Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH.COM.BR - O que podemos chamar de espiritualidade corporativa?
Robson Santarém - Primeiramente, considero importante dizer o que entendo por espiritualidade. Podemos dizer que é um modo de olhar a si mesmo e a vida, além de nos ajuda a viver melhor. Este modo de ser deriva da consciência que nós temos da presença do Sagrado em nossa vida. A vida é uma totalidade, embora apresente manifestações distintas não significa que tenha que ser compartimentada em setores estanques. Deste modo não se pode separar a vida espiritual da totalidade da vida humana, que acontece essencialmente nas relações sociais. Deste modo, a espiritualidade nas empresas refere-se em primeiro lugar ao respeito à vida. Isto significa considerar o ser humano na sua totalidade, respeitando e investindo em todas as suas dimensões: física, intelectual, emocional e espiritual; criando uma cultura corporativa sustentada em valores, fazendo com que a ética e os valores humanos universais e espirituais iluminem as decisões, as estratégias, as políticas e todos os relacionamentos da organização.
RH - A espiritualidade nas empresas está diretamente relacionada a alguma prática religiosa?
Robson Santarém - Absolutamente não. A espiritualidade transcende às práticas religiosas. Não podemos conceber a espiritualidade em um sentido restrito de práticas religiosas e ritualísticas de acordo com denominações religiosas. Entender o caminho espiritual como o caminho da consciência de que o transcendente escolheu o ser humano como sua morada, é tomar consciência da suprema dignidade humana, da condição de igualdade entre todos os humanos e ampliar a própria consciência para uma fraternidade universal, irmanando-se não somente aos iguais, mas também com o diferente e com todos os demais seres que contêm em si o germe da transcendência e a essência que a todos originou. Se a espiritualide não for inclusiva e respeitar o diferente, não poderá ser considerada como tal. Isso vale também para as religiões. Há uma frase de São João que diz "como dizer que ama a Deus que não vê, se não ama o irmão a quem vê?".
RH - De que forma a espiritualidade nas empresas deve ser trabalhada, para que a mesma não seja confundida com religião?
Robson Santarém - A empresa é um organismo que deve e precisa descobrir a sua dimensão transcendental: a sua identidade, a sua razão de existir e a sua missão. Precisa definir os seus valores e as suas crenças sobre os quais se apoiarão as suas políticas, procedimentos, ações internas e externas. Nesse sentido poderíamos afirmar que alguns requisitos, além dos já mencionados, são fundamentais para fortalecer o espírito da organização.
RH - Que requisitos são esses?
Rbson Santarém - Podemos citar a criação de um espaço para que os colaboradores se realizem no ambiente de trabalho através de uma gestão participativa e onde a inovação, a criatividade, o talento e as potencialidades de cada um possam emergir contribuindo efetivamente para resultados. Pode-se estabelecer, com fornecedores e clientes, relações de parcerias duradouras, tendo a ética, a transparência, a confiança e a colaboração mútuas como requisitos vitais para o êxito. Por fim, também a organização precisa fazer-se solidária e assumir o papel de cidadã contribuindo com o bem comum. Suas ações socialmente responsáveis com relação à comunidade, ao meio ambiente, enfim à vida humana, possibilitarão aos colaboradores orgulhar-se da empresa em que trabalham e à sociedade orgulhar-se de ter uma empresa cidadã. Nesse caso, todos colherão os merecidos frutos.
RH - Além dos já citados, que outros meios as empresas podem usar para estimular a espiritualidade entre os clientes internos?
Robson Santarém - Existem diversos meios para promover a espiritualidade. Muitos já foram citados e outros serão ainda desenvolvidos pela inteligência e sabedoria das pessoas comprometidas com a vida. Há empresas que estimulam a solidariedade através do trabalho voluntário, outras estão muito bem inseridas em suas comunidades e nela agindo e interagindo com suas ações socialmente responsáveis. Há aquelas que abrem espaço para meditação, reflexões e orações e ainda as que inserem o assunto nos programas de treinamento e desenvolvimento, enfim cada organização com a sua cultura sabe encontrar o melhor caminho para se desenvolver com maturidade e equilíbrio, proporcionando resultados favoráveis para todos.
RH - Por que algumas empresas ainda sentem dificuldade de trabalhar o lado espiritual dos seus colaboradores?
Robson Santarém - Na verdade são as pessoas que sentem dificuldade de trabalhar essa dimensão em si mesmas e de aceitá-la nos outros. Marcados por uma cultura desenvolvida nos ultimos séculos à luz do paradigma mecanicista, cartesiano que privilegiou a razão, a lógica, a análise em detrimento da emoção e do espírito, nós nos vimos fragmentados, ou seja, o ser humano, a sociedade, a educação, as empresas, de tal modo que, entre outros aspectos, esta fragmentação acarretou, na esfera econômica, o desequilíbrio e a devastação ecológica. Na esfera social as pessoas vivem separadas umas das outras em permanente clima de insegurança e cada pessoa, em si mesma, vive dramaticamente o dualismo corpo e coração, mente e espírito, sujeitando-se a uma visão materialista e consumista que privilegia o ter e o prazer. A fragmentação é tamanha que o ser humano foi desintegrado. Resgatar a inteireza humana é o desafio. Creio que a dificuldade possa estar justamente no modelo mental, paradigma, estabelecido. Romper com esse modelo é abrir-se para outras possibilidades e fazer a síintese daquilo que no passado, e ainda hoje, foi dividido.
RH - O Sr. acredita que existe preconceito em relação a esse assunto?
Robson Santarém - Creio que a principal razão está na dicotomia razão-emoção, matéria-espírito, pessoal-profissional. Em função desse paradigma julgamos que não devemos misturar as coisas e vida pessoal com profissional e perpetuamos a maldita fragmentação que gera tantos problemas. Penso, ainda, que todos as pessoas anseiam por essa síntese, ou seja, pela auto-realização, felicidade e não há outro caminho senão o caminho do equilíbrio entre todas as dimensões. Descobrir que somos muito mais que o ser corporal, físico, material e mesmo emocional, e que além de tudo há uma outra dimensão que tudo transcende e nos integra profundamente com tudo e com todos, abre-nos a visão e a nossa percepção para outras realidades capazes de nos tornar inteiros, íntegros, plenos.
RH - A humanização pode ser considerada um dos pilares da espiritualidade nas empresas
Robson Santarém - Perfeitamente. O fim último deste processo é a humanização das organizações, só que eu penso que é a espiritualidade é o pilar, pois é ela que deve dar sustentação às causas humanistas. Não há espiritualidade sem humanização e todo processo de humanização guarda em si as sementes da espiritualidade.
RH - Quais as vantagens que a espiritualidade traz às organizações?
Robson Santarém - A gente sempre está pensando "o que vou ganhar com isso?", não é mesmo? Cultivar a espiritualidade deveria ser simplesmente algo a ser feito gratuitamente, pela própria vida, pelo bem, pelo bem comum, para ser mais feliz. Mas, se é para falar na linguagem dos negócios, creio que podemos listar inúmeros benefícios para a empresa. Ao respeitar o ser humano em sua inviolável dignidade e inteireza a empresa terá melhor clima organizacional, pessoas mais felizes e conseqüentemente clientes melhor atendidos, melhor qualidade e produtividade, melhor imagem da empresa na sociedade que respeitará a marca, o produto, os serviços e todos sentirão orgulho dessa organização: empregados, acionistas, clientes, comunidade, entre outros.
RH - Em que as pessoas espiritualizadas destacam-se das demais?
Robson Santarém - As pessoas espiritualizadas, sejam aquelas que participam de uma religião ou não, devem ser reconhecidas pelos seus valores. O livro bíblico "Atos dos Apóstolos" relata que no início do Cristianismo quando os cristãos passavam os pagãos se admiravam e diziam: "vejam como eles se amam!". A espiritualidade manifestava-se de tal maneira que todos percebiam. Os valores devem ser traduzidos em atitudes: o respeito pelo outro, a escuta, a maneira de atender ao cliente, a solidariedade, o estilo de liderança, o trabalho em equipe. Observe que falamos de competências que fazem a diferença no mercado de trabalho.
RH - Qual a participação da área de RH dentro do contexto da espiritualidade?
Robson Santarém - A área de RH é a grande responsável pela "alma" da empresa. Dela devem emanar, em sintonia com as estratégias corporativas e as demais áreas, as estratégias de desenvolvimento de todos os colaboradores, assim como de contratação e retenção dos chamados talentos, além de todas as demais diretrizes e políticas da organização. Nesse contexto, a área de RH tem o privilégio e o dever de contribuir implementando ou influenciando para que os valores humanos, presentes nesta dimensão, possam impregnar a cultura da empresa e que seus líderes e equipes assim sejam desenvolvidos.
Palavras-chave: | espiritualidade |



