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24/07/2006
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Valorização do capital humano

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Ao contrário do que muitos imaginam, as ações motivacionais não são restritas apenas a programas de premiações, salários atraentes ou cestas recheadas de benefícios diferenciados. Se assim o fosse, as grandes e estruturadas empresas não se preocupariam e estariam sempre atentas aos índices de rotatividade. Claro que incentivos externos pesam na satisfação dos colaboradores, mas nem sempre são suficientes para reter talentos. Se essas ações não são suficientes para assegurar a motivação, então, o que mais pode ser feito? As organizações também precisam ficar atentas à valorização do ser humano, considerando não apenas o lado material, mas também as relações interpessoais e como o profissional se sente diante do papel que exerce diante do negócio. É necessário, em alguns casos, observar e deixar de lado a arrogância e o orgulho que podem contaminar profissionais que assumem determinadas funções de destaque, uma vez que o comportamento dos gestores influencia e compromete diretamente o clima organizacional. Por isso, é salutar rever constantemente conceitos e atitudes. Para falar sobre a valorização do capital humano e saber que fatores influenciam a motivação corporativa, o RH.com.br entrevistou, Ediberto Tadeu Pedroso. Pesquisador em comportamento organizacional, ele afirma que com a presença das mudanças as empresas passaram a praticar uma gestão mais humanizada. "A sinceridade transformou-se em qualidade essencial para o bom relacionamento entre as pessoas, daí porque o gestor de pessoas necessita merecer a confiança", ressalta. Confira a entrevista na íntegra e aproveite a leitura!

RH.com.br - O mundo vive um constante processo de transformação. Nesse contexto, o que mudou para as empresas?
Ediberto Tadeu Pedroso - Como a globalização já é um fato consumado, não há mais condições de as empresas sustentarem o tradicional mote de que "o único objetivo é atingir a máxima lucratividade", como se o lucro fosse o fim em si mesmo. Nos dias atuais, quem insistir nesta forma ultrapassada de pensar, neste velho estilo de agir econômico, estará pondo em risco a sobrevivência da própria organização. Dizia um importante executivo americano que "a estupidez é infinitamente mais fascinante que a inteligência, pois a inteligência tem limites e a estupidez, não". Quem se arriscaria a tentar motivar seus funcionários pedindo-lhes para que, diariamente, acordem cedo, pulem da cama e trabalhem com entusiasmo para aumentar a riqueza dos acionistas? Muitas decisões tomadas pelos administradores exigem que sejam levadas em conta as pessoas que serão afetadas, tanto em termos do resultado como do processo.

RH - Essas transformações foram favoráveis aos colaboradores?
Ediberto Tadeu Pedroso - Eu diria que esse processo de transformação apenas começou. Apesar de haver contradições e patologias nas organizações modernas criadas pela tecnologia, pela lógica de mercado, pelo lobby, pela especulação financeira e leis injustas, que visam tão somente a concentração de rendas, há que se contabilizar também os aspectos positivos sinalizados nesse processo, que são favoráveis aos colaboradores. Por exemplo, até a alguns anos, considerava-se empresa moderna aquela que investia pesadamente em maquinário e sistemas. Atualmente, as organizações estão correndo atrás daquilo que se pode definir como a última descoberta da tecnologia: o ser humano.

RH - Com a presença das mudanças, podemos afirmar que as organizações passaram a ficar mais voltadas a praticarem uma gestão humanizada?
Ediberto Tadeu Pedroso - De fato, com a presença das mudanças as organizações passaram a praticar uma gestão mais humanizada, mas não só em relação aos colaboradores ao se estender, também, aos seus stakeholders, ou seja, aos que de forma direta ou indireta contribuem para o bom desempenho da empresa como, por exemplo, acionistas ou proprietários, colaboradores, clientes, fornecedores e distribuidores, concorrentes, governantes e membros da comunidade em que a organização está inserida. Para exemplificar, podemos citar a instituição do ombudsman que está disseminando-se rapidamente entre as organizações, cujo papel central é a proteção dos direitos individuais e fiscalização das leis.

RH - Qual o perfil de uma empresa que valoriza o ser humano?
Ediberto Tadeu Pedroso - Como há pessoas que desculpam os erros, não a farsa, a autenticidade torna-se cada vez mais necessária e importante numa sociedade em que a farsa é o comportamento mais comum para vencer ou sobreviver na crescente competição. A sinceridade transformou-se em qualidade essencial para o bom relacionamento entre as pessoas, daí porque o gestor de pessoas necessita merecer a confiança. Penso que o mundo de hoje tem necessidade de autênticos gestores de pessoas que saibam organizar a vida, saibam prever os percursos, compreendam que quanto mais pensam nos outros tanto mais são carismáticos, sem trair a própria humanidade e, sobretudo, a própria identidade. Portanto, o perfil de uma empresa que valoriza o ser humano deve levar em consideração pontos essenciais: mudar seu estilo de agir econômico, para lograr a busca contínua do equilíbrio entre objetivos econômicos e objetivos sociais.

RH - Que benefícios a visão de gestão humanista traz às empresas em todo seu conjunto?
Ediberto Tadeu Pedroso - Um dos benefícios que essa visão de gestão humanista traz às organizações, inegavelmente, é um novo estilo de agir econômico, onde o lucro passa a ser considerado meio e não fim em si mesmo. E assim, na medida em que os trabalhadores tornam-se conscientes de que não trabalham somente para o próprio bem-estar ou o da empresa, mas por uma finalidade social que tem dimensões nacionais, os objetivos organizacionais passam a constituir um incentivo à produtividade, trazendo, em contrapartida, substanciais progressos no relacionamento entre empresários, trabalhadores e empresa. Comprovadamente, a prática vem demonstrando que a produtividade e a solidariedade podem andar juntas.

RH - Investir na valorização do homem é um caminho garantido para o sucesso de uma empresa?
Ediberto Tadeu Pedroso - Curiosamente, ainda é elevado o número de executivos que encontram dificuldades para manter relacionamentos sociais e profissionais, sobretudo com pessoas que executam atividades pouco nobres ou rotineiras. Os profissionais que conseguem alcançar um elevado status organizacional desenvolvem, ao mesmo tempo, um espírito de arrogância e de falta de compreensão para com as pessoas menos qualificadas. A competência interpessoal não é um luxo, é uma necessidade, considerando que uma das mais complexas tarefas enfrentadas pelos executivos é a de lidar com o ser humano. Daí porque investir na valorização do homem é caminho garantido para o sucesso da organização.

RH - Organizações que não valorizarem seus profissionais fatalmente perderão espaço no mercado?
Ediberto Tadeu Pedroso - Com a radical mudança de comportamento da sociedade, as empresas estão começando a investir na valorização do homem. Basta observar que, apenas algumas décadas atrás, a sociedade não tinha voz e vez. Hoje em dia, não são apenas as organizações que ditam as regras de mercado. A própria sociedade possui importantes mecanismos de pressão social como, por exemplo, o Código de Proteção do Consumidor que, recentemente, teve seu poder ampliado após parecer final dado pelo Supremo Tribunal Federal incluindo, também, os serviços bancários. Portanto, as organizações que não valorizarem seus profissionais inegavelmente perderão espaço no mercado.

RH - Então, valorizar as pessoas tornou-se uma estratégia competitiva?
Ediberto Tadeu Pedroso - Você disse bem. Valorizar as pessoas tornou-se uma estratégia competitiva. Veja bem, ao se falar em estratégia competitiva pensa-se imediatamente em marketing estratégico. Por quê? Porque é papel de marketing contribuir com estratégias competitivas para conquistar mercados. Por isso, há correntes que destacam a importância tanto de clientes externos, quanto de clientes internos. E os clientes internos nada mais são do que os colaboradores diretos da organização. De forma mais sofisticada, há os que defendem a importância do endomarketing. E o que é o endomarketing, senão o marketing feito para dentro da organização, buscando valorizar os colaboradores, por serem fundamentais na conquista da produtividade e lucratividade.

RH - Geralmente, onde as empresas erram ao implantar ações que visam valorizar o potencial humano?
Ediberto Tadeu Pedroso - Inúmeros são os fatores que podem levar ao fracasso um programa de valorização do potencial humano. Uma das falhas na valorização do potencial humano, por exemplo, está em menosprezar a confiança. Ou seja, delegar sem confiar, isto é, delegar apenas formalmente, mas sem permitir autonomia nas ações. É a chamada delegação de direito, mas não de fato. Um outro erro freqüentemente cometido é a valorização feita de forma discriminada ao demonstrar preferências por este ou aquele colaborador. Uma terceira falha é a prepotência. E explico. Raros são os executivos que descem ao nível de seus subordinados para ouvi-los e entendê-los. Comumente, é o superior hierárquico que exige que seu subordinado eleve-se ao seu nível para melhor entendê-lo em suas determinações, sem que se precise detalhar as orientações já transmitidas.

RH - Essa valorização significa obrigatoriamente altos investimentos?
Ediberto Tadeu Pedroso - Não necessariamente. A valorização, às vezes, depende mais da forma de relacionamento superior-subordinado do que no treinamento de técnicas de execução da atividade operacional, propriamente dita. Por exemplo, dizer a quem está sendo delegado que compete a ele trazer soluções à organização e não problemas é uma das formas eficazes de demonstrar confiança incondicional, de demonstrar que ele tem liberdade de ação, de estimular a sua criatividade. É mostrar-lhe que a dificuldade é a mãe da criatividade. Um outro passo fundamental é mostrar que todos, indistintamente, são importantes na organização, desde o executivo até o mais humilde colaborador.

RH - Qual a importância do profissional de RH no processo de valorização do ser humano?
Ediberto Tadeu Pedroso - Um dos importantes papéis do profissional de RH é o de manter a motivação do pessoal, pois colaborador motivado é colaborador valorizado. Um profissional de RH moderno, competente, dinâmico, vai ter condições de bem motivar e orientar o pessoal. Vai mostrar que, no exercício de sua profissão, o colaborador deve confiar sempre, mas nunca imaginar que as pessoas não possam se enganar ou enganar. Vai mostrar-lhe: que não se deve empregar energias para derrubar concorrentes, e sim para superá-los em competência; que não deve trabalhar demais, e sim melhor; que deve sempre fazer opções ricas e nobres, afastando-se de tudo o que for mesquinho; que não deve manipular as pessoas, mas ser leal com todos, pois só agindo assim será respeitado e terá amigos; que não deve ter apenas princípios, mas também valores, pois são eles que dão sentido, direção e mérito à profissão e à vida.

RH -A presença de um RH estratégico fortalece a cultura de valorização do ser humano?
Ediberto Tadeu Pedroso - Só onde houver a presença de um RH estratégico será possível fortalecer a cultura de valorização do ser humano. Isto porque a unidade de RH deve ser parte da estratégia da organização, deve implementar procedimentos de Recursos Humanos para atender à legislação brasileira nas esferas municipal, estadual e federal e atender às tendências da sociedade.

RH - Nesse caso, quais seriam as principais metas a serem atingidas por um RH estratégico?
Ediberto Tadeu Pedroso - Dentro desse contexto, a unidade de RH deve buscar atingir três metas dentro da organização. A primeira é atrair uma força de trabalho efetiva através do planejamento de Recursos Humanos, recrutamento e seleção de pessoal. A segunda está voltada a desenvolver uma força de trabalho efetiva, através de programas de orientação e treinamento. A terceira meta compreende manter um quadro de colaboradores efetivos. Assim, um eficaz gestor de pessoas deve manter um saudável relacionamento pessoal com os funcionários para conseguir um melhor desenvolvimento e máxima utilização do potencial humano. O gestor atua como se fosse um maestro que rege uma orquestra. Conhece todos os instrumentos, tem especialidade em alguns deles, mas, acima de tudo, deve ser um hábil coordenador. Deve criar condições, para que a orquestra consiga desempenhar o seu papel, ou seja, executar com perfeição as peças musicais e assim sensibilizar o público.

Palavras-chave: | valorização | gestão | humanizada | Ediberto Tadeu Pedroso |

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COMENTÁRIOS (1)
VALODIA TEIXEIRA - ANGOLA em 11/08/2009:
Achei essa entrevista muito interessante, e espero que empresários tenham lido também para entenderem que o mundo de hoje mudou, as conciências das pessoas, sobretudo. Gostei muito da parte que fala sobre as metas atingir de um profissional de RH. Desejo força a vossa equipe que continuem com estes tipos de artigos e entrevistas com profissionais de RH. um abraco para vcs.

 
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