Por mais que exista amor, abertura para diálogo e boa vontade é praticamente impossível imaginar que alguma família não tenha registrado em sua história um desentendimento vivido pelos seus membros. E isso vai para todos: marido e esposa, pais e filhos, irmãs e irmãos, primos e tios, enfim, existe uma relação muito longa que poderia constar aqui, mas que todos já conhecem.RH.COM.BR - Nos últimos anos, quais as principais mudanças que as empresas familiares enfrentaram?
Jeronimo Mendes - A necessidade de profissionalização da gestão para enfrentar a concorrência foi a mudança principal. Outras foram a mudança de tecnologia, a forma de gestão e as mudanças nas regras de mercado. Para sobreviver, as empresas familiares tiveram de mudar radicalmente a forma de administrar o negócio. Muitas não conseguiram.
RH - Em relação à Gestão de Pessoas nas empresas familiares, ocorreram modificações acentuadas?
Jeronimo Mendes - A geração que inicia uma empresa não é mesma que fica quando a empresa atinge a maturidade ou a que coordena a expansão da empresa. São estágios diferentes que demandam atitudes diferentes. Quando a empresa atinge a maturidade, geralmente entram os filhos e demais agregados e a confusão instala-se. Quando conseguem superar essa etapa, vem a necessidade de expansão e, geralmente, a geração seguinte não está preparada para isso. Portanto, ter consciência de que a unidade familiar não mais existe é um grande desafio. Para obter o respeito do grupo, a lição de casa começa com os membros da família. A contratação de um executivo experiente com “carta branca” e a transição dos membros da família para o “Conselho” tem sido uma experiência muito boa para muitas empresas familiares.
RH - De uma forma geral, essas mudanças nas organizações familiares já eram esperadas ou surpreenderam as expectativas do mercado?
Jeronimo Mendes - As mudanças são iminentes e não causam surpresa. A surpresa está no fato de algumas famílias continuarem mantendo um padrão de vida que a organização não consegue mais sustentar. Em muitos casos, os membros da família dilapidam o patrimônio que ainda resta, perdem o negócio, mas não perdem a “pose”.
RH - Podemos, então, afirmar que as empresas familiares passam por um processo evolutivo positivo?
Jeronimo Mendes - Somente aquelas que conseguem promover mudanças a tempo. Isso varia muito de acordo com a cultura da empresa ou a origem da família. Somente as empresas que conseguem repensar a sua forma de conduzir os negócios a todo instante passam por esse processo positivo de evolução.
RH - Segundo John Davis, professor da Havard University, os líderes são super-protetores em relação ao patrimônio construído e críticos quanto às habilidades e à lealdade. O Sr. concorda com essa afirmação?
Jeronimo Mendes - Concordo, entretanto, poucas empresas familiares têm consciência disso. Em geral, os donos se dizem democráticos e líderes, mas na realidade são super-protetores e não confiam nas pessoas, principalmente pelo fato de que, uma boa parte deles trabalha na informalidade, portanto, não pode abrir muito as informações. Se o negócio ainda for lucrativo, pior ainda para as pessoas, pois os donos continuam lucrando e não querem ou não entendem a mudança. Conheço várias empresas familiares onde os donos ganham muito dinheiro, mas o ambiente interno é um caos, os funcionários estão desmotivados e a expectativa de crescimento profissional para eles é zero. Contudo, de alguma forma, as empresas continuam ganhando dinheiro. Considero isso lamentável. Manter um negócio apenas para satisfazer o ego é uma grande tolice.
RH - Existem diferenças significativas entre os líderes que atuam em empresas familiares e os que trabalham em organizações com outras estruturas?
Jeronimo Mendes - Certamente. Nas empresas familiares, a liderança tende a ser menos formal e mais centralizada, as regras são atropeladas de acordo com a vontade dos donos, formação conta muito pouco e prevalece a última palavra. Nas grandes organizações isso até existe, mas deslizes dessa natureza são punidos com demissão. Demora, mas ocorre.
RH - As empresas familiares têm obrigatoriamente uma tendência a se verem envolvidas em questões emocionais, que geram conflitos internos?
Jeronimo Mendes - Depende de como a empresa é gerida. Numa empresa onde o pai, a mãe e os filhos trabalham, é difícil evitar o conflito, pois a empresa acaba tornando-se a extensão do lar. Se o clima está pesado em casa, dificilmente, o pai mudará o comportamento na empresa, então, pai e filho ou marido e mulher tendem a se suportar em nome dos negócios. Quando o conflito é iminente, o resultado é catastrófico, o negócio acaba e, muitas vezes, a família também. Conheço poucos negócios onde a empresa resistiu ao modelo familiar de administração.
RH - Quais os principais problemas evidenciados nas organizações familiares?
Jeronimo Mendes - Existem vários, mas os principais são: não saber separar as necessidades de dinheiro da família e as da empresa; a falta de profissionalização dos acionistas; incapacidade do líder da família de sair na hora certa; dificuldade de obter capital para crescer sem diluir a participação das famílias proprietárias; rivalidade entre os sucessores: primos, irmãos, genros e agregados; incapacidade de atrair e reter sucessores da família competentes e motivados; inabilidade para criar congruência cultural apropriada; necessidade de transferir patrimônio de uma geração para outra, entre outros.
RH - É possível a atuação de um RH Estratégico em uma empresa familiar?
Jeronimo Mendes - É uma questão delicada. O RH será sempre estratégico para qualquer empresa, mas é necessário que os acionistas tenham absoluta consciência do papel do RH. Poucos entendem que são as pessoas que fazem no negócio e raramente vemos pessoas que não são da família sendo enaltecidas nas empresas familiares. A mídia sempre mostra os donos felizes e sorridentes e nunca os grandes profissionais que existem por trás de um negócio familiar.
RH - Que recomendações o Sr. pode deixar às organizações familiares que pretendem quebrar paradigmas e se manterem competitivas?
Jeronimo Mendes - Planejar, inovar e profissionalizar a gestão. Acreditar nas pessoas e dar a elas chance de participar do processo de construção do legado. Para os sócios, sempre digo o seguinte, com muita franqueza: “caixão não tem gaveta”, portanto, de nada adianta construir um patrimônio e deixar uma história construída sem o mínimo sentido de realização. Segundo Nikos Mourkogiannis, consultor internacional, o que projeta uma empresa para frente são os princípios e não os lucros. Devemos seguir o exemplo de Anita Roddick, fundadora da Body Shop, que faleceu em setembro do ano passado. Ela nunca se preocupou com dinheiro, mas sempre lutou por causas que considerava nobres. O restante é insignificante.
Palavras-chave: | mudança | familiar | conflito |
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