionais de vendas para serviços administrativos, retendo estes também em serviços administrativos, em vez de os estimular a visitar os clientes.
Relembro também o fato de que no início das atividades, um dia fui chamado para uma conversa particular em que ele abriu o coração, que estava prestes a ser demitido da empresa, que eu seria a pessoa mais qualificada para assumir o seu cargo. Mais recentemente, numa avaliação interna, ficou evidente o peso (ou ameaça?) da minha formação educacional e conseqüente qualificação, pois segundo as exigências propagadas, eu era a única pessoa que preenchia o perfil desejado pela empresa (outra ameaça?). E mais recentemente ainda, esse senhor manifestou o desejo de ocupar um cargo de gerente regional que ficou vago. Importante registrar o óbvio, o salário dele era calculado, inclusive sobre as minhas vendas. Agora, menos emotivo e mais equilibrado para a auto-avaliação, pondero sobre essas circunstâncias da minha demissão. Pelo menos nessa unidade, não tem mais competidores ou ameaças. Competência, me parece agora, neste caso, uma questão semântica de importância muito remota.
Para recordar a expressão de um conhecido meu "agora ele ficou livre para chutar o pênalti".
Penso também num outro vendedor da empresa que tem o ensino médio "incompreto" como ele mesmo pronuncia, embora a empresa exija nível superior para a maioria absoluta dos cargos, incluindo vendas.
Lendo, participando de cursos, atualizando fui percebendo que havia horizontes nesse negócio e me dediquei. Só que repentinamente, não existe mais horizonte. A empresa só existe no meu passado. Aquelas exigências significam o quê? Único profissional de nível superior, com duas pós-graduações concluídas, domínio de informática em nível de usuário, naquela unidade, eu me enquadrava no perfil exigido pela empresa. Me faltava o domínio de uma língua estrangeira, cujo curso já estou matriculado, mas os demais falam a língua Portuguesa de forma sofrível ou rudimentar... Penso que nessa unidade eu superava as expectativas e isso é uma ameaça para os medíocres e incompetentes.
Ser simpático e querido no nível operacional é gentileza, questão de educação. Mas a estratégia é ser querido, mesmo que à custa de falsidade, pelos poderosos, aqueles que decidem. Esses, nunca devem ser confrontados, mesmo que estejam errados. Para esses, diga apenas elogios, coisas que eles gostam de ouvir, nunca diga uma verdade que doa. Assim se garante um emprego.
Não há muito o que dizer, a não ser enfrentar os fatos, as contas, o dia-a-dia, de uma pessoa que (apesar de solteira) é responsável pela família, pais idosos que exigem cuidados médicos freqüentemente e medicamentos de uso contínuo e conseqüentemente de elevado custo. Faço referência ao contexto da vida familiar, uma vez, que os critérios quase sempre têm como justificativa (já ouvi isso uma vez) os outros são casados, têm família para sustentar etc. Não conheço empresa que seja instituição de caridade. O que aprendi em administração, é que conta resultado. Isso é que mantém uma empresa. As pessoas que eu gosto ou deixo de gostar não contam. Profissionalismo em algumas empresas pesa menos que preferências pessoais. O que conta é o favoritismo pessoal de quem escolhe quem permanece ou quem vai ser demitido.
Para finalizar, refiro-me ao processo de desligamento, que segundo a legislação vigente, a empresa tem dez dias para realizar a homologação. Por conta ainda, da incompetência das pessoas que o cercam e o servem, foi realiza dezenove dias depois, ainda assim com erros - que eu abri mão e pedi para a fiscal relevar, pois senão o processo se estenderia por mais alguns dias. Evidentemente isso significou algumas multas para a empresa, que nem sempre são informadas aos principais gestores. Onde fica a administração de custos? Este problema, gerado pelas pessoas que o cercam, é seu.
Enfim, um dia a empresa descobre que está inchada, que há gente demais fazendo o "social elegante" trazendo notinhas de despesas para reembolso, mas nada de pedidos e de novos negócios.
Continuo minhas reflexões com um questionamento "que negócio é esse?". Gerentes como esse que me demitiu um dia são desmascarados pela empresa, sua incompetência vem à tona. Quanto a mim, já estou empregado numa outra organização.
Palavras-chave: | gerente | liderança |
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