Quando o tema espiritualidade surge no meio corporativo, algumas empresas sentem receio em se aprofundar no assunto, pois acreditam que com isso poderão gerar conflitos religiosos entre os colaboradores. No entanto, quando levada à realidade organizacional, a espiritualidade deve ser vista como algo inerente a todo ser humano e que, quando desenvolvida corretamente, pode melhorar as relações interpessoais e a qualidade de vida das pessoas. Mas, enquanto há empresas que resistem à espiritualidade, existem outras que até a estimulam e para isso, contam com a participação efetiva de líderes espiritualizados. "A espiritualidade, ao contrário da religião, independe do contexto cultural em que a pessoa vive", afirma o consultor organizacional Tadeu Alvarenga. Com formação internacional em Coaching, Integrative Coaching, Systemic Counselling e Solution-Focussed Coaching, Alvarenga já dedicou 16 anos de sua vida profissional ao estudo do comportamento humano e qualidade de vida.RH.COM.BR - Qual a diferença entre religião e espiritualidade quando levamos em consideração o ambiente corporativo?
Tadeu Alvarenga - Religião é algo cultural, enquanto espiritualidade é algo inerente a todo ser humano. Ninguém nasce cristão, budista ou mulçumano, mas todo ser humano nasce com um senso de propósito, com uma busca natural por clareza e direção. Este senso, esta busca estão, de certa forma, ligados ao que tem sido chamado, nos anos recentes, de Inteligência Espiritual. A dificuldade aqui é que, ao contrário da Inteligência Lógica (QI) e da Inteligência Emocional (QE), a Inteligência Espiritual (QS) não tem sido claramente desenvolvida pelos autores que abordam o assunto. Isto se deve, em parte, ao fato de estar naturalmente "como que fora" do alcance da linguagem falada ou escrita. Na realidade, a Inteligência Espiritual não é passível de ser descrita com palavras, mas apenas experimentada. E é por isto que eu gostaria de iniciar esta entrevista fazendo a você um convite: se você me permitir eu gostaria de realizar um rápido exercício para demonstrar a presença da Inteligência Espiritual em nossas vidas. Você me permite?
RH - Claro, fique à vontade.
Tadeu Alvarenga - Obrigado. Trata-se de um exercício muito simples e muito direto. Imagine a sua vida inteira como um filme, que começa com a sua primeira recordação e vem avançando, pela sua infância, pela sua adolescência, pela sua vida adulta, até o dia de hoje. Se você olhar com atenção, você muito possivelmente perceberá que existem momentos ou períodos de tempo que se destacam dentre os demais. Muitas pessoas os descrevem como sendo mais "vivos", mais "iluminados", mais "brilhantes" ou mais "nítidos" - ou se utilizam de uma outra metáfora para indicar que estas passagens em especial de suas vidas são qualitativamente diferentes das demais. Estes são momentos de Alto QS.
Se nós fôssemos olhar mais de perto estas passagens específicas de sua vida, nós veríamos que, são justamente os eventos e escolhas que fizeram de você o que você é hoje - que deram a você uma noção de sentido e propósito. Se repetirmos esta mesma experiência com pessoas de diversas origens, de diversos posicionamentos quanto ao tema religião - inclusive pessoas declaradamente atéias ou sem qualquer religião - nós veremos que, surpreendentemente, os resultados deste exercício seriam os mesmos. Isto porquê a espiritualidade, ao contrário da religião, independe do contexto cultural em que a pessoa vive.
RH - Por que algumas empresas ainda mostram certa resistência à espiritualidade?
Tadeu Alvarenga - Muitas pessoas e, entre estas, muitos dirigentes de empresas e muitos diretores de RH ainda confundem espiritualidade com religiosidade. Eu acredito que exista um receio, por parte destas pessoas, em criar polêmica ou atritos entre os colaboradores. Não existe, é claro, razão alguma para este receio. Como já vimos, em nosso rápido exercício, pode-se perfeitamente falar de espiritualidade sem se recorrer à religiosidade, e de uma maneira que será compreendida por todos, de ateus a evangélicos, de católicos a espíritas, independentemente do contexto cultural. Pode-se perfeitamente, e eu mesmo o tenho feito por diversas vezes, realizar um trabalho em uma empresa focado no desenvolvimento da Inteligência Espiritual sem sequer tocar na palavra espiritualidade, atingindo-se os mesmos resultados junto aos participantes.
RH - O que podemos considerar capital espiritual de uma empresa?
Tadeu Alvarenga - O capital espiritual de uma empresa é aquilo que faz a organização ser o que é. Entendendo que as empresas são organismos vivos, podemos inferir que estas se submetem às mesmas leis gerais dos organismos vivos. Aplicando o nosso exercício à realidade das empresas, podemos dizer que o capital espiritual são os eventos e as escolhas que contribuíram para formar a identidade da empresa, e são também os valores que a empresa representa ou busca representar junto aos clientes internos e externos. Podemos também dizer, sem medo de errar, que o capital espiritual da empresa é, de longe, não só o seu ativo mais importante como também o principal responsável pela continuidade da organização ao longo do tempo.
RH - Em alguns casos, a espiritualidade vem sendo percebida no estilo de liderar de certos profissionais. Quais as características de um líder espiritualizado?
Tadeu Alvarenga - O líder espiritualizado tende a ser percebido pelos que estão à sua volta como uma fonte de força e de equilíbrio, para a qual as pessoas tendem a se voltar instintivamente em busca de orientação. Esta percepção advém de uma conexão especial com o seu senso de propósito, com o seu próprio QS, que deverá estar, invariavelmente, integrado ao capital espiritual da organização.
RH - Que benefícios concretos a liderança espiritualizada traz às organizações?
Tadeu Alvarenga - O benefício imediato é um maior grau de felicidade no ambiente de trabalho, como conseqüente diminuição da rotatividade, melhora no desempenho e na qualidade dos relacionamentos interpessoais.
RH - O líder pode desenvolver sua espiritualidade ou essa é nata?
Tadeu Alvarenga - Existem processos que permitem ao líder desenvolver a sua espiritualidade. Estou falando de processos perfeitamente adequados, perfeitamente apropriados ao ambiente organizacional e que podem ser aplicados independentemente do background religioso do líder, assim como dos liderados. O coaching, por exemplo, pode ser de um auxílio inestimável neste sentido. Durante o processo de coaching, o líder pode perceber, por exemplo, gaps na sua comunicação com os liderados ou na sua performance como líder. Ele pode perceber tudo aquilo que separa o seu "Eu Atual" do seu "Eu Ideal" e desenvolver estratégias concretas para preencher este gap. Também existem exercícios práticos, como o que fizemos, que nos permitem acessar e desenvolver a nossa Inteligência Espiritual, o nosso QS, tornando-nos, por conseqüência, pessoas melhores, mais conscientes e com um maior grau de equilíbrio.
RH - Que mecanismos o líder pode utilizar no dia-a-dia para tornar sua equipe espiritualizada?
Tadeu Alvarenga - Criando um ambiente harmônico, de confiança e transparência para os funcionários. Estimulando o crescimento pessoal e profissional dos seus liderados. Sendo ético e coerente em suas atitudes. Também ajuda muito saber "desligar o Ego", quando necessário e deixar os outros brilharem.
RH - Estimular a espiritualidade nas empresas influencia a melhoria da qualidade de vida das pessoas?
Tadeu Alvarenga - Sim, e não só a qualidade de vida melhora como os relacionamentos tendem a fluir melhor com diminuição considerável do estresse organizacional. O ser humano é um "Todo". Qualquer um que se preocupe com a qualidade de vida do ser humano deve buscar atingir todas as partes deste "Todo". Deixar a espiritualidade "de lado" por si só já limitaria em muito qualquer tentativa de influir de forma positiva e duradoura na qualidade de vida das pessoas. Isto se torna ainda mais sério porquê a espiritualidade é justamente aquilo que integra as diversas partes que constituem o ser humano, conferindo um senso de unidade e direção.
RH - Investir em espiritualidade é sinônimo de ser ético e socialmente responsável?
Tadeu Alvarenga - Empresas não querem robôs. Empresas, empresas modernas e competitivas pelo menos, querem seres autônomos que sejam capazes de tomar decisões acertadamente. Você não pode programar ética em um robô. Decisões envolvendo princípios éticos são decisões altamente complexas que só são possíveis com o auxílio de uma Inteligência Espiritual altamente desenvolvida. Também são decisões de alto risco que podem afetar profundamente a imagem da empresa e causar prejuízos sensíveis na lucratividade. Investir no desenvolvimento da Inteligência Espiritual é a única forma de se motivar uma postura ética e responsável por parte tanto de líderes como de colaboradores. Códigos de ética empresarial poderão ser impostos, e poderão ser obedecidos ou não, mas estes de nada adiantam se não forem sentidos como realidade por aqueles a que estes se dirigem. Somente a Inteligência Espiritual pode garantir isto.
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