Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

A gestão do clima organizacional nunca foi alvo de tanta análise no meio organizacional e a realidade mostra que daqui para frente, preocupação com o que ocorre nas empresas e envolve diretamente os colaboradores só tende a aumentar. Isso não é por acaso, lógico. Afinal, se as pessoas movem as organizações, nada mais natural e saudável que os dirigentes adotem ferramentas que mensurem indicadores que revelem como está o clima interno. Se os colaboradores estão satisfeitos é natural que apresentem um engajamento e uma performance positivos que impactem diretamente no negócio.
Contudo, se as pessoas apresentam sinais de insatisfação, de desmotivação, a empresa corre riscos sérios. No mínimo, as pessoas não terão estímulo alguma para desenvolverem novas competências e superar as expectativas da companhia. E em casos mais extremos, na primeira oportunidade abandonarão o barco e irão para a concorrência. Para falar sobre esse tema que deve estar sempre presente na pauta dos dirigentes, dos líderes e, principalmente, dos profissionais de Recursos Humanos, o RH.com.br entrevistou Marcelo Boog - consultor organizacional e especialista em gestão do clima corporativo.
"Clima positivo significa um bom equilíbrio entre a dedicação e o desempenho com as recompensas ao colaborador, principalmente não as monetárias", defende Marcelo, ao enfatizar a importância de se valorizar os talentos internos e o que significa para um profissional ter sua dedicação reconhecida pela empresa em que atua. A entrevista com Marcelo Boog, na íntegra, está disponível para vocês - leitores do RH.com.br. Aproveitem a leitura!
RH.com.br - Por que a preocupação com o clima organizacional tornou-se uma constante para as organizações?
Marcelo Boog - O clima organização interfere não apenas no ânimo das pessoas que atuam nas empresas, como também impactam nos resultados de negócios das organizações. Aquelas companhias consideradas como as "melhores para se trabalhar", além de um clima muito positivo são mais rentáveis. Na realidade, essas empresas são muito mais rentáveis. Uma das vertentes dos estudos das "melhores" é justamente a rentabilidade. Estudos comparativos confirmam que quanto melhor o clima corporativo, mais e melhores são os resultados alcançados.
RH - Que benefícios diretos e indiretos acompanham o clima organizacional traz às empresas?
Marcelo Boog - Acompanhar o clima é parecido com o processo de acompanhar indicadores como a temperatura, as pressões, os ventos, entro outros existentes na natureza. Isto nos dá não só as condições de saber o que provavelmente acontecerá em determinada data como, por exemplo, a evolução de cada indicador. Com esse acompanhamento pode-se realizar planejamentos baseados em alicerces confiáveis. Com isto acaba a "achologia" que remetem as pessoas a pensarem: eu acho que a motivação está boa; eu acho que o engajamento está baixo no departamento "X" e por aí vai. Outra analogia que podemos fazer em relação à realidade das empresas é condizente com os indicadores da nossa saúde quando, por exemplo, realizamos exames como hemograma e outros que detectam taxas importantes para nosso organismo como os percentuais de colesterol, triglicerídeos, glicose, entre outros. Para as empresas, acompanhar o clima é um saudável hábito à saúde corporativa.
RH - Quais as ferramentas e os recursos mais utilizados na gestão do clima organizacional?
Marcelo Boog - Quanto mais desenvolvido for o departamento de Recursos Humanos da organização, mais ferramentas e métodos estarão à disposição da empresa. A pesquisa de clima organizacional, por exemplo, é um instrumento básico para monitorar precisamente a relação existente entre o profissional, a liderança, as políticas de Recursos Humanos, o engajamento, entre outros fatores. As demais ferramentas do RH como avaliação de desempenho e mapeamento 360º também são instrumentos de gestão do clima. Gerir o clima significa gerir pessoas, e isso não é uma tarefa exclusiva do profissional de RH, mas sim de todas as pessoas em posição de liderança, desde os encarregados ao presidente da companhia.
RH - Qualquer empresa pode utilizar essas ferramentas e recursos, ou existem restrições?
Marcelo Boog - De certa forma sim, pois mesmo em uma micro empresa que tenha apenas dois empregados já se utiliza de ferramentas de gestão, ainda que de modo não estruturado. Mesmo que não exista um processo de avaliação de desempenho estruturado e formalizado, o desempenho dos profissionais será avaliado e ações de desenvolvimento sendo tomadas. Assim, quanto maior a empresa, mais estrutura será demandada pelos recursos focados no clima organizacional.
RH - Gerir o clima exige investimentos altos?
Marcelo Boog - Não necessariamente. Quando analisamos, por exemplo, a relação existente entre benefícios e custos, que a pesquisa de clima apresenta, vemos que o retorno é muito alto e positivo. A pergunta que fica no ar é a seguinte: quanto custa para nossa organização um clima desfavorável, com indicadores de desmotivação dos colaboradores? Como dito anteriormente, administrar o clima significa gerir pessoas. O desafio é que as pessoas são mutáveis, as opiniões são dinâmicas e inúmeros fatores influenciam nosso humor, nosso ânimo e nossa pré-disposição para o trabalho. Gerir uma organização sem dados estruturados é como pilotar um avião em um nevoeiro e sem instrumentos de orientação.
RH - Ao se gerir o clima, que indicadores organizacionais devem ser priorizados?
Marcelo Boog - Clima organizacional tem tudo a ver com a relação de troca existente entre tudo o que os colaboradores dão para a empresa - seus esforços, trabalho, tempo, dedicação, conhecimento, colaboração - e o que a organização dá para seus colaboradores em contrapartida - salários, benefícios, bônus, treinamentos, reconhecimento, prestígio, oportunidades, carreira, entre outros. Deve-se ter muita atenção para os indicadores de que sugerem um desequilíbrio entre o dar e o receber. Se o colaborador percebe que a organização exige dele uma alta colaboração e oferece uma baixa recompensa - e não me refiro necessariamente a baixos salários - ele se sentirá injustiçado e, certamente, não ficará nesta situação por longo tempo. Se ele não sair na primeira oportunidade para um novo emprego, baixará sua produtividade para um nível de colaboração que ele julga equivalente à sua recompensa. Isso explica os percentuais de turnover elevados. Clima positivo significa um bom equilíbrio entre a dedicação e o desempenho com as recompensas ao colaborador, principalmente não as monetárias.
RH - Para o profissional de Recursos Humanos, qual a importância de sempre estar atento ao clima?
Marcelo Boog - Ele terá em mãos os dados gerais e setoriais de sua organização, o que lhe dá uma posição especial para propor à direção da companhia ações concretas que certamente dão bons resultados, proporcionará mais motivação entre as pessoas e abertura para inovações corporativas que surge e precisam ser implantadas a qualquer momento.
RH - A área de RH é a mais indicada para realizar o trabalho de gestão de clima organizacional?
Marcelo Boog - A gestão do clima organizacional é em última instância uma responsabilidade dos dirigentes, uma vez que é preciso realizar esse trabalho como um todo e esse, por sua vez, influencia muito os indicadores de negócios. O profissional de Recursos Humanos é sem dúvida alguma o agente catalisador do processo, afinal é ele quem lida com pessoas.
RH - A definição de um plano de ação é sempre o primeiro passo ao gerir o clima organizacional?
Marcelo Boog - Sempre afirmo que após a pesquisa de clima é fundamental que os líderes da organização reúnam-se com quem conduziu o processo e discutam a sua visão de futuro dos aspectos comportamentais e as ações prioritárias a serem desenvolvidas. Com certeza nem todas as expectativas poderão ser atendidas de imediato, mas um plano de ações bem estruturado e divulgado é um elemento fortíssimo na construção de um clima corporativo positivo.
RH - Quais as principais dificuldades que as empresas encontram na gestão do clima?
Marcelo Boog - O imediatismo. Ter uma boa gestão do clima significa tomar ações cujos resultados se dão de forma sustentável ao longo do tempo. Foco exagerado nos resultados financeiros do trimestre é, sem dúvida alguma, um convite para ações imediatistas, que poderão custar muito mais caro, em um prazo maior. E isso é algo que empresa alguma deseja.
RH - Quando o clima organizacional não é gerido corretamente, que frutos a empresa colhe?
Marcelo Boog - Tudo de ruim pode ser colhido. Só para citar, podemos destacar: desmotivação das pessoas; fofocas; profissionais despreparados para exercerem suas atividades; individualismo; ações de Recursos Humanos desalinhadas com as estratégias da empresa. Isso só para citar algumas. Com certeza são riscos que nenhuma organização deveria correr.
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