Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

Liderança. Será que esse tema já foi debatido suficientemente no meio organizacional? Por mais que já tenha sido debatida e sempre seja foco de estudiosos da área, a ação de liderar pessoas sempre trará novidades ao meio corporativo. Isso porque as empresas são formadas por pessoas que precisam adaptar-se a realidades inovadoras e estão ao alcance de informações que chegam a uma velocidade cada vez maior.
Então, que competências são consideradas indispensáveis aos profissionais que exercem o papel de líder ou que estão sendo preparados para conduzir equipes? Quem responde essa e outras questões é o consultor organizacional Paulo Alvarenga - sócio-diretor da Crescimentum e um dos autores do livro "Gigantes da Liderança", publicado pela Editora Resultado. Segundo ele, infelizmente, hoje as empresas têm equipes mais reduzidas e é preciso a presença de líderes que façam a diferença. "Utilizar a arma secreta dos grandes líderes a ferramenta coaching, é uma das dicas para se aplicar o empowerment", menciona Alvarenga, ao se referir à delegação de poderes aos liderados. De forma objetiva, a entrevista traz à tona questões relacionadas ao que as empresas esperam dos líderes do momento presente e do futuro. Boa leitura!
RH.COM.BR - Hoje, não mais se concebe a atuação de um líder como sendo apenas um profissional responsável pela delegação de atividades. A partir da década de 90, os líderes passaram a desenvolver novas competências para gerir, entender as pessoas que integram sua equipe. Atualmente, qual o maior desafio que as lideranças enfrentam no meio organizacional?
Paulo Alvarenga - Principalmente no momento atual em que o mundo vive os reflexos da crise, sem dúvida alguma, o maior desafio das lideranças é gerar o engajamento dos seus liderados, é despertar o "querer fazer" de cada um para se tornar um verdadeiro "dono do negócio". Mas, para isso, o líder tem que ser engajado também. Segundo uma pesquisa feita pelo Tower Perrin - ISR, é comprovado que o engajamento dos colaboradores tem um impacto direto na performance financeira da empresa de 30% a mais.
RH - Por trás do grande desafio dos gestores, quais fatores contribuem para essa realidade vivida no dia-a-dia corporativo?
Paulo Alvarenga - Cada vez mais as empresas trabalham com equipes mais enxutas, multidisciplinares. A exigência pela maior qualidade, a agilidade, a concorrência acirrada, as metas desafiadoras e o resultado rápido são fatores que contribuem para essa realidade. Isso exige que todos se tornem verdadeiros atletas corporativos. O único problema é que esses "atletas" não treinam como um atleta de elite.
RH - Existe uma forte tendência das organizações formarem equipes que possam se autogerir. Ou seja, o gestor passou a delegar mais responsabilidades aos seus subordinados. Isso afeta, de alguma forma, a importância da atuação do líder?
Paulo Alvarenga - Se pensarmos nos grandes líderes da nossa história, eles já faziam isso, formavam novos líderes, ensinavam, delegavam, davam feedback e gradualmente tornavam-se desnecessários. Eles preparavam as pessoas para qualquer desafio e não eram centralizadores, com isso tinham mais tempo de pensar na estratégia e na formação de suas equipes. Na minha opinião isso afeta sim a importância da atuação do líder e para melhor, pois esses líderes tornam-se verdadeiros líderes inspirados e construtores de equipes de alta performance.
RH - O empowerment já é uma realidade para muitas empresas brasileiras?
Paulo Alvarenga - Já é uma realidade que em muitas empresas esse processo ainda não é utilizado e feito de maneira para gerar o desenvolvimento dos liderados, pois muitos líderes ainda são centralizadores e desenvolveram modelos mentais que impossibilitam o empowerment. Por exemplo, existem líderes que têm o seguinte modelo mental "Se você quer algo bem feito, faça você mesmo". A consequência desse modelo mental é um comportamento de hands on - mãos na massa do líder, pois ele se torna um operacional e não desenvolve o seu time.
RH - Quais as principais etapas para se implantar o empowerment?
Paulo Alvarenga - Não existe muita receita de bolo, pois cada ação depende da composição da equipe e do CHA de cada um, dos Conhecimentos, Habilidades e Atitudes. Mas, podemos dar algumas dicas sobre o empowerment. Dentre essas, podemos destacar que é preciso:
- Conhecer o time. Para isso, o líder deve ficar mais próximo para descobrir os motivadores de cada um.
- Entender o perfil comportamental de cada integrante da equipe, para poder extrair o máximo potencial, para isso você pode utilizar a ferramenta DISC (pesquisar Marston Moulton).
- Conhecer o nível de maturidade dos integrantes da equipe.
- Fazer uma relação dos Conhecimentos, Habilidades e Atitudes.
- Estabelecer acordos de convivência para abertura ao feedback.
- Delegar de acordo com o grau de maturidade, CHA e perfil comportamental.
- Por último, utilizar a arma secreta dos grandes líderes a ferramenta coaching, fazer muitas perguntas ao invés de dar respostas diretas.
RH - Esse processo é aconselhável para qualquer empresa ou há restrições?
Paulo Alvarenga - Esse processo é aconselhável para qualquer pessoa, pois sempre devemos lembrar que as empresas são compostas de pessoas, independente da área de atuação.
RH - A presença do gestor sempre será necessária, mesmo que sua equipe seja composta por profissionais altamente qualificados?
Paulo Alvarenga - No ano passado alguns consultores da nossa empresa, a Crescimentum, foram ao Congresso de Liderança nos EUA, The Guild, onde um maestro falou sobre liderança. Ele entrou com a sua orquestra e disse: "Olha como eles são bons mesmo sem a minha presença". Ele se retirou e os músicos tocaram uma música inteira sem a presença do maestro. Foi muito bom, mas, o maestro retornou e disse "Agora eu vou tocar a mesma música, só que eu vou conduzi-los". Foi extremamente brilhante, de arrepiar, no final da música ele disse: "Isso é liderança, quando eu não estou presente, eles fazem o que tem que ser feito e fazem muito bem, pois eu os treinei. Mas quando estou presente eu extraio o melhor de cada um, tornando-os uma equipe de alta performance.
RH - A tendência do mercado é ter uma menor quantidade de lideranças atuando nas organizações?
Paulo Alvarenga - Não vejo isso como tendência. O que acontece hoje é que temos equipes mais reduzidas e, para isso, precisamos de líderes que fazem a diferença - um líder que tem um número grande de reportes diretos terá um desafio enorme de desenvolvê-los. Existe um número mágico de reportes diretos que são dez liderados, para usar o conceito de "starfish", corta um pedaço e cria mais uma equipe.
RH - Quais as competências que garantirão um líder destacar-se em um mercado tão competitivo?
Paulo Alvarenga - O líder deve trabalhar para se tornar gradualmente desnecessário e se tornar um verdadeiro líder do futuro, uma liderança que desenvolve novos líderes, um líder coach. Para isso ele deve saber a sua missão de vida e ter uma visão de futuro; conhecer a si mesmo; conhecer os seus valores e os vivenciar; saber a diferença entre liderar e gerenciar; respeitar a diversidade e sabe se relacionar; saber dar feedback; ser um coach; ter uma vida equilibrada e integridade.
RH - Quais as suas expectativas para a atuação dos líderes em médio e longo prazo?
Paulo Alvarenga - As minhas expectativas são as melhores possíveis. Queremos desenvolver um líder diferenciado, ético, que revolucione suas vidas e as vidas das pessoas ao seu redor. Quero ver um líder que deixe a sua marca e desenvolva novos líderes.
Palavras-chave: | Paulo Alvarenga | liderança | competitividade |



