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31/07/2006
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Ergonomia e motivação no trabalho

Por Magali Guimarães para o RH.com.br

É elevada a preocupação de gestores e acadêmicos com questões ligadas ao ser humano e sua relação com o trabalho. Isto pode ser confirmado no grande número de eventos e publicações dedicadas a essa temática. Nem por isto, parte destas preocupações constitui-se em algo novo. Parecem repetir anseios e dificuldades vividas desde que o homem inseriu-se em um sistema de produção. Principalmente, a partir do sistema capitalista de produção na qual a venda da força de trabalho passou a existir. Provavelmente, mesmo em períodos anteriores, senhores feudais e senhores de escravos também se preocupavam com o desempenho ou com a "preguiça" de seus servos e escravos.

Aqui, não se deseja comparar gestores aos senhores, nem tampouco, trabalhadores aos servos e escravos, apenas chamar a atenção para a antiguidade destas preocupações que, apesar de toda transformação do mundo do trabalho, ainda se fazem presentes. Tornam-se repetitivas as queixas e os textos que exaltam a necessidade de motivação e de comprometimento dos trabalhadores.

Muito já é sabido, basta consultarmos os anais de eventos científicos que apreciaremos uma gama de pesquisas que identificam aspectos organizacionais que contribuem para o comprometimento ou não do trabalhador. Contudo, parece que poucos gestores interessam-se por este tipo de leitura, ou mesmo, em buscar uma solução mais eficaz para os problemas ligados ao comportamento humano. Nós mesmos, constantemente recorremos a explicações simplistas, onde culpar o outro ou a "natureza humana complexa" torna-se uma saída menos dispendiosa, em termos emocionais e cognitivos. Afinal, diminui o custo cognitivo de buscar explicações e soluções que escapam à "viseira" do senso comum.

O trabalho em si parece não se constituir em problema para muitos de nós. Não é de hoje que foram identificados os benefícios do trabalho ao homem. Raramente é necessário dizermos a alguém que ele precisa trabalhar, pois é algo que faz parte de nossa regra social. Mas, a questão é: por que perdemos a motivação para o trabalho? Por que muitos de nós nos tornamos infelizes trabalhando?

Boa parte de nós insere-se em um novo contexto de trabalho motivado. Não obstante, a motivação inicial vai desaparecendo. A solução para muitos gestores é recorrer às palestras motivacionais. Nestas, exalta-se a necessidade do trabalhador sentir-se motivado. "Sonhe! Deseje! Elabore metas!", aconselham os confusos, mas alegres palestrantes. Contudo, não estarão eles presentes no cotidiano dos trabalhadores, senão, veriam quão desconexas acabam sendo suas recomendações. Há pouco tempo, um grupo de alunos levou para sala de aula, um vídeo no qual o palestrante falava de "trabalhadores gatos e cachorros". Triste comparação fazia entre o comportamento humano e animal. Desejava ele que nos tornássemos "trabalhadores cachorros": dóceis e abanando o rabinho, mesmo quando maltratados pelo dono. Bem, pelo menos o vídeo serviu para uma discussão sobre o cuidado que o gestor deve ter com vídeos e palestras motivacionais e com a tendência de culpar os trabalhadores pela falta de motivação.

Sem a intenção de dar uma receita, mas ao mesmo tempo, não querendo dizer somente "o quanto este tema é complexo'" o objetivo principal é chamar a atenção para a necessidade de análises mais acuradas dos contextos produtivos. A própria ergonomia, ainda desconhecida por muitos gestores, tem apontado para este caminho, demonstrando que os contextos de trabalho atuam de diferentes formas sobre os trabalhadores. Exigem destes em termos afetivos, cognitivos e físicos, afetando as vivências e sentimentos que os trabalhadores formam a partir [e sobre] este contexto. Tais vivências e sentimentos interferem no comportamento e nas atitudes dos mesmos. Partindo da análise de situações reais de trabalho, os ergonomistas têm demonstrado que muito do que se explica pela falta de motivação, está na verdade na organização do trabalho [por exemplo, na distância entre o que é previsto ou exigido nas normas e o que é possível ou realmente feito pelo trabalhador], nas relações sócioprofissionais [nem sempre saudáveis entre colegas, superiores e clientes], nas condições de trabalho dadas ao trabalhador [estrutura física, equipamentos e instrumentos também nem sempre adequados à realização eficaz das tarefas]. Na dinâmica da atividade de trabalho, onde a interdependência destes elementos estrutura e dá forma a um contexto produtivo determinado, aliada às possibilidades/competências dos trabalhadores, resultará um trabalhador motivado, feliz e comprometido, ou o seu oposto.

Tal análise permite sair da visão reducionista em relação às atitudes e ao comportamento humano, estabelecendo um nexo entre estes e as características do contexto produtivo. Podemos afirmar que indo além do que aparece, poderemos compreender um pouco mais sobre "porque muitos de nós nos tornamos infelizes trabalhando".

Domenico De Masi também refletiu em seu livro "O Futuro do Trabalho" sobre os motivos desta infelicidade. Retratou, por meio do que ele chamou de "oito peças de acusação", a imagem triste e ainda atual das organizações, com suas contradições, perversidades e frieza [estética e relacional]. Cabe a nós, pesquisadores, trabalhadores e principalmente aos gestores, criar uma nova imagem a ser novamente retratada ainda neste início de milênio.

Palavras-chave: | ergonomia | motivação |

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COMENTÁRIOS (1)
danielle em 12/09/2009:
Achei o máximo esse texto sobre ergonomia, pois estou cursando o 7 período de administração, é o meu grupo resolveu falar sobre ergonomia. No começo achei um absurdo o que tem haver com à administração, agora eu entendo que para ser um bom administrador não precisa só visar o lucro, mas sim a qualidade de vida de seus funcionários, tornando-os mais produtivos, consequentemente o lucro aumentará. Meus parabéns para a autora Magali Guimarães que escreveu um belissímo texto com um tema tão pouco abordado.

 
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