Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

Em seu livro "Motivação de Equipes Virtuais", publicado pela Editora Gente, o escritor e consultor Alfredo Pires de Castro descreve como é possível utilizar a inteligência emocional como fonte de inspiração para se otimizar as relações humanas. Há anos trabalhando e pesquisando sobre esse tema em países como Brasil, China, Malásia, Inglaterra e Estados Unidos, Castro afirma com convicção que esse é um dos temas que mais demandarão programas nos próximos anos. "A todo o momento surgem novas teorias e novas formas de reorganização, prometendo tornar as organizações mais competitivas. Neste campo, a psicologia industrial pode contribuir muito para identificar e desenvolver novos modelos de comportamento nos ambientes organizacionais", afirma. Em entrevista concedida ao RH.com.br, ele fala sobre a importância de se trabalhar a inteligência emocional no âmbito organizacional. Confira!
RH.COM.BR - O que podemos chamar de inteligência emocional?
Alfredo Pires de Castro - A inteligência emocional está relacionada à capacidade que todo ser humano tem de perceber e gerenciar suas emoções nas suas relações com outras pessoas, no dia-a-dia. Esse termo foi definido por Daniel Goleman, Ph.D. graduado pela Universidade de Harvard, nos últimos 10 anos. Ele examinou cerca de 500 organizações, grandes e pequenas, em todo o mundo e concluiu que os profissionais mais bem-sucedidos não são os que apresentam maior grau de inteligência ou conhecimento acadêmico. Mais do que o QI ou o conhecimento especializado, hoje o que determina o êxito no trabalho é a inteligência emocional.
RH - Por que é importante as empresas trabalharem a inteligência emocional?
Castro - É importante porque estamos na era da mudança constante. O atual mercado de trabalho, com sua estrutura menos hierarquizada e posições menos estanques, impôs novos parâmetros de avaliação. Mais do que nunca, iniciativa e empatia, capacidade de trabalho em equipe, flexibilidade e liderança são qualidades fundamentais no currículo de um profissional de primeira linha. Todo executivo moderno, por exemplo, deve desenvolver habilidades como motivar a si mesmo e persistir mediante frustrações; controlar impulsos, canalizando emoções para situações apropriadas; praticar e estimular a motivação, motivar pessoas, ajudando-as a liberarem seu talento, e conseguir seu engajamento aos objetivos de interesses comuns.
RH - Como essa característica humana pode ser trabalhada no dia-a-dia de uma empresa?
Castro - Trabalho com projetos de inteligência emocional há vários anos. Logo na fase inicial, fazemos um mapeamento do perfil individual de inteligência emocional, em cinco grandes áreas de habilidades que comprendem: auto-conhecimento emocional (reconhecer um sentimento enquanto ele ocorre); controle emocional (habilidade de lidar com seus próprios sentimentos, adequando-os para a situação); auto-motivação (valorizar e potencializar suas virtudes); reconhecimento de emoções em outras pessoas (empatia); habilidade em relacionamentos inter-pessoais (perceber e valorizar as relações com outros). A partir desse levantamento, criamos alternativas e sessões de treinamento individual e grupal para o desenvolvimento da inteligência emocional no trabalho. Com isso, os executivos passam a reconhecer virtudes nas outras pessoas, percebendo qualidades em comportamentos que antes eram interpretados como "diferentes" ou inadequados.
RH - Em que momento uma empresa identifica que precisa trabalhar a inteligência emocional das equipes?
Castro - Quando fica claro que o ambiente não está mais valorizando a diversidade existente e sim fazendo com que as diferenças sejam vistas como um "problema", ao invés de ser parte da solução. No estudo de Goleman, que se aplica tanto a indivíduos como a grupos ou empresas, torna-se importante compreender que, ao contrário do QI, que se mantém estável ao longo da vida, a inteligência emocional é algo que se pode aprender e aprimorar. Temos que assumir nossas diferenças, torná-las elementos positivos de diferenciação e passar a conduzir nossos relacionamentos com maior habilidade e sensibilidade.
RH - É muito complexo trabalhar a inteligência emocional das pessoas dentro do universo corporativo?
Castro - Sim, porque desempenhamos papéis sociais muitas vezes não totalmente adequados ao que realmente somos. Quando nos sentimos incomodados com o comportamento de uma pessoa, nossas emoções nos alertam. Se nós aprendermos a confiar em nossas emoções e sensações, isto nos ajudará a ajustar nossos limites que são necessários para proteger nossa saúde física e mental. Nossas emoções ajudam-nos a comunicar com os outros. Nossas expressões faciais, por exemplo, podem demonstrar uma grande quantidade de emoções. Com o olhar, podemos sinalizar que precisamos de ajuda. Se formos também verbalmente hábeis, juntamente com nossas expressões teremos uma possibilidade maior de melhor expressar nossas emoções. Também é necessário que nós sejamos eficazes para escutar e entender os problemas dos outros. Por isso, a inteligência emocional é complexa no mundo corporativo. E é por essa razão que acabamos por ter que implementar processos mais sofisticados, mas que acabam gerando resultados impressionantes
RH - Quais as principais dificuldades que as empresas enfrentam, quando trabalham a inteligência emocional dos colaboradores?
Castro - O fato principal está ligado ao legado cultural do que era trabalhar, para quem viveu a segunda metade do século 20. É necessário ir mais além, perceber emoções, vivenciá-las e "gerenciá-las". Nossas emoções são talvez a nossa maior fonte de conhecimento, capaz de unir todos os membros de uma equipe para um mesmo objetivo. Claramente, as diferenças culturais, religiosas e políticas, às vezes, não permitem isto. Estas questões dificultam um processo real de trabalhar com a inteligência emocional. Mas, repito e enfatizo, em todos os projetos em que tive oportunidade de trabalhar com ela, obtive resultados impactantes.
RH - Quem estaria apto para trabalhar a inteligência emocional, no âmbito organizacional?
Castro - Todos. Porém, a área de RH geralmente adota o tema e procura criar espaços e oportunidades para que isso aconteça. Nossas emoções foram desenvolvidas naturalmente através de milhões de anos de evolução. Como resultado, nossas emoções possuem o potencial de nos servir como um sofisticado e delicado sistema interno de orientação. Nossas emoções nos alertam quando as necessidades humanas naturais não são encontradas. Por exemplo, quando nos sentimos sós, nossa necessidade é encontrar outras pessoas. Quando nos sentimos receosos, nossa necessidade é por segurança. Quando nos sentimos rejeitados, nossa necessidade é por aceitação. Por isso, a área de RH ou de T&D está tão atenta e geralmente desempenha um papel fundamental para o desenvolvimento das emoções no ambiente organizacional.
RH - Qual o papel da área de RH nesse contexto?
Castro - Desenhar projetos, identificar necessidades de desempenho dos profissionais, enfim, promover a discussão prática deste tema na organização, como parte fundamental das estratégia de seleção, retenção e desenvolvimento das pessoas. Qualquer organização seja uma igreja, uma empresa ou um clube, por ser um organismo vivo, é feita de pessoas. E pessoas têm crenças, valores, sentimentos, inteligência e principalmente diferenças. Em qualquer ambiente encontramos pessoas com habilidades diferentes, competências diferentes e aspectos motivadores diferentes. A organização do século 21 é formada por equipes e redes de equipes. As mais modernas e mais preparadas para esse novo cenário valorizam seus recursos humanos e lhes dão oportunidades para que possam desenvolver conhecimento sobre sua inteligência emocional.
RH - Quais os benefícios que os trabalhos voltados para a inteligência emocional podem trazer para as empresas e os colaboradores?
Castro - Estive, nos últimos dois anos, prestando consultoria para vários grupos virtuais do Projeto Amazon da Ford, atuando entre São Paulo, Buenos Aires, Londres e Detroit. A estratégia da Ford, para a América Latina, começou a mudar com a implantação do Programa Amazon - o mais moderno e ousado projeto de desenvolvimento de produtos da empresa americana no mundo. O objetivo é a criação de três plataformas de automóveis que vão ser comercializadas nos países da América Latina, Índia e Oriente. O Projeto Amazon inaugura um conceito inteiramente novo no processo de fabricação de carros, em que montadora e fornecedores ocupam uma mesma área, exercendo uma gestão compartilhada. A idéia é instalar uma cadeia produtiva completa e as equipes trabalharem virtualmente com liderança situacional, dependendo do programa de produção que está sendo realizado. Eles obrigatoriamente desenvolvem e maximizam sua inteligência emocional, pois as equipes virtuais são compostas por colaboradores de diferentes organizações. Estive desenvolvendo um plano de trabalho conjunto, para divulgar uma cultura específica, com os fornecedores que também são investidores no empreendimento. Neste novo modelo empresarial, em que cultura e valores devem ser compartilhados, há condições para uma maior valorização da diversidade e do trabalho virtual. Os colaboradores passam a conviver no mesmo espaço industrial e em equipes multidisciplinares e virtuais - obtendo maior satisfação e mais produtividade.
RH - No Brasil, as empresas têm mostrado preocupação em trabalhar a inteligência emocional dos funcionários?
Castro - As melhores empresas para se trabalhar já incluem o desenvolvimento da inteligência emocional há alguns anos. Organizações como Bradesco, Gillette, Nazca, Unisys, Avon, dentre outras, têm buscado investir mais nesse tópico. Esta é sem dúvida uma tendência a ser seguida pelas demais empresas.
Palavras-chave: | Alfredo Castro | inteligência emocional |
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