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14/04/2008
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O braço direito

Por Kátia Ricardi de Abreu para o RH.com.br

Comum é, nas empresas, encontrar um elemento que representa o braço direito do chefe: aquela pessoa para quem, que, alguém sempre liga no celular para saber o que fazer. Quando ela se ausenta por alguns minutos da empresa no horário do expediente (um detalhe importante é que ela costuma ficar além da hora de trabalho sem reclamar, apenas para deixar o serviço em dia) ou quando tira férias, é chamada para vir desempenhar suas funções, pois ninguém sabe fazer como ela faz... Ou ainda, ninguém sabe fazer o que ela faz. Outra característica: ela representa o chefe, ou “grande rei”, principalmente quando ele não está.

O braço direito, não se sabe quando, nem como (às vezes, se sabe!) recebeu esse status, este título informal, e o introjetou na sua performance corporativa de tal maneira que muita energia acaba sendo gasta para se manter nesta posição.

Ensinar o que sabe acaba sendo um sofrimento para esta pessoa. Detectar colegas que podem ameaçar sua posição é outro sofrimento. Qualquer pessoa próxima ao “grande rei” é um perigo para ela; boicotes, na tentativa de exercer um controle sobre quem se aproxima do trono, é sua especialidade. Mas quem ousa questionar sua produção ou quaisquer das suas atitudes? Ninguém. Há um código de ética nos corredores da empresa que impede qualquer comentário desse tipo.

O braço direito se distrai, preocupado em servir ao “grande rei” que está sentado no trono, porque o braço direito trabalha para o rei, não para a empresa; e erra, erra muito mesmo, mas nunca erra com o rei; para ele, tudo! Para os outros, nada!

O braço direito, na concepção do rei, não erra nunca ou se erra, coitado, ele o faz sempre sem perceber. O atrevido que ousar apontar alguma coisa de negativo sobre o braço direito vai se ferrar, vai perder pontos com o rei, vai ser chamado de invejoso, maldoso, ingrato ou qualquer coisa deste tipo, porque o braço direito está definitivamente garantido na empresa para sempre; suas falhas são todas justificáveis e sabem por quem?

Ah! Aí é que está o “X” da questão! Pelo “grande rei” cotó, que só tem o braço esquerdo, porque o direito... É esse ser a quem ele está simbioticamente preso, ligado e envolvido emocionalmente pelo cordão umbilical. É aquela pessoa que o “grande rei” cotó cegamente elegeu como seu braço direito, instruído, orientado, formado e diplomado pelo próprio rei. Acreditem, não existe em nenhuma empresa, um braço direito que se eleja sozinho. Isso só acontece quando alguma autoridade superior lhe concede este título e ai de quem discorde disso.

Segundo a analista transacional Jacques Schiff, simbiose “é o fenômeno que ocorre quando duas ou mais pessoas se conduzem na vida como se fosse uma só”. É a metade da laranja, a tampa da panela, ½ + ½ = 1. No relacionamento conjugal isso até é confundido com o conceito de amor.

Nas relações interpessoais corporativas, o resultado disso é a dependência que pode parecer confortável numa visão simplista. Quando o chefe se sente representado pelo braço direito, ele dorme tranqüilo, porque tem uma pessoa de confiança, que cuida da sua empresa impecavelmente. Se o braço direito cuida do caixa, melhor ainda, pois o chefe fica aliviado com a idéia de que o seu braço direito sabe cuidar do dinheiro da empresa com muito zelo. E às vezes sabe mesmo! Não é isso que está em questão. Até porque, se ele assim o faz, está fazendo o que tem de ser feito!

O que está em questão, é o estrago que uma pessoa dessas provoca na equipe, respaldada pelo “grande rei” cotó. Esse título delegado a um ser imaturo, arrogante e, principalmente, ambicioso é um convite ao assédio moral nas suas facetas mais sutis. Nunca o “grande rei” cotó ficará sabendo de nada e, se souber, ele não vai acreditar.

Conheci um rei que era especialista nisso; ele ministrava MBA sobre esse assunto ou pagava para seu braço direito fazer o MBA. Depois de muito tempo eu soube que este rei era movido pelo desejo de ter um filho sucessor; e, na impossibilidade disso, ele inconscientemente elegia vários braços direitos dentro da empresa que ficavam todos disputando quem era o predileto.

Só tem uma chance de salvar o clima da empresa quando isso acontece: é o rei deixar de ser cotó e enxergar sua empresa como um todo, com seus vários colaboradores ou sócio-investidores, como eu prefiro chamar a todos que fazem parte de uma empresa. Uma verdadeira equipe, onde o poder é equalizado de tal forma que todos se sentem importantes e realmente são importantes; todos cuidam da empresa, porque a ela é de todos.

Isso acontece quando o “grande rei” se fortalece emocionalmente e muda a fórmula para 1 + 1 = 2, simbolizando a ausência de dependência e a presença da interdependência entre todos da equipe. O braço direito perde seu status patológico quando seu poder é do tamanho que tem de ser, sem maximizações idealizadoras respaldadas pelo “grande rei” que, corajosa e inteligentemente deixa de ser cotó. A equipe, sorrindo, aplaude e agradece!

Palavras-chave: | líder | liderança | gestor |

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