Por Jerônimo Mendes para o RH.com.br 
Na maioria das vezes, o próprio empresário desconhece os problemas da empresa, mas sabe que existem. Para quem passou boa parte da vida apostando somente no espírito empreendedor e no chamado "tino para os negócios", trata-se de tarefa árdua, cujo esforço vai além da simples vontade de mudança.
Identificar as "fraturas expostas" é a parte mais fácil. Porém, torna-se doloroso admitir que a empresa não é mais a mesma. Reconhecidamente, ser empresário no Brasil é, antes de tudo, um ato de coragem e ousadia. O maior incentivo no país é a própria necessidade de sobrevivência: mudar ou fechar as portas. Não existe meio termo. A concorrência é dura, acirrada e desleal.
Toda mudança organizacional demanda quebra de paradigmas, o que, por sua vez, ainda soa forte como "remar contra a corrente" na cultura das empresas que foram instituídas sob o mito da empresa familiar.
O empresário que se faz por si só e confia na sorte está com os dias contados. Esse é o principal problema, imaginar que o vento pode mudar a qualquer instante e possa influir no ambiente, sem a mínima preparação para aproveitá-lo. É pai que sonha com o filho de volta da universidade, cheio de idéias inovadoras, pronto para fazer tudo aquilo que ele não conseguiu ainda que cercado dos "melhores profissionais", geralmente bons amigos do passado.
Mudar a cultura organizacional e implantar uma nova filosofia de trabalho é o grande desafio das pequenas e médias empresas. A mudança exige postura muito diferente das utilizadas nas décadas de 70, 80 e início dos anos 90 quando os empresários eram favorecidos por sucessivos planos econômicos que maquiavam a realidade da empresa e premiavam até mesmo a incompetência gerencial.
O "santo" está dentro de casa e o milagre passa a ser operado a partir do momento em que o próprio dono toma a difícil e sensata decisão de sacudir a organização. Uma simples decisão move o mundo.
Ainda assim há um longo caminho pela frente, choro e ranger de dentes, noites e noites de sono mal-dormidas. Mesmo diante do dilema de admitir que o negócio vai mal, o principal desafio do empresário é tomar consciência da necessidade de mudança.
A mudança de consciência facilita, até certo ponto, o processo de condução da empresa para uma gestão moderna, alinhada com os novos tempos de competitividade a fim de garantir a continuidade dos negócios de maneira rentável e com satisfação pessoal.
Se a empresa necessita de uma profunda transformação para sobreviver no mercado, é necessário que o próprio dono demonstre capacidade de reação e promova mudanças radicais para alcançar o êxito da perpetuidade.
Para se obter resultados positivos, demitir pessoas com o propósito único de reduzir custos jamais será suficiente para tirar a empresa do caos. Seria muita irresponsabilidade atribuir os males da organização exclusivamente aos colaboradores.
A má situação das empresas é oriunda de diversos fatores que formam a base da cultura organizacional consolidada sem muito critério ao longo de sua existência, portanto, sacudir a empresa significa ser capaz de avaliar a dimensão dos problemas em pontos e áreas distintas como finanças, comando, estratégia e, principalmente, o moral dos colaboradores.
É praticamente impossível levantar uma empresa e fortalecer o ânimo corporativo fazendo as mesmas coisas e tentando atingir os mesmos objetivos de vinte anos atrás com um número menor de pessoas. A tendência ao pessimismo provoca reações adversas nos líderes, cujo papel é aderir de imediato às mudanças e influir positivamente em todos níveis hierárquicos sob seu controle.
A maior preocupação dos executivos talvez seja a reação dos empregados e os laços de "amizade" construídos numa época em que organização era rentável ainda que mal administrada, mas isso mudou.
Como diria um amigo meu: "em tempos de crise o importante é não quebrar", mas apenas não quebrar é pouco. É necessário retirar-se da zona de conforto e mexer nas peças-chave da organização substituindo líderes incapazes de se adequar à nova realidade e ao mesmo tempo liderar pelo exemplo.
Empresas onde a cabeça do dono é o único organismo pensante jamais perpetuam, além de promover insegurança nos ambientes interno e externo da organização. A mudança é uma arte difícil de ser praticada porque demanda transformações de ordem pessoal e profundidade nas ações a fim de converter o "salve-se quem puder" em "salve-se quem souber".
Por fim, não existe mudança sem choro e ranger dentes, pois toda mudança requer alteração profunda no status quo. Nessa hora sobra sempre para a turma do RH que é lembrada para fazer a parte mais difícil, ou seja, administrar as emoções que afloram por conta das injustiças cometidas durante o processo de mudança através de demissões, acomodações e omissões dos líderes.
Como não se trata de um processo simples, aqui vão algumas dicas para os profissionais de RH na hora da mudança, pois, seguramente, eles são os primeiros envolvidos no processo e devem tomar cuidado para manter o moral elevado e para fazer valer o senso de justiça:
* A demissão em si não é o fim do mundo. Não conheço nenhum profissional demitido que esteja passando fome. O que afeta na demissão é a falta de respeito. O colaborador demitido é, antes de tudo, um ser humano que merece no mínimo algumas palavras de apoio e consideração.
* Em tempos de mudança alguns líderes ineficientes aproveitam para tentar livrar-se dos desafetos, dos resistentes e dos descontentes, pela sua própria dificuldade em lidar com adversidades, portanto, como profissional de RH, o que deve ser levado em consideração é o senso de justiça. É a hora da comparação, da análise de competências e, principalmente, da avaliação das necessidades individuais de cada um. O profissional de RH não deve ser furtar desse alerta quando estiver diante de uma injustiça ainda que sua palavra seja ignorada pelo superior imediato.
* As mudanças são cada vez mais freqüentes nas organizações, a única certeza visível, como afirmam os gurus da administração, portanto, os cuidados na admissão são tão importantes quanto os da demissão. Quanto menor o juízo de valor, o apadrinhamento ou o favorecimento sem o mínimo requisito para cargo, mais fácil será a consolidação da mudança. É muito mais difícil demitir um parente ou amigo incompetente pelos laços afetivos que se estabelecem. Julgar pelos valores e não pelos favores é o que vale nessa hora.
* As pessoas passam a maior parte do tempo no trabalho e é natural que se sintam inseguras durante o processo de mudança, afinal, seus empregos estão em jogo. A área de RH tem a difícil missão de manter o moral do grupo elevado e por essa razão deve atuar de maneira neutra, imparcial, ouvindo a tudo e a todos sem distinção.
* É muito comum o profissional procurar a área de RH para desabafar na hora da pressão em vez de se abrir para o superior imediato, portanto, manter o ânimo e agir com transparência são atitudes indispensáveis.
* As emoções são parte integrante das relações de trabalho. Trabalho e vida pessoal são indissociáveis, portanto, tenha cuidado na hora do julgamento.
Palavras-chave: | mudança | transformação |
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