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30/11/2009
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Inteligência Espiritual

Por Jason Abrahão para o RH.com.br

Recentemente li uma matéria sobre um livro de Inteligência Espiritual e do quanto o assunto é atual; afinal ele foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Neewsweek e Fortune e também pelo 30º Congresso Mundial de Treinamento e Desenvolvimento da International Federation of Training and Development Organization (IFTDO*).

Interessante: é preciso muitas vezes vir alguém com diploma em Harvard e MIT para as pessoas darem atenção para algo que iogues, preto-velhos, Yoganandas, Krishnamurtis e Gandhis da vida já diziam faz tempo. Algumas pessoas precisam que uma revista ou alguém com um título lhes digam verdades para seguir, sendo que o que somente elas fizeram foram fazer estudar e reproduzir, muitas vezes com um rótulo diferente, o que outros já disseram. Essas pessoas não pensam por si só e precisam de referências para perpetuar um pensamento (o mundo acadêmico também está impregnado disso, quando são podados por seus orientadores). Faltam às pessoas a coragem para tirar e sustentar suas próprias conclusões.

Foi convivendo com uma grande diversidade de pessoas e lendo livros de filosofia, teologia e biografias como Pablo Neruda, Gandhi, Paramahansa Yogananda e Pierre "Fatumbi" Verger, que aprendi que espiritualidade é a capacidade de ser feliz e de contagiar as pessoas ao seu redor, sem panfletagem ou discursos. Foi observando exemplos simples que fui tecendo a minha espiritualidade, com expressões de boa vontade, respeito aos outros e outros tantos valores que aprendemos ainda crianças, mas que parece esquecermos quando ingressamos no mundo adulto (talvez porque aprendemos já cedo com os adultos, a contradição entre discurso e prática). Como crianças a vida pega mais leve conosco, e nos esquecemos de dar o troco mais tarde quando adultos, pegando leve com a vida.

Longe de qualquer propaganda ou discussão religiosa, eu quero discutir neste artigo a respeito de um mal da sociedade moderna, que assola principalmente os meios corporativos, onde passamos a maior parte de nossas vidas (a cama já foi campeã, mas algumas pessoas hoje em dia já a visitam pouco). O mal em questão é a preguiça de buscar as próprias verdades, da falta de curiosidade em descobrir o mundo com seus próprios olhos e o vício por dogmas, fórmulas, pelos "10 passos" para alguma coisa e receitas prontas (pouco diferente da credulidade da Idade Média que levava à compra de terrenos no céu ou cruzadas). Há também o vício pelo novo, tão conhecido dentro dos RHs e de profissionais deslumbrados, ansiosos em se sentir antenados e "mudernos", mas isso é outra "variação do mesmo tema sem sair do tom". O que eu falo aqui é da falta de coragem para buscar suas próprias verdades, e vivê-las.

Justiça seja feita: pelo menos agora estão discutindo o assunto de espiritualidade sem estar atrelado à religião, mesmo com toda a perfumaria comercial da pretensa abordagem moderna e científica. O único perigo, e repito sempre, é a preguiça de pensar, selecionar e experimentar nossas verdades na própria vida, ficando só no discurso. Eu ainda tenho esperanças de que o mundo enxergue a luz no fim do túnel com menos credulidade e idealizações, desde que se mexa para chegar até o fim dele! Há de ser aberto às novidades e às antigas verdades, porém com um bom senso direcionado para a própria vida, agregando o que for coerente com sua realidade e descartando o que não for. O grande problema é que somos complacentes com nossas falhas e nos achamos as pessoas mais sensatas do mundo quando estamos observando as dos outros. Aprendemos a ser hipócritas.

"O bom senso é o que há de mais bem distribuído no mundo, pois cada um pensa estar muito bem provido dele". [René Descartes]

E agora, como ficamos se mesmo diante de todos os critérios e passos ditados pelas fórmulas e teorias, ainda sentimos que sabemos tanto, mas conseguimos aplicar tão pouco? Será que somos "incapazes" ou "burros"? Não. Eu diria que se não tivermos um bom senso direcionado ao que nos faz bem e ao que nos harmoniza com o mundo; viveremos para atingir modelos de perfeição e para cair sempre em contradição; buscando viver uma releitura do conceito de "santo" ou radicalmente se opondo a ele. Aliás, conforme Roberto Crema escreveu no livro "Normose, a patologia da normalidade", se você for relacionar todos os atributos de ser "normal", verá que ser normal é ser um santo, sem espaço para a diversidade de ser quem cada um é, ou seja, um conceito uniforme e idealizado. Ser espiritualizado é afirmar quem você é, na busca constante pela auto-realização de um significado da sua vida, da harmonia com os outros e com o ambiente em que vive.

O que faltou dizer na matéria que eu li é que, se há alguma fórmula para ser inteligente espiritualmente, eu diria que os ingredientes básicos são humildade, respeito ao próximo, alegria e simplicidade. Penso nisso ao recordar em personalidades como Dalai Lama, Madre Teresa, Gandhi, Paulo Lisboa e Claudinei Rosa - o Teco, estes dois últimos, grandes amigos meus. E com características assim, até a pessoa mais mundana, um ateu ou agnóstico seriam mais espiritualizados do que qualquer religioso. Sim, porque uma conseqüência da espiritualidade é se permitir incluir as pessoas, e não excluir. Esses são os ingredientes básicos, o resto fica à gosto de cada um, desde que sejam capazes de provar o que preparam.

Se despir de preconceitos, do comodismo, de muletas intelectuais e emocionais; e voltar a experimentar o mundo com curiosidade e leveza para aprender quem nós somos. A maior inteligência espiritual a gente aprende observando as crianças e trazendo essa energia delas para o mundo adulto. Num mundo onde todos esses valores soam como fraqueza e vulnerabilidade para enfrentá-lo, não é a toa que chegamos onde chegamos. Que tal nos aceitarmos como o que simplesmente somos e buscar nos melhorar com a leveza de uma brincadeira que envolva outros?

Há perguntas que só crianças muito pequenas ou filósofos muito grandes podem fazer.

Quanto a mim? Eu me realizo espiritualmente não só no esforço de trazer todo esse discurso do artigo para prática, mas principalmente quando exercito a caridade de me colocar à disposição ao próximo. Para isso, não há grandes comentários para vocês, somente uma sugestão: experimente! Eu sempre me pego pensando na máxima de Chico Xavier que diz: "Fora da caridade não há salvação" e vejo a alegria de ver outra pessoa bem já salva o meu dia.

Encerro citando um trecho da música do Walter Franco, Serra do Luar:

"Viver é afinar o instrumento
De dentro pra fora
De fora pra dentro
A toda hora, todo momento
(...)
Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranqüilo
".


(*) IFTDO: organização fundada na Suíça, em 1971, que representa 1 milhão de especialistas em treinamento em todo o mundo.

Palavras-chave: | inteligência | espiritualidade |

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COMENTÁRIOS (8)
Renata Araujo em 29/04/2011:
Parabéns a todos os envolvidos na publicação desse artigo. Esse assunto apesar de antigo nas mentes de muitos, é atualidade na vida das pessoas e das empresas de hoje e precisamos disseminar.

Cibele da Silva Ramos em 02/10/2010:
Tirar primeiro das nossas costas o peso do perfeccionismo e a superação de metas à qualquer custo, despir a rota veste e por amor nos permitir ser simplesmente,aliviando em seguida o fardo do outro por caridade. Obrigada, amigo!

MOACIR em 29/05/2010:
Gostei muito da explanação e pela defesa da vivência espiritualidade seja qual for o ambiente. Acredito que a espiritualidade é a única forma de humanizarmos cada vez mais nossas relações sociais, seja em casa, em templos, no meio acadêmico ou no trabalho, tornarmos mais leves e harmoniosas nossas relações. Espiritualidade não combina com ataques sutis a instituições religiosas. Ataques a uma instituição que existe há mais ou menos 2 mil anos e que com todo esse tempo teve seus tropeços, mas se hoje temos unicersidades e cabeças pensantes, isto se deve muito a esta instituição, que não preciso citar o nome dela. Fique com Deus!

Thiago em 02/12/2009:
Jason, de uma simplicidade, SUTILEZA, sinceridade e realismo desconsertantes, pelo óbvio embasamento adquirido não só pelos meios acadêmicos, mas principalmente pela sua vida. Fico muito feliz em ver, que com tal êxito, você consegue transferir conceitos adotados em sua vida particular para o espúrio mundo empresarial, que se os seguissem seria tão mais sutil e menos estressante. Abraços, Thiago

Sônia em 01/12/2009:
Jason, muito bom mesmo!!! Há tempos que trabalhamos também neste assunto, pois o tema já rolava na Harvard há uns 4 anos. E logo lá que é tão financeira?! Tenho presidentes e donos que me pedem para rezar antes de começar meu trabalho nas diretorias ... acho muito bom!!! Como você sempre foi desta linha, parabéns e insista neste tema, pois as empresas precisam muito. Sonia

Soraya em 01/12/2009:
O que posso dizer?...Simplesmente muito bom enxergar com a ajuda dos seus olhos ...

Luis em 01/12/2009:
Jason, 1. Coragem sua colocar isso em discussão. 2. Terreno tenebroso, pois a mente corporativa, ainda está voltada para o século passado, não gosta deste exercício pelo simples fato de não saber discutir pessoas sem estabelecer regras restritivas. 3. Esse assunto merece um amadurecimento que, com uma experiência de mais de 25 anos de carreira nesta arena corporativa, não vejo o pessoal mais velho querendo ter, pois para muitos gente é complexo e para os mais novos, pela pressa em ter não dão ainda o valor que isso tem. Luis

Andre em 30/11/2009:
Gostei do seu artigo, muito amplo, diverso e imparcial. Porém não há como falar sobre espiritualidade, sem citar e comentar os ensinamentos de alguém que trouxe não somente uma mensagem espiritual, mas que fez a auto-proclamação de ser a solução para os problemas humanos, e prometeu a todos que nele cressem, a vida eterna, vale a pena conhecê-lo. Jesus.

 
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