Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH.com.br - Que razões o motivaram a trabalhar o tema "criatividade", uma vez que esse é um assunto amplamente debatido, inclusive, no meio corporativo?
Geraldo Ferreira - Há algum tempo vínhamos percebendo que o tema criatividade, de uma maneira geral, era entendido como um fim em si mesmo, ou seja, tratava-se do assunto - com raríssimas e honrosas exceções - como se fosse alguma coisa que, ao término de um curso específico, pudesse vir gerar um diploma que certificasse que aquele determinado indivíduo, a partir de então, tornara-se uma pessoa criativa. No entanto, criatividade não é matéria para ser focada de forma cartesiana, sob pena de se diluir e perder a sua principal essência, que nada mais é do que o exercício do pensamento distanciado dos dogmas consagrados pelo status quo vigente e que nos possibilita sermos remetidos para a percepção do novo, para soluções não pensadas até então.
RH - Qual a linha de trabalho que o Sr. seguiu com sua obra?
Geraldo Ferreira - Resolvemos não definir regras, mandamentos e modelos pasteurizados para esse tema, pois é o mais curto atalho em direção à ineficácia da proposta. Assim sendo, preferimos apostar em um trabalho mais abrangente, de forma a possibilitar que a criatividade pudesse vir a ser entendida como ferramenta e não como finalidade, de forma a permitir que o entendimento correto e o conseqüente desabrochar dessa capacidade inata de todo e qualquer ser humano, possam vir a gerar efetivos e palpáveis ganhos individuais e corporativos.
RH - Para realizar esse trabalho, onde o Sr. buscou as informações e os dados necessários?
Geraldo Ferreira - Todo o nosso trabalho foi desenvolvido a partir das observações de campo que tivemos a oportunidade de fazer em organizações nas quais já atuamos - Banco Nacional, Bamerindus/HSBC, Lar Chase, Intercontinental, Delfin, Caixa Econômica Federal, Wella, Petróleo Ipiranga, citando apenas algumas - que aliado a um estudo permanente e contínuo das tendências de uma acelerada transformação tecnológica, nos foi conduzindo à inevitável percepção da poderosa influência transformadora propiciada pelas novas metodologias sistêmicas implantadas e vigentes nas organizações. No entanto, e por mais paradoxal que em um primeiro momento essa constatação possa parecer, também verificamos que, paralelamente a esse fantástico e muito bem-vindo desenvolvimento - que desobrigando das atividades meramente mecânicas liberaria um espaço mais estratégico para a atuação do corpo funcional - em matéria de conceituação da metodologia do trabalho, continuamos estagnados nos conceitos da revolução industrial, posto que são poucos, muito poucos, os ambientes laborais que hoje se propõem a privilegiar o saudável exercício do pensar: a enferrujada máxima de Smith, Taylor, Fayol, Weber - e de alguns outros menos votados - do "manda quem pode, obedece quem tem bom juízo", infelizmente, ainda é dogma inconteste em muitos e muitos contextos organizacionais. A grande maioria da população corporativa - pelos quatro cantos do planeta, registre-se - ainda continua relegada a desempenhar o papel de babysitter, só que agora, ao invés das máquinas, toma conta dos programas nelas embutidos, não lhes deixando faltar a alimentação e as horas de sono previstas nos manuais castradores de qualquer iniciativa diferenciada. Dentre outras inúmeras motivações, portanto e sem sombra de dúvida, esse cenário cada vez mais deslocado em nossa atual modernidade colaborou, sobremaneira, para que nos propuséssemos a apresentar esse trabalho.
RH - Qual o público-alvo que o Sr. espera atingir com seu livro?
Geraldo Ferreira - O público-alvo é a nossa própria espécie: o Homo Sapiens. Estando ou não já inserido no mercado de trabalho. Desde que satisfeitas as necessidades básicas de alimentação, sono e abrigo, começamos a sonhar com o reconhecimento da sociedade na qual estamos inseridos. Em um primeiro momento, a emulação, ou seja, o sentimento que leva o indivíduo a tentar igualar-se a outrem, comanda as ações. O passo seguinte é a tentativa de destacar-se na multidão, de ser reconhecido enquanto individualidade. E é aí que o exercício feito anteriormente - de procurar entender e copiar o gestual do grupo no qual pretendia inserir-se - perde um pouco de sentido, posto que para ser reconhecido não mais como grupo, mas sim como individualidade, é necessário apresentar-se com uma proposta diferenciada que, preferencialmente, venha a beneficiar o todo daquele contexto social ou laboral.
RH - Mas, o Sr. recomenda a leitura para alguém em especial?
Geraldo Ferreira - Recomendamos a leitura para os que pretendem começar a pensar no assunto criatividade, dentro e fora dos ambientes corporativos, ou para os que entendem que é hora de se reciclar, reforçando os seus próprios conceitos de certo e de errado. Sem dogmatismos, com certeza não é um livro de receitas aonde as dosagens prescritas já se encontram devidamente testadas e devem ser seguidas sob o rigor de uma liturgia monástica.
RH - Quais os principais fatores que protelam e limitam o crescimento das organizações?
Geraldo Ferreira - Sem medo de errar, é o medo de errar o fator que mais protela ou limita o crescimento das organizações, pois é ele quem gera as atmosferas de hierarquização rígida e inflexível, fazendo com que o corpo funcional repita-se, normativamente, em moto-contínuo. Sair dos padrões estabelecidos é pecado grave e, geralmente, não passível de absolvição. Inovar, arriscar, expor-se, mesmo que com premissas bem fundamentadas, são verbos que não aceitam conjugação nos ambientes de clima organizacional fechado.
RH - Isso ainda é uma constante dentro das empresas?
Geraldo Ferreira - Essa realidade ainda se faz muito presente em vista de que os avanços tecnológicos foram absorvidos como prioridade, em detrimento da formatação de um novo modelo laboral que contemplasse o entendimento da real utilidade e dimensão dos instrumentos incorporados, ou seja, meramente passou-se a fazer no computador, o que antes era feito no papel. Os manuais não se atualizaram, a não ser em relação aos capítulos relativos ao de como fazer funcionar a nova máquina que substituiu o papelório. Os sistemas modernizaram-se, mas os processos continuaram os mesmos. Confundiu-se a modernidade com o "modernoso". Porém, mais do que tudo, o que faz com que esse quadro de estagnação permaneça inalterado em relação aos idos do início do século passado, é a mais absoluta falta de visão estratégica por parte de um grande número de executivos que, sistematicamente, a trocam pelo imediatismo dos números que comporão o próximo balanço. E o que é pior, muitas vezes agem não por ignorância, mas em causa própria, com vistas a ampliar a sua personalíssima participação naqueles resultados.
RH - Quais as características de uma empresa que estimula a criatividade dos profissionais?
Geraldo Ferreira - A criatividade é um dom inato, característico, peculiar e exclusivo da espécie humana. Um cão pastor alemão, quando bem treinado, executa determinadas tarefas específicas com destreza e pouca margem de erro. Essas habilidades são pertinentes ao código genético da raça. O mesmo acontece com os golfinhos de Miami, com os elefantes do circo de Moscou e com os leões e tigres nos picadeiros dos shows. Não se tem notícia de que qualquer animal irracional tenha-se comportado de maneira diferente da esperada ou, pelo menos, previsível. Já com a espécie humana, não. A imprevisibilidade de idéias e de comportamentos é uma constante. Dessa maneira, quando os ambientes organizacionais privilegiam o maquinário em detrimento da capacidade criativa da totalidade de seu corpo funcional - independentemente da função ou nivelamento hierárquico de cada profissional - literalmente, equivale a estar acendendo um charuto com uma nota de cem reais. A principal missão do homem no planeta é a de pensar, inovar, renovar, pensar de novo, progredir sempre. Essa é a sua mais alta e sublime tarefa. Portanto, quando relegado a babysitter do maquinário, perde essência, fica sem horizontes, desmotiva-se. Ora, o homem desmotivado é um ser infeliz e os seres infelizes são improdutivos. Conseqüentemente, a grande diferença entre os empreendimentos que privilegiam um clima organizacional aberto e os que ainda insistem na visão processualística cartesiana, nada mais é do que a de se posicionarem muito bem ou muito mal em relação ao público-alvo que pretendam seduzir. Todo o resto é mera conseqüência.
RH - Existe uma receita para ser criativo?
Geraldo Ferreira - É claro que não existe uma receita de bolo universal para estimular um ambiente criativo nos diversos contextos organizacionais ou mesmo individualmente. Cada caso é um caso, pois, afinal, empresa é gente e robô é robô, valendo registrar que a máquina não consegue emprestar-se importância ou dimensão sem um sistema empacotado pela genialidade humana. Portanto, o máximo que se pode sugerir é que para se fazer um bolo nos moldes tradicionais alguns ingredientes são indispensáveis: farinha de trigo, leite, ovos, fermento em pó, açúcar e manteiga. Porém, a adaptação ou sofisticação da receita pertencerá a toda equipe que, travestida de mestre cuca corporativa, desempenhará suas funções sempre motivada pela expectativa de poder surpreender o grupo e o mercado com um sabor diferenciado e de boa aceitação. Em sendo assim, não deve ser recomendada, aleatoriamente, uma metodologia padrão para o estímulo da criatividade dentro das organizações. Em nossas intervenções de consultoria, a primeira preocupação é a de procurar entender as regras formais e informais dos diversos grupos e, a partir daí, mapear o clima organizacional. Isso feito, a segunda etapa é a da elaboração do diagnóstico e da conseqüente prescrição da terapia. O último momento é o da implantação do modelo negociado com todos os escalões hierárquicos do negócio, posto que a verticalização é inimiga figadal da adesão espontânea e sem ela, não haverá qualquer expectativa de sucesso na implantação do padrão eleito.
RH - Qual a importância da área de RH quando uma empresa resolve estimular a criatividade das equipes?
Geraldo Ferreira - A área mais estratégica nas organizações é a de Recursos Humanos. Uma má performance nesse segmento influenciará todo o resto do contexto. Empresa é gente. Tudo o mais é acessório. Imagine um time de futebol onde os jogadores foram mal recrutados e, conseqüentemente, mal selecionados, além de serem mal treinados, mal remunerados e o esquema tático de jogo ser ultrapassado. Pois é, mas essa realidade não se distancia muito do ambiente real de muitas empresas. E esse contexto é o que reforça a presunção de que, em qualquer situação de crise, boa parte do contingente poderá vir a ser descartado. E nesses casos, evidentemente que sim. Imagine agora um time de futebol com um perfil oposto, ou seja, tudo é bem planejado e bem executado - esse também, registre-se, já é um contexto vigente em muitas organizações. Nesses casos, em um momento de crise conjuntural, dificilmente haverá demissões em massa, nem que para poder manter o time no jogo a organização venha a ter que se desfazer de alguns outros ativos, conservando intacto o seu capital intelectual. Aí reside a influência da área de Recursos Humanos nas decisões estratégicas corporativas, ou seja, fazer entender e solidificar a assertiva de que sem pessoal qualificado e motivado não há negócio de sucesso.
RH - E de que forma prática é possível trabalhar a criatividade nas empresas?
Geraldo Ferreira -Estimular a criatividade na organização é tarefa que exige conhecimento, negociação e atuação permanente e conseqüente por parte de todos os detentores de função gerencial, entendendo-se gerência não como um cargo, mas sim como uma função que, automaticamente, agrega-se a todos os que possuem a responsabilidade de supervisionar pessoas em qualquer nível hierárquico - do presidente ao chefe de setor - posto que a rigor, não existe gerente de contabilidade, mas sim o gerente das pessoas que trabalham no departamento de contabilidade. Dessa forma, cada vez mais se evidencia a importância do profissional de RH nos contextos laborais de ponta, ao mesmo tempo em que lhe aumenta a responsabilidade de se manter atualizado com os novos processos, tornando-se deles o melhor porta-voz e facilitador, de forma a poder orientar e estimular os gestores dos demais talentos contratados a sustentar com objetividade um clima gerador de satisfação, com vistas a permitir que, a pouco e pouco, conjuntamente com a equipe, floresça o espaço para a construção de um efetivo ambiente criativo.
Palavras-chave: | Geraldo Ferreira | criatividade |
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