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21/02/2005
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Espiritualidade corporativa: vencendo a barreira física

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Muitas empresas buscam estimular os colaboradores através de programas que oferecem premiações ou mesmo cestas de benefícios atraentes. Mas em alguns casos, apesar de conceder esses diferenciais, o clima interno continua cercado por insatisfação e conflitos. Isso, muitas vezes acontece, porque o interior da pessoas está sendo deixado de lado ou simplesmente nunca foi trabalhado adequadamente pela organização. "A espiritualidade reflete no respeito pelo próximo, na solidariedade, no estilo de liderança e até no trabalho em equipe", afirma o consultor e escritor Robson, Santarém, autor do livro "Precisa-se (de) ser humano", Editora Qualitymark. Na entrevista concedida ao RH.com.br, ele afirma ainda que a espiritualidade corporativa não deve ser confundida com religião, mas sim um meio que que permite o respeito às dimensões física, intelectual, emocional e espiritual. Confira a entrevista na íntegra e faça uma análise interior.

RH.COM.BR - O que podemos chamar de espiritualidade corporativa?
Robson Santarém - Primeiramente, considero importante dizer o que entendo por espiritualidade. Podemos dizer que é um modo de olhar a si mesmo e a vida, além de nos ajuda a viver melhor. Este modo de ser deriva da consciência que nós temos da presença do Sagrado em nossa vida. A vida é uma totalidade, embora apresente manifestações distintas não significa que tenha que ser compartimentada em setores estanques. Deste modo não se pode separar a vida espiritual da totalidade da vida humana, que acontece essencialmente nas relações sociais. Deste modo, a espiritualidade nas empresas refere-se em primeiro lugar ao respeito à vida. Isto significa considerar o ser humano na sua totalidade, respeitando e investindo em todas as suas dimensões: física, intelectual, emocional e espiritual; criando uma cultura corporativa sustentada em valores, fazendo com que a ética e os valores humanos universais e espirituais iluminem as decisões, as estratégias, as políticas e todos os relacionamentos da organização.

RH - A espiritualidade nas empresas está diretamente relacionada a alguma prática religiosa?
Robson Santarém - Absolutamente não. A espiritualidade transcende às práticas religiosas. Não podemos conceber a espiritualidade em um sentido restrito de práticas religiosas e ritualísticas de acordo com denominações religiosas. Entender o caminho espiritual como o caminho da consciência de que o transcendente escolheu o ser humano como sua morada, é tomar consciência da suprema dignidade humana, da condição de igualdade entre todos os humanos e ampliar a própria consciência para uma fraternidade universal, irmanando-se não somente aos iguais, mas também com o diferente e com todos os demais seres que contêm em si o germe da transcendência e a essência que a todos originou. Se a espiritualide não for inclusiva e respeitar o diferente, não poderá ser considerada como tal. Isso vale também para as religiões. Há uma frase de São João que diz "como dizer que ama a Deus que não vê, se não ama o irmão a quem vê?".

RH - De que forma a espiritualidade nas empresas deve ser trabalhada, para que a mesma não seja confundida com religião?
Robson Santarém - A empresa é um organismo que deve e precisa descobrir a sua dimensão transcendental: a sua identidade, a sua razão de existir e a sua missão. Precisa definir os seus valores e as suas crenças sobre os quais se apoiarão as suas políticas, procedimentos, ações internas e externas. Nesse sentido poderíamos afirmar que alguns requisitos, além dos já mencionados, são fundamentais para fortalecer o espírito da organização.

RH - Que requisitos são esses?
Rbson Santarém - Podemos citar a criação de um espaço para que os colaboradores se realizem no ambiente de trabalho através de uma gestão participativa e onde a inovação, a criatividade, o talento e as potencialidades de cada um possam emergir contribuindo efetivamente para resultados. Pode-se estabelecer, com fornecedores e clientes, relações de parcerias duradouras, tendo a ética, a transparência, a confiança e a colaboração mútuas como requisitos vitais para o êxito. Por fim, também a organização precisa fazer-se solidária e assumir o papel de cidadã contribuindo com o bem comum. Suas ações socialmente responsáveis com relação à comunidade, ao meio ambiente, enfim à vida humana, possibilitarão aos colaboradores orgulhar-se da empresa em que trabalham e à sociedade orgulhar-se de ter uma empresa cidadã. Nesse caso, todos colherão os merecidos frutos.

RH - Além dos já citados, que outros meios as empresas podem usar para estimular a espiritualidade entre os clientes internos?
Robson Santarém - Existem diversos meios para promover a espiritualidade. Muitos já foram citados e outros serão ainda desenvolvidos pela inteligência e sabedoria das pessoas comprometidas com a vida. Há empresas que estimulam a solidariedade através do trabalho voluntário, outras estão muito bem inseridas em suas comunidades e nela agindo e interagindo com suas ações socialmente responsáveis. Há aquelas que abrem espaço para meditação, reflexões e orações e ainda as que inserem o assunto nos programas de treinamento e desenvolvimento, enfim cada organização com a sua cultura sabe encontrar o melhor caminho para se desenvolver com maturidade e equilíbrio, proporcionando resultados favoráveis para todos.

RH - Por que algumas empresas ainda sentem dificuldade de trabalhar o lado espiritual dos seus colaboradores?
Robson Santarém - Na verdade são as pessoas que sentem dificuldade de trabalhar essa dimensão em si mesmas e de aceitá-la nos outros. Marcados por uma cultura desenvolvida nos ultimos séculos à luz do paradigma mecanicista, cartesiano que privilegiou a razão, a lógica, a análise em detrimento da emoção e do espírito, nós nos vimos fragmentados, ou seja, o ser humano, a sociedade, a educação, as empresas, de tal modo que, entre outros aspectos, esta fragmentação acarretou, na esfera econômica, o desequilíbrio e a devastação ecológica. Na esfera social as pessoas vivem separadas umas das outras em permanente clima de insegurança e cada pessoa, em si mesma, vive dramaticamente o dualismo corpo e coração, mente e espírito, sujeitando-se a uma visão materialista e consumista que privilegia o ter e o prazer. A fragmentação é tamanha que o ser humano foi desintegrado. Resgatar a inteireza humana é o desafio. Creio que a dificuldade possa estar justamente no modelo mental, paradigma, estabelecido. Romper com esse modelo é abrir-se para outras possibilidades e fazer a síintese daquilo que no passado, e ainda hoje, foi dividido.

RH - O Sr. acredita que existe preconceito em relação a esse assunto?
Robson Santarém - Creio que a principal razão está na dicotomia razão-emoção, matéria-espírito, pessoal-profissional. Em função desse paradigma julgamos que não devemos misturar as coisas e vida pessoal com profissional e perpetuamos a maldita fragmentação que gera tantos problemas. Penso, ainda, que todos as pessoas anseiam por essa síntese, ou seja, pela auto-realização, felicidade e não há outro caminho senão o caminho do equilíbrio entre todas as dimensões. Descobrir que somos muito mais que o ser corporal, físico, material e mesmo emocional, e que além de tudo há uma outra dimensão que tudo transcende e nos integra profundamente com tudo e com todos, abre-nos a visão e a nossa percepção para outras realidades capazes de nos tornar inteiros, íntegros, plenos.

RH - A humanização pode ser considerada um dos pilares da espiritualidade nas empresas
Robson Santarém - Perfeitamente. O fim último deste processo é a humanização das organizações, só que eu penso que é a espiritualidade é o pilar, pois é ela que deve dar sustentação às causas humanistas. Não há espiritualidade sem humanização e todo processo de humanização guarda em si as sementes da espiritualidade.

RH - Quais as vantagens que a espiritualidade traz às organizações?
Robson Santarém - A gente sempre está pensando "o que vou ganhar com isso?", não é mesmo? Cultivar a espiritualidade deveria ser simplesmente algo a ser feito gratuitamente, pela própria vida, pelo bem, pelo bem comum, para ser mais feliz. Mas, se é para falar na linguagem dos negócios, creio que podemos listar inúmeros benefícios para a empresa. Ao respeitar o ser humano em sua inviolável dignidade e inteireza a empresa terá melhor clima organizacional, pessoas mais felizes e conseqüentemente clientes melhor atendidos, melhor qualidade e produtividade, melhor imagem da empresa na sociedade que respeitará a marca, o produto, os serviços e todos sentirão orgulho dessa organização: empregados, acionistas, clientes, comunidade, entre outros.

RH - Em que as pessoas espiritualizadas destacam-se das demais?
Robson Santarém - As pessoas espiritualizadas, sejam aquelas que participam de uma religião ou não, devem ser reconhecidas pelos seus valores. O livro bíblico "Atos dos Apóstolos" relata que no início do Cristianismo quando os cristãos passavam os pagãos se admiravam e diziam: "vejam como eles se amam!". A espiritualidade manifestava-se de tal maneira que todos percebiam. Os valores devem ser traduzidos em atitudes: o respeito pelo outro, a escuta, a maneira de atender ao cliente, a solidariedade, o estilo de liderança, o trabalho em equipe. Observe que falamos de competências que fazem a diferença no mercado de trabalho.


RH - Qual a participação da área de RH dentro do contexto da espiritualidade?
Robson Santarém - A área de RH é a grande responsável pela "alma" da empresa. Dela devem emanar, em sintonia com as estratégias corporativas e as demais áreas, as estratégias de desenvolvimento de todos os colaboradores, assim como de contratação e retenção dos chamados talentos, além de todas as demais diretrizes e políticas da organização. Nesse contexto, a área de RH tem o privilégio e o dever de contribuir implementando ou influenciando para que os valores humanos, presentes nesta dimensão, possam impregnar a cultura da empresa e que seus líderes e equipes assim sejam desenvolvidos.

Palavras-chave: | espiritualidade |

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COMENTÁRIOS (2)
Simone Anjerosa de Almeida Camargo em 13/09/2009:
Adorei a matéria e socializei com os colegas do meu curso de Pós Lato Sensu em Gestão de RH e Psicologia Organizacional da Universidade Metodista. Parabéns ao Consultor Robson, à Jornalista Patrícia, e à equipe RH que contribui significamente com suas matérias, artigos... Abraços, Simone Camargo

MARCELO LIMA em 27/05/2009:
Achei o artigo muito interessante! Até então nunca tinha ouvido falar em espiritualidade corporativa, e este artigo me deu muitas reflexões e possibilidades da vida no trabalho. Quem me dera ter ligo algo parecido hà alguns anos!! Acredito que a espiritualidade corporativa tem um papel fundamental e que vai muito além do que imaginamos. Trata-se de um tema que pode modificar muito mais do que a qualidade de vida das pessoas e muito mais do que trazer lucros para as organizações. Ainda estamos por viver as grandes transformações que ela nos dará, mas teremos que plantar essa semente agora, para que esse futuro seja possível.

 
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