Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

RH.COM.BR - Há quem afirme que ao chegar ao trabalho, consegue deixar de lado preocupações pessoais como, por exemplo, o acúmulo de dívidas. O Sr. acredita que isso é possível?
Altemir Carlos Farinhas - É ilusão dizer que as pessoas não levam os problemas de casa para o trabalho e vice-versa. A não ser que tenham criado um micro chip que uma vez instalado no cérebro regule o hipotálamo e o sistema límbico do trabalhador, impedindo qualquer comportamento emocional. Vamos utilizar como exemplo o medo. Não existe uma pessoa que não tenha medo, todos têm medo de alguma coisa, mas existem pessoas que dominam o medo. Assim como existem pessoas que por mais tristes, ou preocupadas não deixam transparecer suas emoções, são excelentes atores. Dívidas causam ansiedade, a ansiedade estanca o prazer de viver, fomenta a irritabilidade, estimula a angústia e gera um universo de doenças. Tensão emocional, aperto no tórax, cefaléias, dores musculares, fadiga excessiva, sono perturbado, transtornos alimentares, entre outras reações.
RH - A performance de uma pessoa com problemas financeiros geralmente é diferenciada daqueles profissionais que possuem as finanças equilibradas?
Altemir Carlos Farinhas - É fato que não ocupamos nem 10% da nossa capacidade mental. Problemas financeiros ocupam tanto espaço em nossa mente, que prejudicam a concentração e o raciocínio, impedindo qualquer planejamento e reação. Uma pessoa equilibrada financeiramente desenvolve facilmente os seus projetos, e é muito participativa em reuniões de trabalho. Já a pessoa com problemas financeiros, é um mero coadjuvante, seu corpo está na sala de reuniões, sua mente está lutando contra taxas de juros, cartão de crédito, empréstimos e contas a pagar.
RH - Existe alguma fórmula que permita o indivíduo saber se suas finanças estão "no vermelho"?
Altemir Carlos Farinhas - A pessoa precisa fazer o O.F.F. - Orçamento Financeiro Familiar -, que nada mais é do que escrever todas as suas receitas e as suas despesas. A conta final é simples: receitas menos despesas, caso o resultado seja negativo a pessoa está gastando mais do que ganha. Se o resultado for zero a pessoa gasta tudo o que ganha. E se o resultado for positivo, bom sinal. Sobram recursos para investir. Outra conta que deve ser feita é o I.ET. - Índice de Endividamento Total. Total das dívidas dividido pela receita líquida multiplicado por 100 é igual ao I.E.T. Por exemplo: 350 reais divididos por 1.000 reais vezes 100 é igual a 35%. O indivíduo comprometeu 35% dos seus ganhos e qualquer número acima de 30% é muito preocupante.
RH - Que fatores mais influenciam o domínio do dinheiro sobre uma pessoa?
Altemir Carlos Farinhas - No mercado financeiro entendemos que dois fatores influenciam, um é o medo e o outro a ganância. O medo impede a pessoa de crescer financeiramente. Por exemplo: o rico joga para vencer, o pobre para não perder. A ganância afeta muito mais o rico, que é capaz de apostar alto e perder tudo. Como podemos observar essas duas forças contrárias determinam o domínio do dinheiro sobre uma pessoa. Dinheiro não tem sentimento. Quando os desejos superam as necessidades, a pessoa age irracionalmente e gasta mais do que ganha. Em muitos casos entra o que eu chamo de “Lei do Merecimento”, por alguma situação adversa - briga com marido, namorado, patrão - o indivíduo sai às compras, e para compensar, presenteia-se.
RH - Por que tantas organizações têm investimento na reeducação financeira dos colaboradores?
Altemir Carlos Farinhas - Acredito que o grau de endividamento dos colaboradores seja o maior já registrado no Brasil. Essa hipótese não é vista pelo volume de contas em atraso ou indicadores da Serasa, Seproc e outros. Faço essa conjetura com base no número de empréstimos consignados, compras de automóveis com prestações de até 96 meses, volume de cheque especial e cartões de crédito. Grandes empresas observam o volume de funcionários que vêm solicitando adiantamento de férias e até demissão para conseguirem recursos e fazerem frente a tantas dívidas. Um ótimo exemplo é a COPEL - Companhia Paranaense de Energia Elétrica. A empresa oferece palestras sobre educação financeira, o que cria junto aos colaboradores o reconhecimento e o estímulo para a reeducação financeira. Com esse reconhecimento oferece cursos onde o assunto é tratado de forma detalhada, obtendo-se melhores resultados. A empresa inseriu o tema no PPA - Programa de Pré-Aposentadoria -, e na SIPAT.
RH - De forma prática como a educação financeira deve ser disseminada no ambiente corporativo e qual o papel do profissional de RH nesse processo?
Altemir Carlos Farinhas - Primeiro é preciso conquistar a atenção do colaborador para o tema. A palestra é apenas o começo da caminhada rumo à reeducação financeira. Acreditamos que a melhor maneira de se aprender sobre educação financeira pessoal, é transmitir esse assunto tão sério de forma descontraída, dinâmica e prática. O objetivo final é que cada participante seja capaz de buscar uma vida melhor. O segundo passo é proporcionar um curso de educação financeira pessoal, onde o assunto será tratado com maior profundidade. É durante o curso que a pessoa vivencia seus problemas em relação ao dinheiro, observa que o problema não é somente seu, que apenas muda de endereço, que não é uma questão de cultura ou salário, mas sim de hábitos e atitudes corretas. Com essas ferramentas proporcionam-se estímulos e instrumentos, para que as pessoas melhorem seus hábitos financeiros.
RH - É importante que a educação financeira deva ser extensiva aos familiares do colaborador com problemas de endividamento?
Altemir Carlos Farinhas - Parabéns pela pergunta. Essa é a visão correta do problema. Ë necessário encontrar a fonte, pois quando conhecemos a causa, elimina-se o efeito. Muitas vezes o problema está no sistema, na família, e quando todos participam é mais fácil detectar as fraquezas e encontrar as forças necessárias para o equilíbrio financeiro.
RH - Existe uma "crença" de que as pessoas que ganham salários mais baixos são as mais endividadas. Isso corresponde à realidade?
Altemir Carlos Farinhas - Não é bem assim. As pessoas com salários mais baixos assumem vários compromissos financeiros, movidos pelo marketing, pela facilidade de crédito, por diversos apelos. Um dado importante é que muitas assumem compromissos que podem pagar, e com isso conseguem mobiliar a casa, comprar eletrodomésticos, computadores e outros produtos que antes eram apenas um sonho. Em muitos casos o erro das pessoas que ganham pouco é fazerem a conta do “CABE”. Eu ganho 800 reais uma prestação de “oitentão” cabe. Só que 80 reais equivalem a 10% do salário, não é o quanto “cabe” é o quanto eu posso. E isso a pessoa só fica sabendo depois de fazer Orçamento Financeiro Familiar. A classe média é quem vai pagar a conta. Em sua maioria não aceita uma queda no padrão de vida, procuram manter uma vida de aparência e com isso alimentam o monstro do endividamento. As pessoas compram o que não precisam, com o dinheiro que não possuem para agradarem pessoas que nem ao menos gostam.
RH - Quem recebe um salário alto se sente tentado a gastar mais e contrair, conseqüentemente, dívidas preocupantes?
Altemir Carlos Farinhas - É a pirâmide de Maslow, assim que uma necessidade é suprida aparece outra. Infelizmente o ser humano é altamente influenciável, e quando ganha mais começa a viver em outra esfera, outro grupo de pessoas, outro padrão de vida. Se a pessoa não aprendeu com seus erros, está fadada a comprometer o novo salário e mais um pouco.
RH - Algumas organizações oferecem linhas de crédito, com desconto na folha de pagamento. Essa é uma boa alternativa para tirar os funcionários do pesadelo das dívidas?
Altemir Carlos Farinhas - Observando o lado prático e técnico, é uma boa alternativa. Juros mais baixos que os praticado no mercado, facilidade para obter o empréstimo e para o lado do credor a garantia que irá receber. Porém, costumo reforçar em meus cursos que “a facilidade aprisiona” ou “cavar um buraco para tapar outro não resolve”. O profissional de RH deve proporcionar palestras ou cursos antes de oferecer essa alternativa. É necessário que o indivíduo primeiro faça um planejamento financeiro, para saber o quanto pode assumir de prestação e negociar melhor o pagamento de suas dívidas. Na maioria das vezes, os empréstimos consignados não são bem conduzidos e o pesadelo das dívidas aumenta e a cada mês o funcionário ao receber o “CHOLERITE”, fica insatisfeito com a empresa e não com a financeira.
RH - Que orientações o Sr. daria a uma pessoa que acumulou dívidas que fugiram ao controle?
Altemir Carlos Farinhas - Procure manter a calma, nada que é feito em momento de nervosismo ou por impulso trará bons frutos. Quem deve ficar sem dormir, nervoso, irritado, preocupado mesmo é o credor, pois quer receber o seu dinheiro de volta.
Regra número 1: faça junto com a família o Orçamento Financeiro Familiar. Despesas ruins devem ser cortadas e as demais reduzidas.
Regra número 2: relacione todas as suas dívidas, taxas, prazos, prestações, saldo devedor. E escreva um histórico da compra, o motivo que o fez assumir essa dívida.
Regra número 3: negocie sempre, mas sempre, em primeiro lugar com o seu credor. Não havendo acordo procure financiamentos com taxas de juros mais baixas e mude o perfil de sua dívida, seja alongando o prazo ou reduzindo o saldo devedor. Anote tudo, nome da pessoa com quem você está falando, número de protocolo, qual foi a sua proposta, qual a proposta do credor.
Regra número 4: saiba que você pode. Nenhum problema é maior que você ou sua família. Se o problema é muito grande, vai demorar um pouco mais de tempo, mas você resolve. Busque em você algumas soluções, vender o carro, televisão, fazer dinheiro com alguma coisa que você pode abrir mão. Não é vergonha retroceder para depois avançar.
Regra número 5: para não se endividar e evitar compras desnecessárias faça três simples perguntas - Eu quero? Eu posso? Eu preciso?
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