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14/12/2010
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Espiritualidade na Gestão das Empresas: Transgredindo as regras do racional!

Por Carlos Alberto Zaffani para o RH.com.br

Nos últimos dez anos já li alguns livros e dezenas de artigos sobre o assunto, porém continuo sentindo-me, no mínimo, desconfortável para abordar um tema tão amplo e controverso, mas ao mesmo tempo tão rico e desafiador. Talvez, dificilmente venha a ter os atributos, a lucidez e a transcendência dos sábios e dos filósofos para abordar o tema com imparcialidade, transparência e objetividade, mas ainda assim sou levado pelo impulso involuntário do desafio. Portanto, me atreverei a resumir neste espaço, minha visão de que espiritualidade e gestão podem caminhar juntas e mais do que isso, podem construir uma essência muito superior - magnânima até - nas relações humanas e no mundo dos negócios e das organizações.

Para muitos, espiritualidade não tem nada a ver com empresas ou negócios por se tratar de assunto que deve ficar no âmbito pessoal e religioso de cada um. Será?

Antes de entrar diretamente no tema, preciso manifestar minha concordância com aqueles que entendem que o atual modelo de gestão continua fortemente influenciado pelas grandes escolas de administração norte-americanas, as quais moldaram - no transcorrer do século 20 - sistemas, metodologias, estratégias, práticas, doutrinas e técnicas de gerenciamento desenvolvidas por ex-combatentes que participaram das principais guerras (Segunda Mundial, Coréia e Vietnã, entre outras). Pessoas que ingressaram nas universidades trazendo dentro de si, sentimentos, dores, frustrações e emoções variadas, as quais contribuíram para formar executivos que viram no mundo dos negócios e das organizações, condições semelhantes a uma guerra, onde a ferocidade, a gana da conquista, a destruição dos concorrentes e o desrespeito aos valores humanos poderiam ser colocados acima de qualquer coisa a fim de alcançar os objetivos traçados. Assim, a sobrevivência nesse mundo desvairado e contaminado pela objetividade desmedida e do individualismo em suas últimas instâncias, foi ainda mais alimentado pela corrida irracional do poder e do ganho fácil, mascarando e desvirtuando comportamentos de muitos profissionais e alimentando o sentimento de que o mundo empresarial é uma verdadeira selva predatória.

Todavia, diferentemente de uma guerra real, no mundo empresarial, a "guerra" é interminável. Dia após dia, mês após mês e ano após ano, são criadas novas metas, novos desafios, produtos, clientes e concorrentes. Como a vitória nunca é definitiva, todos dentro das organizações são cobrados e vivem a angústia gerada pelas incertezas e pelo medo do amanhã e do futuro.

O cotidiano impõe às pessoas uma constante e desafiadora sequência de circunstâncias e situações que envolvem razão e emoção que contribuem para a ocorrência de fatos negativos, na construção da desconfiança e do medo e na deterioração das relações humanas em geral. É óbvio que dentro desse ambiente deteriorado e corroído ainda mais pela competição, é difícil imaginar algo capaz de transformar ou mudar tudo isso. Se assim é, por que não tentarmos algo novo? Um caminho não explorado em sua dimensão plena?

A espiritualidade pode ser esse caminho.

De imediato, gostaria de ressaltar que essa proposta, para fazer algum sentido ao prezado leitor, impõe-se como premissa, a crença na existência de um Deus como criador do homem e do universo. Em síntese, é estar consciente da presença do Sagrado em nossa vida.

Outrossim, em linha com outros autores que já escreveram sobre o assunto, também entendo que espiritualidade não está relacionada com nenhuma determinada religião. É através da religião que aprendemos (de acordo com cada doutrina) formas de como buscar, chegar ou se relacionar com Deus e, como tal, trata-se de uma escolha individual.

De outro lado, a espiritualidade, em minha modesta opinião, constitui-se em um conjunto de atributos e virtudes especiais (inerentes ou desenvolvidas pelo ser humano) que criam formas não estabelecidas de se relacionar com o Divino, às quais acabam moldando, por consequência, novas condutas, posturas e atitudes diante da vida. Em outras palavras, a espiritualidade independe de regras ou práticas religiosas, porém os atributos e as virtudes, quanto mais desenvolvidos e exteriorizados ou praticados de formas consistentes (através da palavra, exemplo, comportamento e atitudes), são capazes de formar pessoas magnânimas, bem como transformar contextos e ambientes. Assim, se isso é uma verdade, por que não torná-la crível também no âmbito organizacional?

É justamente aqui que começa o grande desafio. Como?
Entendo que espiritualidade na gestão não se trata de um programa formal que precisa ser desenhado e divulgado aos funcionários para ser implantado, mas isto sim, um processo que depende do desejo sincero dos acionistas ou sócios de edificar ou transformar um empreendimento num modelo diferenciado de negócio: uma espécie de filosofia existencial da empresa, baseada em virtudes que privilegiam o SER em sua plenitude.

Antes de iniciar o processo, é prudente avaliar se a cultura e a razão da existência da empresa expressa na sua missão contrariam princípios, crenças ou valores antagônicos às virtudes e aos atributos caracterizados na espiritualidade, tais como: respeito ao ser humano e ao meio ambiente, ética, transparência, confiança e cooperação nas relações etc. Se esse for o caso, é preciso rever a cultura e a missão da organização.

Assim, o primeiro estágio nasce a partir do momento em que os gestores compreendem integralmente que o ambiente organizacional é extremamente rico, pois oferece em grande escala, oportunidades, entre outros, de: convivência, relacionamento, comunicação, negociação, ensino, aprendizado, desenvolvimento pessoal e profissional, doação, ganhar e perder.

O segundo passo vem com a disseminação - da "filosofia" baseada na espiritualidade - através do exemplo dado pelas lideranças em todas atitudes, comportamentos e decisões.

Na sequência, inicia-se o processo - junto aos funcionários - da exteriorização de ações que ressaltem o respeito à vida e ao ser humano em sua totalidade e em todas suas dimensões (física, intelectual, emocional e espiritual). Tais ações devem estar evidenciadas nas estratégias de planejamento, nas políticas e práticas internas e externas, nas decisões e nas relações com clientes, fornecedores e demais partes relacionadas.

A partir daí, o processo deve ser incansável, contínuo e evolutivo, a fim de superar as resistências e barreiras naturais, pois, de uma forma geral, as pessoas trazem dentro de si conceitos pré-concebidos em relação às condutas que devem ter dentro das empresas. São conceitos que levam em conta paradigmas mecanicistas, econômicos, financeiros, que valorizam a razão e a lógica, os quais podem contribuir para a fragilização de todo o processo.

Um dos principais objetivos da sedimentação do processo de espiritualidade na gestão é a humanização das organizações, pois é impossível evoluir espiritualmente sem foco nela. Concordo com aqueles que acham que a humanização apresenta traços ou sementes da espiritualidade. Na medida em que cada pessoa avançar e aprofundar sua evolução espiritual - conseguirá compreender e aceitar melhor as diferenças dentro das empresas - e estará mais aberta ao amor pelo seu colega de trabalho, pelo questionamento das ideias e não das pessoas, pelo interesse transformador e contributivo, pelo entendimento mútuo e respeito às leis e às normas em geral sem, no entanto, considerar-se vilipendiado em seus direitos ou coagido em seus deveres.

Paula Francisquini em seu artigo "Espiritualidade nas empresas", destaca que a globalização abalou as fundações de tantas certezas milenares, "criando um admirável novo mundo que está reorganizando os espaços espirituais e esse mundo moderno, com suas incertezas e problemas, faz com que empresários e gerentes sintam a angústia do mundo que está nascendo e muitos estão buscando na espiritualidade, um caminho de equilíbrio, pois estão descobrindo que para estas transformações serem positivas, elas devem vir de dentro de cada um, naquele lugar em que nasce a fé na vida e na humanidade".

Estamos no século 21 e as novas tecnologias estão transformando nossas crianças e jovens em autênticos robôs dependentes delas, ao mesmo tempo em que observamos uma desenfreada busca pelo TER e pelo PODER. Ao mesmo tempo em que vemos o materialismo atingindo proporções inimagináveis dentro de nossa sociedade, constatamos o distanciamento dos jovens em relação a Deus, fato que impõe a cada um de nós um desafio maior se queremos criar condições para um futuro mais promissor e menos devastador da essência humana nas organizações.

Esse é um desafio que vale a pena enfrentar!

 

Palavras-chave: | espiritualidade | inovação |

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COMENTÁRIOS (14)
Gleybson Andrade em 04/07/2011:
Parabéns, pela forma de abordagem. Esse artigo me ajuda na elaboração de dissertação sobre Ética e Gestão carência da pós-modernidade.

Marconi Medeiros em 09/06/2011:
É isso Carlos! Acho que você falou o que está preso na minha ideia. Trabalho há 29 anos num grande Banco e sinto que as pessoas que não trabalham sua espiritualidade são mais presas ao mecanicismo, ao hedonismo e são mais frias no relacionamento com colegas e clientes. Nossas confraternizações quando organizadas por essas pessoas, não passas de uns "comes e bebes", quando organizadas por pessoas que trabalham a espiritualidade, existem sempre algo diferenciado e aceito por todos. Essas pessoas levam para o ambiente de trabalho tudo que aprendem nas suas religiões, sem precisar estarem declarando seu credo, mas exercendo na prática a maior expressão de verdade que elas acreditam "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a ti mesmo", não um Deus lá no céu e atropelando os colegas aqui, mas, antes de tudo, tratando bem seus colegas e clientes como verdadeiros irmãos para chegar ao seu objetivo maior: Amar a Deus.

Eric Johnson em 26/05/2011:
Sinto dizer que considero lamentável esta ideia. Os valores citados, como respeito ao ser humano e ao meio ambiente, ética, transparência, confiança e cooperação nas relações NÃO são valores compartilhados somente entre os crentes em uma força divina. Eu sou ateu convicto e busco diariamente viver estes valores, no trabalho e na vida particular. Entendo que a melhor forma de organização (seja o estado, seja uma empresa) é a organização laica, que respeite todas as crenças e convicções, que não somente busque não pregar a exclusividade e a ideia de alguns "escolhidos" são melhores pessoas ou profissionais, mas também que semeie a ideia de que somos todos iguais, temos os mesmos direitos, e a análise de méritos seja baseada em indicadores reais de performance e resultados, e não em crenças particulares. Eu espero que a humanidade esteja caminhando a passos largos para deixar para trás todos os tipos de crendices no sobrenatural, pois entendo que isto sim fará o mundo melhor, mais justo e menos intolerante.

Jairo Vieira em 29/03/2011:
Caro Carlos, belíssimo artigo... Tive a ligeira impressão de estar lendo os escritos a respeito das empresas que aderiram ao projeto de economia de comunhão(EdC), que tem como ideologia os ensinamentos do movimento dos focolares... Pois falar de empresas capazes de manter um ambiente gerido por pessoas que buscam o bem comum porque conseguem ver Jesus no outro e esse amor reciproco gera uma unidade dentro da organização capaz de motivar a todos em busca de um unico objetivo, é um grande desafio para o novo milênio, tendo em vista que o capitalismo selvagem já não tem mais nenhum atrativo... Precisamos divulgar com coragem essas novas realidades no meio acadêmico. Obrigado.

Margot Onzi em 15/02/2011:
Carlos Alberto, parabéns pelo artigo...muito bem posicionado. Ao contrário do que se interpreta de maneira geral sobre espiritualidade..você coloca de forma clara que ela reage em nossos atos...em sermos corretos..maleáveis e principalmente a espiritualidade faz com que possamos nos conhecer melhor. Sabemos que Deus tem princípios e ordem e se cada um na semelhança obedecer estas normas e regras que Ele colocou em sua criação certamente teremos resultados(frutos) consistentes e duráveis em nossos projetos e planos. Falamos tanto em padrões e o melhor livro que trata isto é justamente a Bíblia é só conferir em Exôdo e Jeremias. Grande abraço a todos Margot Onzi

Walter L Marques em 16/01/2011:
Parabéns Sr. Carlos Alberto, esse é o caminho, esta sua tentativa não é por acaso, talvez seja essa sua missão de vida, vá em frente, pois cada vez mais seres humanos estão compreendendo a inutilidade da guerra ao próximo. Vamos nos unir através do amor, compreensão e aceitaçaõ de cada um como ele é, abaixo a intolerância, podemos crescer em todos os sentidos sem precisar destroçar conciências. Abraços e sucesso Walter L Marques.

Silvia em 14/01/2011:
Gostei do artigo, muito interessante, mas acho que não haverá muitos comentários sobre esse artigo. Na minha opinião, se o líder for espiritualizado, a empresa já ganha e muito. Temos muitas histórias de líderes espiritualizados fazendo a diferença na humanidade. Um exemplo é o Mandela, conhecendo um pouco de sua história, vemos o quanto é importante ser espiritualizado, crença em Deus, e no amor. Vamos aguardar por empresas mais espiritualizadas (lideres, colaboradores, toda hierarquia).

Aline em 12/01/2011:
Na prática a espiritualidade nas organizações é o equilíbrio saudável entre competição e cooperação. Enquanto uma fomenta a criatividade no embate das ideias na busca por soluções inteligentes, a outra garante a coesão harmoniosa entre os atores da organização no desempenho do trabalho em equipe.

Fabiana Souza de Oliveira em 11/01/2011:
Caro Carlos Alberto, sou totalmente a favor da espiritualidade na Gestão de empresas. Visto que, é um fato nossas crianças e jovens serem guiados e educados por máquinas. Pois brincadeiras de bola, pula cordas foram subistituídas por games, que os prendem por horas a frente de um computador. É de suma importância a evolução espiritual nas organizações atuais, pois é preciso deixar o individualismo no passado e trabalhar a união para o bem estar de todos, que é sentir o amor de Deus e nos deixar ser envolvidos por Ele. É atitude! Tranformação! Confiança! FÉ! Fabiana Souza.

Adriana de Carvalho Menezes em 07/01/2011:
Parabéns Carlos e toda equipe do site! Excelente abordagem e para quem não se sente confortável com o tema, seu comentário foi muito enriquecedor. Eu sou funcionária pública e no órgão onde trabalho não existe nenhum tipo de valorização profissional, em razão disso há muitos que não cumprem suas tarefas com responsabilidade e no final do mês recebem o mesmo salário que eu, que sou uma funcionária responsável, disciplinada, pontual; eu te digo que o motivo que me faz cumprir com responsabilidades minhas tarefas é o fato de crer em um Deus que está acima de tudo e de todos, que vê tudo,a quem eu devo toda minha gratidão e antes de mais nada eu devo ser honesta comigo mesma, para ser também com Ele e com os demais. Se eu não praticasse minha espiritualidade com certeza seria apenas mais uma que deixa o trabalho pela metade e só se importa em receber o salário no final do mês. Pegando o meu exemplo, imagine o funcionário que trabalha numa empresa que valorize ele com ser humano e como profissional e além disso ele exerça sua espiritualidade? Com certeza todos se terão a ganhar.

Lorena Mota em 25/12/2010:
Esse artigo ficou ótimo! Concordo em relação a espiritualidade no mundo dos negócios. Deus precisa estar presente em todos os momentos de nossas vidas, ou melhor, é necessário que o mesmo esteja sempre`a frente de tudo, porque aí sim tudo da certo, e se o que planejamos nao deu, é porque ELE tem algo melhor. Deus te abençõe! Jesus ama muito você...

NIlton Modolo em 18/12/2010:
Parabéns, o texto ficou brilhante, claro e preciso... Um forte abraço Nilton Modolo

Wilson Lima em 17/12/2010:
Parabéns pelo seu artigo. Um dia todos terão a plena consciência em relação a espiritualidade, como você bem traduz, não é uma questão de religiosidade.

Denise Schiavon em 14/12/2010:
Parabéns, pelo artigo!! Acredito nesse novo "fenomeno" que vem mudando as organizações. Realmente ela é um diferencial para toda a organização. Que Deus abençoe!!

 
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