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11/05/2009
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O crime da serra elétrica

Por Eugen Emil Pfister Júnior para o RH.com.br

Zé do Machado, caboclo avesso à conversa fiada e arredio à vida social, ouviu falar de uma tal de serra elétrica: "um trem maravilhoso que não carece de esforço prá dirrubá árvores". Não pensou duas vezes; comprou a engenhoca.

E lá foi ele empunhando a serra elétrica pronto para contribuir com o aquecimento global. Ah! Quase me esqueço de contar que o nosso Zé era mais convencido e arrogante que uma prima dona de ópera em noite de gala.

Assim, as explicações do vendedor entraram por um ouvido e escapuliram pelo outro. Quem acredita que perguntar não ofende, não conhece gente orgulhosa ou sabichona, para quem um simples pedido de informação do tipo "onde fica tal rua?" sugere fraqueza, insegurança ou ignorância. Preferem perder-se a perguntar.

Com pose de quem entende do riscado, o Zé Moto Serra, derrubou apenas três árvores, contra 12 que abatia a machadadas antes. Sem entender o que aconteceu, pensou:
- Deve ser falta de jeito! Amanhã nóis vê.

No dia seguinte, derrubou duas. E depois, com muito esforço, apenas uma única. O jeito foi voltar para a loja e trocar a mercadoria. O vendedor pede licença para testar o aparelho e, para espanto do Zé, "zuuuuuuuuuUUUUUUUUMMMM". Nosso amigo madeireiro ficou assustado com o ronco.
- Mas que trem barulhento é esse, cumpadre?

Finda a história, tem início a vida real, em que muitas vezes julgamos saber mais do realmente sabemos. Nesta categoria estão pseudoprofissionais que confundem fala afetada com ciência e sapiência. A estes se seguem palpiteiros anônimos e famosos que deitam falação sobre tudo e todos: taxistas, ex-big brothers, políticos profissionais, sem esquecer, é claro, das famosas e peladas das capas de revistas. O sindicato dos opinólogos conta com milhares de afiliados. Escutá-los é um martírio, pois, após um caudaloso blá-blá-blá, descobrimos que não há suco nem bagaço em suas cabeças ocas.

Agora, aduladores e deslumbrados, não faltam.
- Que cabeça! Que inteligência!
- Mas você entendeu o que ele quis dizer?
- Uai, se eu tivesse entendido o homem não seria inteligente, não é verdade?


Contudo, não ouse pedir esclarecimentos. Você será olhado com desdém ou espanto, como se fosse um marciano. Afinal de contas, é moderno e chique ouvir falsos profetas, falsos eruditos e falsos formadores de opinião e não entender nada.

Aliás, há quem pague milhões por uma overdose de ideias herméticas que não passam de pura enrolação. "Nossos gerentes devem procurar sinergia através do empowerment focado em processos que agreguem valor". Pense na catástrofe se a sua empresa não der ouvidos a esse sábio conselho? Imagine se no lugar da lengalenga acima, o guru simplesmente disser que a gerência deve planejar, executar, avaliar e agir como se fosse uma única grande equipe com objetivos comuns?

Que brega! Que pobreza de espírito! Como um conselho tão simples e banal pode ter alguma serventia para nossa estratégia de negócio? Por sinal, às vezes somos induzidos a pensar que já sabemos as lições de cor pelo simples fato de poder recitá-las, por ter feito um treinamento ou um MBA. Confundimos domínio da retórica com conhecimento, dissociando saber e fazer.

Em tempos de fast food, criou-se o suposto fast learning que promete ensinar a gerenciar, negociar, vender, liderar equipes, comunicar, entre outros, em seminários ou cursos de dois ou três dias. O fast learning pode saciar a sede por novidades que acompanha a modernidade e, em particular, os consumidores e organizadores de simpósios, congressos e treinamentos. Mas daí a resolver problemas práticos é outra história.

A questão que interessa não é participar de um evento de treinamento, e sim, comprovar a utilidade do conhecimento adquirido para obter ganhos de qualidade, produtividade, custos, satisfação do cliente, carreira, motivação, liderança e assim por diante. É isso aí. Cada vez mais me convenço da assertividade do ditado Zen que afirma que "saber e não fazer, ainda não é saber".

Portanto, caro leitor, se um sofista engravatado, de fala mansa e afetada desfiar seu rosário semântico na sua presença, peça que a ilustre criatura ligue as ideias e teorias na tomada para ver se ouvimos o tal zuuuuUUUUUMMMM. Se fizer barulho, compre. Se não fizer, derrube a árvore com o bom e velho machado.

Palavras-chave: | inteligência |

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COMENTÁRIOS (4)
Jair de Oliveira em 14/05/2009:
Eugen Júnior, de júnior você não tem nada. Este artigo é SENIOR. Parabéns! Além de seguir o ditado Zen sigo a recomendação do zuuuuuUUUUUMMMM. Não dou colher de chá (nem de xá) para os modernimos de plantão. "Desconto de Duplicatas Frias" sempre serão "descontos de duplicatas frias", mesmo que digam ser "securitização de recebíveis a performar" e não venham me dizer que meu machado está sem corte, porque eu o afio diariamente, haja vista estar participando deste encontro. Grato por compartilhar(em).

Tania K em 14/05/2009:
Que bacana! Simples, interessante e inteligente. Também estou cansada de pagar para ouvir o óbvio em palavras difíceis e sofisticadas. Fiquei mesmo estimulada a melhorar minha capacidade de realização - sou daquelas cheia de iniciativa e pouca acabativa... Obrigada pela dica!

Marcos em 13/05/2009:
Muito bom seu artigo. Só gostaria de lembrar que também existem os que não querem aceitar que seu machado já perdeu o fio e que acreditam que a serra elétrica seja mero modismo, pois se dão machadadas a tanto tempo e funcionou, o quê sabem essas pessoas e suas mudanças...

ADEMILTON ALVES DOS SANTOS em 13/05/2009:
Sou administrador e especialista em gestão de pessoas,e encontro pessoas sem essa graduação que causa espanto tamanho conhecimento e habilidade para gerir negócios.Gostei muito do artigo,parabéns.

 
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