Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH.COM.BR - Sabemos que a competitividade tem provocado vários fatores estressantes no meio corporativo. Que reflexos essa realidade tem gerado nos líderes?
Wagner Mesquita - Alguns estímulos estressores são classificados conforme o tempo necessário para causar algum estresse. Existem os chamados estressores de curto prazo, onde se enquadram as sensações de fracasso, a pressão do tempo, a carga de trabalho, o medo, as ameaças entre outras coisas que podem causar estresse imediato. A competitividade está enquadrada com outros fatores - ambientes de perigo; trabalho monótono -, nos estressores de longo prazo. Assim dependendo do tipo de estímulo estressor a que os profissionais que são líderes estão submetidos, terão os reflexos correspondentes. Se o ambiente é altamente competitivo, o líder sentirá o estresse ao longo do desenvolvimento de seu trabalho, caso não tome providências para minimizar os efeitos sobre sua saúde. Considerando que o estresse é um estado de desequilíbrio causado pelos vários estímulos já citados, observa-se que na sua maioria são de origem psicológica e que desencadeiam problemas, também, no organismo. Por conseqüência, os líderes são afetados também em sua saúde física.
RH - Quais os principais sintomas de uma liderança afetada pelo estresse?
Wagner Mesquita - Os principais sintomas de um líder afetado pelo estresse são os que qualquer pessoa estressada apresenta. Não podemos nos furtar ao fato de que líderes são pessoas, ainda que alguns não se vejam assim. Então, o líder estressado também apresenta ansiedade, insônia, dores de cabeça, irritabilidade, doenças psicossomáticas e outra infinidade de coisas que podem desencadear, no seu estágio mais avançado, a chamada Síndrome de Burnout. Essa síndrome é caracterizada por um conjunto de atitudes negativas como, por exemplo, baixa produtividade, perda de responsabilidade, atitudes passivo-agressivas e até perda de motivação. É uma resposta ao estresse ocupacional crônico.
RH - Líder estressado é obrigatoriamente sinônimo de equipe tensa?
Wagner Mesquita - Não necessariamente. Depende do grau e da qualidade do relacionamento da equipe com seu líder, vice-versa. Nos tempos em que vivemos movidos pela comunicação à distância, pode-se ter um líder em outra torre, outro bairro ou a milhares de quilômetros, que não afetará diretamente a equipe. Se conviverem no mesmo espaço físico, vai depender do grau de maturidade da equipe e da forma como ela lida com as situações que podem causar estresse. É válida a terceira lei formulada por Newton, Ação e Reação, no caso de relacionamento interpessoal: quando um corpo exerce força sobre outro, a reação do corpo atingido será igual em módulo, mesma direção e sentido contrário.
RH - É possível exercer cargo de liderança sem ser contaminado pelo estresse?
Wagner Mesquita - Acredito que não. Existem muitos fatores que a vida moderna nos impõe e de uma forma ou de outra, por fatores profissionais ou não, estamos propensos ao estresse. Imagine uma mãe que tem um pneu furado de seu automóvel no meio de uma avenida de grande movimento, bem no momento em que está dirigindo-se para a escola de seu filho. O volume de estímulos estressores é imenso e somos apenas humanos. Acredito que nós ainda não conseguimos uma adaptação/evolução adequada ao ambiente de trabalho que se modificou e acompanha o avanço das tecnologias com grande velocidade. Por mais equilibrados que sejamos, algum fator de estresse pode nos pegar desprevenidos, mesmo que algumas situações sejam contornáveis. Ainda somos vulneráveis ao estresse.
RH - O líder pode se defender do estresse?
Wagner Mesquita - Sim. Pode e deve. O estresse por definição é um desequilíbrio do indivíduo gerado por fatores múltiplos. Na prática, recomendo em parte, o que os estrategistas recomendam: identificar as causas e combatê-las. Outra parte da recomendação para a defesa contra os "agressores" à nossa saúde física e mental, são as receitas da vovó: ter uma alimentação equilibrada, dormir o suficiente, praticar esportes e atividades físicas, desenvolver um hobby - de preferência não relacionado ao trabalho, desenvolver atividades artísticas - música, dança, artes plásticas -, tempo para meditação e reflexão. Além disso, que é o básico, o bom líder deve fazer planos.
RH - E como o estresse pode ser evitado dentro do ambiente de trabalho?
Wagner Mesquita - Recomendo um bom planejamento, que é um "santo remédio" contra as situações estressantes. As tarefas de uma lista devem ser classificadas como urgentes e/ou relevantes. Considero uma tarefa urgente quanto ao tempo que disponho para fazê-la. Uma tarefa eu considero relevante quanto ao impacto que pode causar diretamente e seus desdobramentos. Posso ter, também, uma tarefa muito urgente, mas de baixa relevância. Então, posso delegá-la a alguém e cobrar resultados. As tarefas de alta relevância em qualquer situação, o líder deve cuidar pessoalmente.
RH - De que maneira a área de RH pode identificar se os líderes de sua empresa estão à beira de um ataque de nervos?
Wagner Mesquita - Criou-se ao longo dos anos na cultura empresarial, sob a influência do Taylorismo, o paradigma de que para ser eficiente precisa ter "cara feia". Não defendo que as áreas de trabalho sejam picadeiros. Contudo, o desgaste a que as pessoas são submetidas nas relações com o trabalho é fator muito significativo na determinação de transtornos relacionados ao estresse. Um agravante é a limitação que a sociedade submete as pessoas quanto às manifestações de suas angústias, frustrações e emoções. Por causa das normas e regras sociais as pessoas acabam ficando prisioneiras do "politicamente correto", sendo obrigadas a apresentar um comportamento emocional ou motor incongruente com seus reais sentimentos, especialmente quando se trata de líderes. Aos profissionais de RH recomendo uma coisa muito simples: andem pela empresa e observem quais áreas são oprimidas pelo politicamente correto. Basta exercitar a sensibilidade e observar nas faces dos líderes se expressam contentamento ou angústia.
RH - Quais os principais recursos que podem auxiliar a área de RH a identificar líderes estressados?
Wagner Mesquita - As pesquisas de clima são uma ferramenta que podem ser direcionadas para grupos específicos. Dessa forma, nossa amostra é focada na liderança. Outra ferramenta são os relatórios gerencias que denotam a produtividade dos envolvidos. Quando uma pessoa está depressiva, dificilmente consegue bater as metas estabelecidas. Em entrevistas de aconselhamento isso também é possível identificar. Conheço uma empresa que foi além: contratou uma psicoterapeuta que fica à disposição dos líderes algumas horas por semana, dentro da empresa. Os resultados têm sido bastante positivos, pois possibilita a identificação e a ajuda aos líderes que estão com estresse declarado.
RH - Que ações práticas a área de RH pode tomar para combater ou mesmo minimizar os níveis de estresse que afetam os gestores?
Wagner Mesquita - Criar uma cultura saudável na organização, em todos os sentidos. Educar as pessoas que ocupam posições de liderança trabalhando suas deficiências, seja do ponto de vista de comportamentos como capacitação técnica. Muitas vezes existem situações de estresse que poderiam ser minimizadas se as pessoas estivessem mais preparadas tecnicamente para enfrentá-las. Muitas organizações não cumprem seu planejamento de negócios porque não têm pessoas adequadas para isso. Daí, líderes despreparados tecnicamente podem gerar muitas situações de estresse, pois não atingem os targets e geram desconforto com reações e comportamentos inadequados.
RH - Investir nessas práticas requer obrigatoriamente investimentos elevados?
Wagner Mesquita - Não necessariamente. O RH pode e deve intervir na cultura e no ambiente da empresa de forma harmônica com o budget. Pequenas atitudes podem ser tomadas desde que devidamente implantadas, assimiladas pelas pessoas. A primeira prática é mexer nos hábitos ruins já enraizados. Tem líder que acredita que uma hora para refeição é um luxo de que não dispõe. Vamos fazer uma campanha pela boa refeição. Uma outra prática, melhorar a comunicação interpessoal. Montar projetos sociais e atividades que estimulem o trabalho em equipe e melhore relacionamentos. Outra medida seria montar grupos de estudo que promovam a solução de problemas comuns a todos os líderes. Na troca de idéias, você pode encontrar saídas para diminuição dos efeitos ruins do estresse e melhorar a forma de fazer as coisas - melhoria de processos.
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