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03/05/2010
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As empresas precisam de líderes nexialistas

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

O ato de liderar é inerente à existência humana e no decorrer dos milhares de anos de sua evolução, o homem desenvolveu determinadas competências que permitiam algumas pessoas destacarem-se das outras. E os líderes encontram-se presentes nos mais variados momentos da história, participando ativamente de movimentações religiosas, filosóficas, científicas e, obviamente, empresariais. Afinal, as organizações são formadas por pessoas e essas, por sua vez, formam equipes que têm à frente a atuação direta de uma liderança. Mas, qual será o real papel do líder? Ele deve, obrigatoriamente, conduzir todos os processos, centralizar decisões estratégicas e apenas delegar ordens?

"O líder deve deixar de ser ator para ser mentor", afirma Walter Longo, vice-presidente da Young & Rubicam e mentor de Estratégia e Inovação do Grupo Newcomm. Em entrevista ao RH.com.br, o executivo que se destaca por sua experiência profissional, afirma que o processo de gerir pessoas passou por mudanças significativas no que tange empresas e funcionários. No entanto, tudo ocorreu de forma assíncrona. "Hoje o profissional precisa ter uma cabeça de hiperlink, ou seja, mesmo que ele não detenha todo o conhecimento deve saber como encontrá-lo e usá-lo da forma correta", enfatiza. Confira a entrevista na íntegra e aproveite cada linha dessa leitura!

RH.com.br -
O senhor possui quase 35 anos de profissão atuando nos mais variados segmentos corporativos. Nesse período, que mudanças mais se destacaram entre os gestores?
Walter Longo -
A mudança ocorreu quando saímos da ênfase da performance individual para o trabalho em grupo, pois foi evidenciado nas empresas o estímulo ao comprometimento e à capacidade de trabalho das equipes. Destaco, ainda, a chegada das lideranças de "homens de negócio" para a saída das lideranças dos "homens do negócio". Chegaram ao comando das empresas pessoas sem amor, sem paixão. A liderança tem sempre que amar aquilo que faz. Antes de sermos profissionais, temos que ser amadores.

RH -
Essa mudança deveria ser mais rápida ou ocorreu no ritmo certo?
Walter Longo -
Na verdade, houve uma mudança assíncrona em relação às empresas e aos funcionários. Antes, ouvia-se o funcionário afirmar que se sentia parte da empresa. Com o surgimento do "profissionalismo", as pessoas passaram a se considerar "Você S.A". E ainda tivemos o fenômeno das aquisições e fusões que ocorreram nas empresas. Hoje, os colaboradores se veem como pessoas que depositam seu capital intelectual na empresa como se ela fosse um banco. E a remuneração pelo capital intelectual investido é o salário que recebem. Dizem: "Hoje eu tenho o meu capital intelectual investido aqui e se esta empresa não pagar adequadamente os juros que eu acho que mereço, vou para outro banco". Observa-se que existe uma sensação de perda do envolvimento, dos sentimentos e a relação empresa-funcionário tornou-se mais vulnerável, fragilizada. Essa mesma evolução também envolveu um processo de mudanças relacionadas a valores, e comportamento. As teorias de Taylor e Fayol destacavam um processo rigoroso. Hoje não temos mais tempo para ficarmos parados. A tecnologia muda rapidamente, mas as pessoas não. Vemos que hoje os profissionais continuam viajando de um lado para o outro, quando poderiam usar o skype ou a vídeo-conferência para participar de uma reunião, por exemplo. Mas existe uma tendência de resistência às inovações e as pessoas continuam optando pelo deslocamento.

RH -
Isso nos leva a pensar que as mudanças também impactaram nas escolas de líderes?
Walter Longo -
Nas escolas também ocorreram mudanças. Hoje, vê-se que os MBAs estão formando profissionais para resolver problemas, mas ninguém para "criar problemas" ou gerar desafios para depois liderar a equipe na busca de soluções. Não formamos líderes, mas sim liderados, pois quem pensa o impensável não tem mais espaço nas organizações. E uma grande empresa, ou grande país, não se faz apenas disseminando cultura e sim nutrindo rebeldes. As pessoas estão quase sempre podadas na sua motivação de inovar e assumir riscos. Quem mais tem espaço são as que mais se escondem no anonimato. Fala-se na preocupação com o bem-estar, com o clima, mas não vemos a preocupação para estimular a capacidade de questionar, porque é isso que alimenta os rebeldes. São esses profissionais rebeldes que fogem às regras, que quebram paradigmas. Quem não der um salto para a inovação não evolui.

RH -
Qual a competência comportamental que o senhor considera indispensável naqueles que estão à frente das equipes?
Walter Longo -
Vai depender do tipo de liderança que nos referimos. Existe, por exemplo, aquela que trabalha com o medo e aquela que trabalha com a motivação. Os gestores que nutrem os rebeldes apóiam o ponto de vista do risco e da ousadia, amam o seu ofício e são os profissionais que fazem acontecer. O líder deve gerar a visão e mostrar que está por trás de cada um dos liderados, estimulando a inovação e a quebra de paradigmas. O bom comportamento ainda é o último recurso dos medíocres.

RH -
A liderança forma-se através de treinamentos técnicos e comportamentais ou é preciso que o profissional traga algo a mais dentro de si?
Walter Longo -
Existem características natas que são mais de postura e personalidade. Mas todas as pessoas estão ou podem ser preparadas para serem líderes. Isso, no entanto, vai depender do momento que se vivencia e do esforço de cada indivíduo. Lógico que há aquelas pessoas que têm mais atitude e postura para liderar do que outras, Mas, acredito que todos podem chegar lá.

RH -
O que mais o preocupa na atuação de uma liderança?
Walter Longo -
A necessidade de querer continuar sendo sempre fundamental para a empresa. O verdadeiro líder é aquele que se torna gradativamente desnecessário. O comportamento de querer ser imprescindível é um equívoco comum na liderança das empresas, porque as pessoas valorizam a posição que se encontram e tentam se segurar onde estão. Quando abrem espaço para outros profissionais se sentem inseguras. Mas quando o fazem, na verdade abrem dois espaços: para o que vem de baixo e para ele mesmo. A função do líder é se transformar de ator em mentor, de executor em inspirador.

RH - Os líderes brasileiros possuem peculiaridades na forma de conduzir suas equipes, quando comparados aos gestores de outros países?
Walter Longo - Eu diria que o gestor brasileiro acostumou-se a viver em um ambiente de instabilidade, gerando em cada um a capacidade de aceitar a inovação com enorme velocidade. Isso fez com que esse profissional usasse muito mais a sua intuição e o instinto para atuar diante do inesperado. A intuição e a adaptabilidade tornaram-se importantes motivos para a contratação de profissionais brasileiros no Exterior.

RH - Qual a tendência para a atuação dos gestores seja no Brasil ou no Exterior?
Walter Longo - Primeiro destacaria que há uma tendência para uma menor valorização da educação formal e mais valor para a experiência e a informação líquida. Os paradigmas estão focados nas learning organizations, organizações que aprendem, que são aquelas de estão dispostas a rever paradigmas. Saímos de um período dos generalistas para os especialistas. E agora estamos migrando para a fase dos nexialistas, pessoas que não tem a resposta para tudo, mas sabem onde buscar a solução, com isenção e visão gestáltica. Hoje o líder precisa ter uma cabeça de hiperlink, ou seja, transformar-se num nexialista capaz de não deter todo o conhecimento, mas ir fundo naquilo que interessa e saber liderar sua equipe na busca da solução ideal. O nexo, ou a falta dele, está transformando-se numa importante barreira de evolução organizacional. Caberá aos novos líderes trazer o nexo de volta às decisões empresariais.

 

Palavras-chave: | Walter Longo | liderança |

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COMENTÁRIOS (8)
Alexandre Ossucci em 29/05/2010:
Pessoal, parabéns pelo formato dessas entrevistas, diretas e mexem com a gente. A liderança colocada pelo Walter Longo ficou muito boa. Parabéns !!!!

suelem Antunes de oliveira em 24/05/2010:
O setor de Recursos Humanos hoje em dia se tornou fator fundamental no meio empresarial.Estou me especializando na aréa Administrativa.E acho muito importante esclarecer certas duvidas sobre o assunto. SUELEM ANTUNES

Bruna em 12/05/2010:
Parabéns pela matéria! A entrevista trouxe pontos muito importantes para que os líderes possam repensar suas atuações.

Bárbara Borges em 11/05/2010:
Excelente entrevista! Parabéns à Patricia e ao entrevistado. Simples e objetivo, diz o que é necessário sem máscaras de ingenuidade e sem ser agressivo. Na medida para gestores e profissionais de RH que precisam ter claros esses conceitos e fazer uso deles no dia a dia.

Barbara em 10/05/2010:
Prezados Senhores, Agradeço por essa maravilhosa matéria, sempre admirei o trabalho do Walter Longo, me identifico muito com o perfil dele e admiro a maneira como ele conduz as coisas, estás fazendo muita falta do Aprendiz assim como o Roberto Justus também... A liderança demonstrada por eles é inquestionável e será sempre minha base para liderar cada vez melhor... Espero que a equipe continue assim, buscando ótimos profissionais para as entrevistas! Obrigada pela atenção, Bárbara Flaviane Pereira Contadora e Pós-graduanda em Finanças e Controladoria São Paulo/SP

Julio Santos em 08/05/2010:
Muito boa a entrevista e as respostas realmente estão alinhadas com o que eu penso. Parabéns!!

Rosane Meireles Lopes em 07/05/2010:
Textos como estes são importantíssimos para esclarecer aos "lideres" sobre o seu papel de mentor, realmente, qualquer pessoa pode se tornar um lider se for bem direcionado pelo seu mentor. Sabemos que algumas pessoas trazem em sua maneira de ser qualidades, como por exemplo: a desenvoltura, dinâmica, facilidade de comunicação, que facilitam para o mentor o seu trabalho na formação de líderes. Gostei muito desta entrevista. Parabéns a Patrícia Bispo e à equipe do site, as leituras são enriquecedoras e já usei de algumas para esclarecer pontos obscuros em algum entendimento dentro desse amplo universo que é a gestão de pessoas.

diene em 05/05/2010:
Bom dia, mas uma vez nos surpreendendo heim? Este texto é realmente tudo o que precisamos saber sobre os líderes, espero que alguns líderes também possam ler e aprender um pouquinho mais sobre o mundo deles. Valeu.. Um grande abraço Diene Santos

 
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