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17/08/2010
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Gestão contemplativa de processos: uma crítica à ausência de um modelo de gestão

Por Luiz Lopes de Medeiros Duarte Júnior para o RH.com.br

A gestão contemplativa de processos não é um modelo de gestão em si, pois o que configura a gestão é o ato de agir, de movimentar situações em benefício de um objetivo. Já a palavra contemplação traz o sentido de observação demorada sobre os aspectos do objeto observado. Gestão contemplativa de processos é uma alusão irônica a uma governança desorganizada, ineficaz e ineficiente, onde os processos são observados e, às vezes, até analisados racionalmente, mas pouca ou nenhuma ação é empreendida para modificá-los. Esse tipo de governança oferece contemplação e inação, além de consequências deteriorantes da organização.

A característica mais marcante de uma gestão contemplativa é a falta de lideranças. Existem gerentes, coordenadores e outros níveis, mas nenhum líder. O próprio sistema repele lideranças, pois líderes são, por natureza, dados à ação. Segundo Robbins, "a liderança está ligada ao enfrentamento da complexidade". Já a noção de gerente está relacionada ao posicionamento em um determinado nível hierárquico. E como liderança é compromisso e gerência é status, posição, a gestão contemplativa de processos trabalha apenas com a segunda hipótese.

Adotando uma estranha filosofia de que todos os problemas são maiores do que parecem, e de que antes mesmo de analisá-los já se deve envolver todos os empregados da área - e até de outras áreas - na resolução, a gestão contemplativa é intrinsecamente ineficiente. O gerente percebe o problema, e como não tem perfil de líder, tende a não ter segurança suficiente na análise do processo problematizado. Isso se traduz na reação em cadeia, que segue hierarquia abaixo, quando então todos são chamados a contemplar o problema em uma reunião.

A reunião urgente, convocada às pressas, agrupa pessoas dos mais diversos níveis e perfis. O gerente do processo problematizado começa a discorrer sobre o histórico do tema, fala de tudo que fez até o dia em que o problema aconteceu. Estende-se ao ponto de convencer os demais de que se trata realmente de um monstro, e que não há recursos para combatê-lo. Com isso, os objetivos que nasceriam da lógica ficam inibidos, e um ou outro analista que tenha a solução na ponta da língua pode sentir-se inseguro em proferi-la. Essa é a "reunião de contemplação do problema", o coração da gestão contemplativa de processos.

Da reunião sai um par de objetivos ridículos, quase sempre envolvendo dinheiro como uma vultosa contratação de consultoria, ou a compra de uma máquina nova. Não são produzidos objetivos concretos, onde exista movimentação de inteligência orientada a resultados. A noção de estratégia não é sequer mencionada, posto que não existe estratégia sem objetivo claro e definido. Em decorrência disso, não existe mudança planejada, que segundo Mintzberg, seria o procedimento a ser seguido, tendo o "desenvolvimento como um esforço planejado".

Se não há objetivos claros e estratégias definidas, não há sincronismo. As pessoas trabalham por si, fazendo o que acham melhor. A responsabilidade não é compartilhada quando não há definição de papeis. O resultado disso é que aquele problema do referido gerente que convocou a reunião de contemplação é simplesmente deixado em segundo plano. Note-se que a reunião de contemplação alcança seu objetivo: contemplar o problema, e nada mais.

A gestão contemplativa de processos causa danos quando adotada por uma determinada área isolada. Exemplos desses danos são a falta de procedimentos específicos para os processos, a própria falta de mapeamento de processos, assincronismo e desinformação generalizada sobre quais atividades são empreendidas pela área. E isso tudo se reflete na desorganização estrutural e física da área.

Entretanto, quando esse modelo de governança é adotado pelo alto escalão, a cultura organizacional deteriora-se, e junto com ela, a empresa. Para Prahalad e Hamel, a abordagem de cultura organizacional já vem com uma carga negativa, pois "a cultura prende a empresa ao passado e deve sofrer transformações para propiciar o desenvolvimento de competências para o futuro". Os autores ainda afirmam que "a cultura e as competências da organização precisam estar alinhadas para que o objetivo estratégico se realize". Ora, se a gestão contemplativa de processo não oferece objetivo micro nem macro, confirma-se o assincronismo, com a consequente desestruturação da organização. E isso é, sem dúvida, absorvido pela cultura.

Não é exagero dizer que as organizações que concebem a gestão contemplativa de processos - essa alusão irônica à inação de alguns gestores -, concebem também a burrice organizacional. É uma burrice que traz sérios prejuízos à sociedade, principalmente quando se trata do setor público. Gestores despreparados, ausência de líderes, gasto desenfreado de recursos, desperdício de talentos. Infelizmente, muitas organizações ainda adotam esse modelo. Eu conheço uma, e você?

 

Palavras-chave: | inovação | estilo de liderança |

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COMENTÁRIOS (2)
Francisca Francinete de Azevedo Mulatinho em 02/12/2010:
Vivendo e aprendendo... desconhecia esse conceito. Conheço "vários" gestores (e porque não dizer que em alguns momentos eu também?). Com sua permissão vou explorar esse artigo nas minhas aulas de planejamento educacional. Parabéns! Preciso atualizar-me muito mais...

Kênia Barbosa em 22/09/2010:
Gostei muito deste artigo. A Gestão contemplativa dos processos infelizmente ainda acontece muito. Os profissionais de RH têm um grande desafio, que é o de fazer com que estes "Gerentes" se transformem em verdadeiros líderes e parem de contemplar os problemas e conflitos e partam para a gestão da ação.

 
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