Por Gisela Kassoy para o RH.com.br 
É comum comparar a criatividade com uma planta que brota da terra. Mais freqüente ainda é compará-la à imagem de uma pequena lâmpada - considerada quase um ícone que serve para ilustrar uma idéia. Idéias e inovações brilham e são fáceis de serem percebidas. Mas como chegar a elas? Existe um lado que as pessoas e as organizações deveriam conhecer melhor que é, por enquanto, o foco misterioso do processo criativo.
O mundo subterrâneo
Uma semente que brota vem de um mundo subterrâneo. Na mitologia grega, este é o Mundo de Hades - deus dos mortos, do inconsciente e de tudo o que se processa dentro de nós de maneira nebulosa ou incerta. Podemos dizer que o reino de Hades simboliza o inconsciente, tanto o individual como o coletivo. O subterrâneo de nossas mentes é a moradia do pensamento, da memória, de nossos anseios e receios. Imagino que nesse mundo a incubação, a intuição e as sinapses criativas acontecem antes de se tornarem visíveis. O insight ? a compreensão profunda de uma situação - ou o "a-há" de uma idéia mostram-nos quase fisicamente esse pulo de dentro para fora de nossas mentes. Mas o mundo de fora é outro.
O mundo da luz
O mundo da luz é o reino do brilho e do poder. É também o domínio de Zeus, deus supremo do Olimpo. A construção do seu reinado foi feita por meio de conquistas, de visão estratégica e de alianças. Psicologicamente o domínio do céu representa o consciente, o raciocínio lógico, a supremacia e a visão panorâmica.
Zeus, portanto, simboliza o sucesso e o controle. As pessoas que vivem esse arquétipo são estrategistas, sabem administrar riscos e tendem a ser vitoriosas. Assim são percebidas as idéias, as oportunidades e as inovações. Há um lado da criatividade que brilha, mas que não existiria sem a matéria-prima que está no subterrâneo.
Cegos de tanta luz
No mundo das organizações só se reconhece Zeus, onde o poder, a assertividade, o marketing pessoal e o controle são altamente favorecidos. Qualquer comportamento diferente desse arquétipo é visto com estranheza, ou pior, como característica dos lunáticos. No mundo de Zeus, tudo aquilo que não é visível não é digno de existir. Entendemos bem os aspectos iluminados da criatividade. Sabemos avaliar uma boa idéia, valorizamos a persuasão e a força de vontade que a implementação de uma idéia demanda. Sobretudo, amamos a certeza.
Não é de estranhar que nossa cultura identifique o mundo de Hades, por ser incerto, como o inferno. Zeus adora o controle e, portanto, detesta tudo o que não é absolutamente preto ou branco e mais ainda o imprevisto e o desconhecido.
O trânsito entre os dois mundos
Quero falar sobre Perséfone, também conhecida como a "guia do mundo inconsciente" - a deusa das estações do ano, dos ciclos e da renovação. Essa é a deusa que nos ensina a transitar entre os dois mundos citados acima. O seu grande poder é o domínio de quando, de como visitar o inconsciente e de como retomar o controle. Perséfone sabe buscar a sabedoria que se encontra na mente profunda e trazê-la à tona.
Pensemos, por exemplo, nos instrumentos de "Geração de Idéias". O brainstorming, um dos mais conhecidos, inicia com um livre fluxo de idéias que não deve ser interrompido e posteriormente, as muitas idéias resultantes são avaliadas. O "Pensamento Lateral" convida para uma fuga temporária do pensamento lógico. Sua prática consiste na passagem pelos caminhos do absurdo antes de voltar para a trilha habitual. Devido a esses estágios, é possível obter-se idéias novas e válidas.
Synetics, outra técnica, fala em "fazer o familiar ser estranho e o estranho tornar-se familiar". Trata-se, portanto, de transportar-se de um problema, um produto ou uma situação para um outro universo, para posterior retorno. O que esses instrumentos têm em comum? Todos alternam momentos de fuga do pensamento tradicional com a volta à lógica e à avaliação racional.
Não seriam esses instrumentos formas seguras para fazermos pequenos mergulhos no mundo de Hades? Controlado, permitido e com hora marcada. Portanto aceito no mundo de Zeus. A sábia Perséfone, como uma mãe que segura os braços de seu filho - quando ele dá seus primeiros passos - criou formas seguras para retirar sabedoria do inconsciente.
As boas idéias das empresas que utilizam instrumentos como os citados são a prova viva de que funcionam e as empresas e os institutos especializados não param de estudar o assunto. O pesquisador inglês Michael Kirton, por exemplo, prega a existência de uma criatividade incremental (mais propícia às melhorias ou à redução de custos) e uma criatividade inovadora, que gera idéias que rompem com os modelos anteriores.
Com base nesses conceitos, o Center for Creative Leadership, nos EUA, e o Battelle's Institute, na Alemanha, realizaram diferentes estudos sobre a eficácia de alguns instrumentos de estímulo à criatividade e concluíram que os mais aplicados e aceitos nas empresas são os adequados às melhorias e que, para a inovação, seria necessária a utilização de metáforas, fantasias dirigidas e técnicas de meditação.
Eu diria, portanto, que pequenos mergulhos no mundo de Hades trazem contribuições incrementais e que mergulhos maiores podem trazer idéias realmente inovadoras. Muitas boas idéias partem do "e se...", da livre especulação pelo universo das possibilidades, mas o paradigma organizacional quer nos prender à certeza dos bons resultados desde o início do processo.
É difícil conviver com a desordem e a insegurança de não saber aonde vamos chegar. Também é trabalhoso abandonar crenças e procedimentos que um dia nos foram úteis. Entretanto, desordem e revisão são etapas obrigatórias da inovação, da mudança e da aprendizagem. Já diziam os gregos.
Palavras-chave: | criatividade | Brainstorming |
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