Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

Emoções. Essa é uma palavra que sempre esteve presente na vida do ser humano e já determinou o destino de muitas pessoas dos mais variados níveis sociais e intelectuais. Talvez, por essa razão, expressar sentimentos é considerada uma ação que deve ser feita de forma cuidadosa e controlada. Afinal, as emoções estão diretamente relacionadas ao comportamento dos indivíduos e às escolhas que esses fazem para suas vidas tanto pessoal quanto profissional. Mas, o dia-a-dia mostra que existem organizações que consideram manifestar emoções no trabalho uma atitude antiprofissional, pois acreditam que os maiores erros e deslizes se devem às reações que as pessoas têm naqueles momentos em que as emoções tomam conta da situação.
Por outro lado, há empresas com uma visão totalmente oposta e não se preocupam apenas em oferecer novas tecnologias, remunerações e benefícios atraentes para os funcionários. Existe no universo corporativo aqueles atentos para o que se passa na mente dos profissionais, ou seja, o que o colaborador sente pela organização que atua e se suas atividades têm sentido e o estimulam a superar novos desafios. Em resumo: o colaborador está feliz com o trabalho? Em "Liderança com Inteligência Emocional", livro lançado no Brasil pela Editora MBooks, os autores David R. Caruso e Peter Salovey mostram que a emoção não é apenas importante, mas absolutamente necessária para tomarmos boas decisões, agirmos de maneira otimizada na solução de problemas, enfrentarmos as mudanças e alcançarmos o sucesso. Eles consideram que os centros emocionais do cérebro, não estão relegados a um papel secundário em nossos pensamentos e raciocínio, mas são partes integrantes do que constitui pensar, raciocinar e ser inteligente.
Em entrevista concedida ao RH.com.br, David R. Caruso fala sobre o livro que escreveu com o professor Peter Salovey e afirma que suprimir emoções no ambiente corporativo tem um custo em termos de informação e pensamento, pois as pessoas que consistentemente suprimem suas emoções recordam menos informações. Caruso que é pesquisador filiado do Departamento de Psicologia da Universidade de Yale, psicólogo empresarial e PhD já publicou mais de vinte artigos e resenhas científicas. Confira a entrevista e aproveite a leitura!
RH.com.br - Por que expressar emoções no trabalho ainda é considerada uma atitude não profissional?
David R. Caruso - Simplesmente porque os líderes parecem esperar que seus funcionários tenham sucesso e, ao mesmo tempo, não querem parecer suaves, por medo de que os elogios e os bons sentimentos resultarão em profissionais que relaxam e, conseqüentemente, perdem o enfoque no trabalho.
RH - Exprimir emoções e sentimentos é realmente necessário para as organizações no dia-a-dia?
David R. Caruso - Os sentimentos contêm dados e informações. E eles transmitem informações para os outros: como você responderá a um pedido, o que você acha de um determinado projeto e se você está aberto a novas idéias. As pessoas tentam "ler" suas emoções para melhor entender suas idéias e necessidades. Isso pode ser um diferencial no dia-a-dia corporativo.
RH - Algumas empresas estão revendo a linha de pensamento de podar as emoções dos profissionais. O que mudou no universo corporativo?
David R. Caruso - Atualmente, existe um reconhecimento de que o trabalho tem maior valor do que meramente o salário que se recebe. As pessoas querem extrair algum sentido do trabalho que realizam. Querem sentir que suas atividades são importantes e que alguém valoriza seus esforços. Há uma maior consciência de que o modo como você se sente com relação ao seu emprego determina em grande medida seu desempenho. Por isso, as algumas empresas estão atentas às emoções dos colaboradores.
RH - As empresas que se opõem à expressão das emoções no trabalho têm mais chances de fracassar?
David R. Caruso - Sabemos que suprimir suas emoções tem um custo em termos de informação e pensamento. As pessoas que consistentemente suprimem suas emoções recordam menos informações. Imagine-se em uma reunião em que você fique extremamente irritada com um colega. Você suprime seus sentimentos naquele momento e tenta sorrir durante a reunião. Todo esse esforço para suprimir a expressão, seus sentimentos, significará que você não prestará atenção ao que acontece na reunião.
RH - É possível medir, aprender e desenvolver habilidades emocionais?
David R. Caruso - Podemos medir a Inteligência Emocional de muitas maneiras. Todavia, descobrimos que as pesquisas tradicionais não funcionam tão bem - as pessoas não são boas em estimar suas próprias habilidades emocionais. Portanto, desenvolvemos um teste de habilidade da Inteligência Emocional. Essa ferramenta, o Teste de Inteligência Emocional Mayer, Salovey, Caruso (MSCEIT), pede às pessoas que resolvam problemas emocionais. Suas respostas são classificadas como mais ou menos corretas.
RH - Como desenvolver habilidades emocionais na prática?
David R. Caruso -Na prática é muito difícil desenvolver essas habilidades. Ainda não há cursos que as pessoas possam freqüentar para desenvolvê-las. Conselheiros, professores e outros que tradicionalmente transmitem habilidades podem ou não ter a Inteligência Emocional necessária para ensinar habilidades emocionais. Acreditamos que uma pessoa precisa usar uma variedade de métodos para aprender tais habilidades. O livro "Liderança com Inteligência Emocional", por exemplo, inclui muitas informações e exercícios práticos para a formação de habilidades. É um bom ponto de partida.
RH - Quais os benefícios que as emoções trazem para os funcionários e as empresas?
David R. Caruso - Quando as emoções se apresentam no ambiente corporativo, surge um senso de maior envolvimento e apreciação no trabalho desenvolvido pelos profissionais. As equipes provavelmente conseguirão formar-se mais rapidamente e se tornar mais eficientes com maior velocidade. Haverá ainda como reflexo um maior apoio social no serviço, além de menos demissões e absenteísmo.
RH - No livro "Liderança com Inteligência Emocional", juntamente com o professor Peter Salovey, o Sr. descreve uma hierarquia prática das habilidades emocionais. O Sr. poderia descrever resumidamente essa estrutura?
David R. Caruso - Nós começamos identificando uma emoção. Em seguida, observamos que a emoção influencia o modo como pensamos e aquilo em que pensamos, ou seja, é quando utilizamos as emoções de uma forma mais concreta. Em terceiro lugar, tentamos compreender a emoção, o que ela é, o que a causou e como ela mudará. Em uma quarta etapa, nós administramos a emoção, para que as pessoas permaneçam abertas aos sentimentos, para aprenderem com a emoção e para tomarem atitudes.
RH - Os líderes também precisam expressar emoções?
David R. Caruso - Os líderes ajudam a criar e a transmitir a visão da empresa. Eles lideram pelas histórias que contam. As lideranças motivam, desafiam e dirigem as atividades alheias ao se envolverem com as pessoas e a visão da organização. Por isso que os líderes tendem a expressar seus sentimentos.
RH - Existe limite para os líderes expressarem suas emoções?
David R. Caruso - Existem "regras" de exibição. Essas regras definem, por exemplo, o que é aceitável ou não expressar no trabalho. Por exemplo, é inaceitável que um líder exprima raiva de maneira que ameace os funcionários. Mas é aceitável que ele expresse seu desagrado, sua frustração ou sua raiva de maneira que comuniquem tais sentimentos aos funcionários sem ameaçá-los emocionalmente. O líder sempre deve considerar se a emoção que sente e deseja exprimir ajudará o desempenho da equipe. Há momentos e lugares corretos para exprimir emoções, e os líderes dotados de Inteligência Emocional devem reconhecer isso. Por vezes, o silêncio vale ouro.
RH - Que emoções os líderes devem expressar para suas equipes?
David R. Causo - Embora equipes com líderes positivos trabalhem juntas com maior cooperação, as lideranças devem ser capazes de usar e administrar a plena gama de emoções. Emoções diferentes são apropriadas em momentos diferentes e por diferentes razões.
Palavras-chave: | David R. Caruso | emoção | sentimento |



